Epílogo
À borda de um penhasco sem nome, ele põe-se de pé: uma estátua de mármore travertino, pálida como as nuvens do céu. Ele vê que não há cores na vida, não nos cortes escarlates das suas tatuagens, não nos retalhos apodrecidos de seus pulsos onde as correntes rasgaram sua carne. Seus olhos são pretos como a tempestade agitada que marca o Egeu abaixo, que termina com a espuma que se aferventa nas rochas acidentadas. Cinzas, somente cinzas, desespero, e o chicote da chuva invernal. Essas são as recompensas de dez anos de serviço aos deuses. Cinzas e putrefação e decadência, uma morte solitária e fria. Seus únicos sonhos agora são de esquecimento. Ele foi chamado de Fantasma de Esparta. Ele foi chamado de Punho de Ares e de Campeão de Atena. Ele foi chamado de guerreiro. Um assassino. Um monstro. Ele foi todas essas coisas. E nenhuma delas. Seu nome é Kratos, e ele sabe quem são os verdadeiros monstros. Seus braços pendem, suas vastas linhas de músculos fortes e entrelaçados são inúteis agora. Suas mãos trazem calos endurecidos não somente pela espada e pela lança espartana, mas pelas Lâminas do Caos, o Tridente de Poseidon, e até pelo lendário Relâmpago de Zeus. Estas mãos tiraram mais vidas do que Kratos tenha inspirado e expirado, mas agora, elas não têm armas para empunhar. Tudo o que ele pode sentir é o gotejar de sangue e pus que pingam de seus pulsos dilacerados. Seus punhos e antebraços são símbolos verdadeiros de seu serviço aos deuses. A maltrapilha e descascada carne treme no vento cruel, se tornando enegrecida de podridão; e até os ossos padecem pelas cicatrizes deixadas pelas correntes que uma vez fundiram-se lá: as correntes das Lâminas do Caos. Estas amarras já não existiam mais, arrancadas dele por cada deus que se impôs sobre ele. Aquelas correntes uniam as lâminas a ele, e ele às lâminas; aquelas amarras eram os vínculos que o algemavam a serviço dos deuses. Mas o trabalho havia acabado. As correntes se foram, e as lâminas com elas. Agora ele era nada. É nada. Tudo o que não o abandonou, ele se livrou, atirou fora. Sem amigos, ele é temido e odiado pelo mundo, e nenhuma criatura viva pode olhá-lo com amor ou com alguma sugestão de afeição. Sem inimigos, ele
não tinha mais nenhum vivo para matar. Sem família... E, mesmo agora, é um lugar no seu coração que ele não se atreve a espiar. E, finalmente, o último refúgio dos perdidos e solitários, os deuses... Os deuses fizeram de sua vida um escárnio. Tomaram-no, moldaram-no, transformaram-no em um homem que não aguenta mais ser. Agora, no final, ele não consegue nem se enfurecer. – Os deuses do Olimpo me abandonaram. Ele pisa nos últimos centímetros do penhasco, suas sandálias raspam no cascalho da beirada esfarelada. Trezentos metros abaixo, bocados de nuvens giravam e trançavam uma malha de névoa entre ele e as pedras pontiagudas banhadas pelo mar Egeu. Uma malha? Ele sacode a cabeça. Uma malha? Antes uma mortalha. Ele fez tudo que um mortal poderia. Ele completou proezas que nem mesmo os deuses poderiam igualar. Mas nada apagava a sua dor. O passado de qual ele não pudera escapar trazia a agonia e a loucura como seus únicos companheiros. – Agora não há esperança. Não há esperança para este mundo, mas para o próximo, dentro das bordas do poderoso Estige, que faz fronteira com o Hades, lá corre o rio Lete. Um esboço da água negra que, dizem, apaga a memória da existência, deixando-a em sombra, e o espírito vagueia para sempre, sem nome, sem casa... Sem passado. Esse sonho o impulsiona a tomar um final e último passo, que o empurra para o meio das nuvens que despedaçam-se em volta dele, enquanto ele cai. As rochas carcomidas pelo mar se materializam, ganhando solidificação e tamanho, e correndo para esmagar sua vida. O impacto engole tudo que ele é, tudo que ele fez, e tudo que foi feito a ele, em uma erupção estilhaçada de noite. Mas, mesmo nisso, ele está condenado à decepção. * * * ELE NÃO VÊ A FIGURA ao seu lado nas escuras ondas do Egeu; ele não sente as mãos que erguem-no do mar. Ele não sabe que está sendo carregado
para um lugar muito além do que qualquer mortal poderia ir. Quando, então, seus olhos se abrem, ele está diante de um portão majestoso de ouro e pérola, fixado em uma muralha construída de nuvem. E com ele está uma mulher de beleza sobrenatural, vestida com uma armadura reluzente e carregando um escudo em que está encrustado a figura da cabeça da Medusa. Ele nunca a tinha visto antes. Mas ele a conhecia há anos, e ela não podia ser confundida com qualquer outra. – Atena. Seu rosto impecável se volta para ele, e a majestade serena de seu olhar toma-lhe o fôlego. – Você não vai morrer hoje, meu espartano – diz ela, e sua voz soa como música marcial de flauta e tambores. – Os deuses não podem permitir, eu não posso permitir... que alguém que tenha realizado tal serviço pereça por sua própria mão. Ele apenas fitou-a, mudo tanto pela injustiça amarga quanto pela graça incompreensível. – Há mais trabalho aqui do que você pode imaginar. Ela levanta uma mão e o portão imenso abre-se diante dele, revelando escadas que ascendem na nuvem. – Mas você salvou mais do que a sua própria vida hoje, e realizou uma ação maior do que conquistar a sua própria vingança. Zeus declarou-o digno, e você não irá negá-lo. Existe agora um trono vazio no Olimpo, meu Kratos, e eu tenho um último serviço para exigir de você. Tome essas escadas. Elas levam àquele trono vazio. Para o seu trono. – Eu não entendo... – As palavras caem espessamente de seus lábios entorpecidos. – É possível que você nunca venha a entender. Vou dizer-lhe apenas isso: você não deve morrer por sua própria mão e manchar o Olimpo com o seu sangue. E, assim, você está aqui. Conosco. Para sempre. É o desejo de Zeus. Kratos sobe a escada por longo tempo. Agora ele pode ver no topo um trono de azeviche brilhante: mortal, resplandescente, negro, digno do deus que ele está prestes a se tornar. A cada passo, as imagens e sons de batalha apressam-se sobre ele, de todo o mundo e por toda a eternidade, pois tempo e lugar são diferentes para os deuses.
Ele teme, por um instante, ou por um milênio, que seus pesadelos tivessem voltado a violar a sua mente, mas ele não reconhece os soldados que vê. Eles usam armaduras de metal e marcham em falange; cavalaria e carros apoiam seus espadachins, homens de lança, e arqueiros. – Atravesse o Rubicão –, um general urra em uma língua estranha e estrangeira, mas Kratos entende. No passo seguinte, mais uma vez ele ofega. Armaduras curiosas substituem o desenho mais familiar. Correndo por ele estão homens com olhos asiáticos, gritando em uma língua que ele não reconhece, embora novamente pudesse deduzir. Era a batalha de Sekigahara. – Por Xogum! Os nomes surgem do nada e não significam nada para ele, mas mesmo que seus aspectos e armaduras sejam estranhos, a carnificina que provocam é muito familiar. Milhares estão mortos por todos os lados, embora ele ainda esteja na escada para o seu trono. No próximo degrau, ele encontra-se quase titubeante, quando um enorme pássaro com asas de metal duro e uma roda giratória mergulha diante dele. Sudetos. Enormes explosões balançam-no quando a máquina, não um pássaro, mas uma máquina voadora, um Stuka (outra palavra desconhecida que ele compreende) sai de um mergulho e ruge para longe no sujo céu cinzento. E logo acima, uma claridade brilhante faz com que ele aperte os olhos, que ficam cheios de sombras, mas ele sabe que nenhuma forma de luz pode prejudicá-lo. Nada pode prejudicá-lo. A luz vem de uma vasta nuvem que se enrola acima de uma cidade em chamas, florescente, enquanto se levanta em surpreendente forma, como um cogumelo branco resplandecente maior do que Atenas. Ele olha em outra direção, e diante dele se desdobram colinas arborizadas onde os rios correm vermelhos de sangue. Antietam? Que idioma seria esse? Essas pessoas, esses lugares, vieram com ele a cada passo. Waterloo. Agincourt. Passo Khaibar. Glípoli. Xilang-fu. Roncesvalles. Stalingrado e o Bulge e Normandia. O caos da guerra assola ao redor dele, uma cadeia laçada interminável de vitórias impressionantes e horríveis derrotas. Quando ele chega ao trono, ele faz uma pausa por um momento e olha de volta para o lugar de onde ele veio. Espalhados diante dele estão toda a Grécia, todo o Mediterrâneo, África, Europa, Ásia e terras estranhas do outro lado do mundo. Em qualquer lugar que uma batalha acontecia, em qualquer lugar que a guerra era combatida, este é o seu reino. Mas entre tudo no seu reino, a parte que
mais tem significado para ele, é o palco das batalhas que irão destruir o mundo em pedaços. Porque o Olimpo, também, faz parte de seu reino, da maneira que ele desejar construí-lo. Kratos, uma vez de Esparta, senta-se no seu trono, projetos escuros se desenrolam por trás de suas sobrancelhas. Eles querem um Deus da Guerra? Ele irá mostrar-lhes a guerra de uma maneira que eles nunca conjuraram em seus piores pesadelos. Kratos do Olimpo, Deus da Guerra, pousa o olhar sobre o seu reino, e sua fúria queima.

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