sábado, 19 de maio de 2018

CRÔNICAS 37 : GAD OF WAR

Dois

eus, meu senhor... Atena levantou os olhos para o grande Pai dos Céus sentado em seu trono de alabastro. O Rei dos Deuses descansava em seu vasto assento de autoridade, régio e à vontade com o poder que ele comandava desse trono elevado. – Zeus, meu amado pai – ela emendou. Ela escolheu suas palavras para lembrá-lo de maneira sutil de que ela era sua favorita. – Pouco importa o que Ares pensa de mim. Mas agredir deliberadamente meu animal humano – você proibiu pessoalmente esse tipo de comportamento em Troia. – E Ares não levou esse decreto muito a sério mesmo então. Se eu bem me lembro, nem você. Atena não poderia ser tão facilmente distraída. – Você vai permitir que o Deus da Matança desafie a sua expressa vontade? – Minha vontade?
O riso de Zeus ecoou por toda a câmara de audiência e por todo o Monte Olimpo. – Eu acho que você desenvolveu uma ternura pessoal por esse seu mortal. Qual é seu nome? Ah, sim. Kratos. Poderia você ter... concebido uma simpatia por ele? Um mortal? Atena não mordeu a isca tão facilmente. – Eu ouço as súplicas dos meus adoradores. Kratos não é diferente. – Mas você se importa mais com ele do que com os outros. Eu vejo em seus olhos. – Ele é... entretenimento. Nada mais. – Eu também apreciei suas façanhas. Especialmente quando ele ainda era uma ferramenta de Ares – conquistar toda a Grécia? Suas façanhas foram material de lendas. Então, ele tinha que estragar tudo com os acontecimentos na sua pequena aldeia, no seu templo...
– Nós não temos que enfatizar esse crime particular, temos, pai?
Zeus coçou sua longa barba de nuvens trançadas. – Eu considerei parar Kratos eu mesmo, mais de uma vez, mas eu... – sua estrondosa voz cessou enquanto ele olhava para alguma distância invisível, perdido em contemplação. – Nunca parecia ser a hora certa. – Ele não é o único que precisa ser parado, pai. E você sabe disso. Como filha favorita de Zeus, Atena se atrevia a falar com uma irreverência que poderia ter auferido exílio a outro deus do Olimpo e uma queda dolorosa à terra, para evitar os raios de Zeus por um século ou dois. Mas, até mesmo para a sua favorita, a tolerância do Pai dos Céus era limitada. Um pequeno franzir de testa escureceu seu rosto e trouxe uma cor cinza violeta às nuvens de sua barba e de seu cabelo. Um trovão distante crepitava sobre o Olimpo. – Não presuma que pode dar lições a seus superiores, criança. Atena assistiu à cena sem mostrar nenhuma hesitação. – O senhor esmagaria uma marionete porque sua dança o ofende? – Isso depende da marionete. Um pequeno sorriso carinhoso tocou a boca do Pai dos Céus, e Atena sabia que o perigo havia passado. – E, com certeza, do titereiro. – Kratos não proporcionou uma consistente e agradável diversão sob a minha mão? Atena agora estava em terreno mais seguro. O tédio era uma aflição mais temível para os deuses do que a praga para os mortais abaixo. – As suas lutas já não o entretêm mais? – Não, ele é notável, filha. Realmente. – Então por que, ó pai, você permite que o meu irmão Ares o atormente tanto? Ares está tentando matá-lo, você sabe.
– Sim, sim – respondeu Zeus. – Mas ele não teve muito sucesso, teve? Kratos tem se provado... agradavelmente durável.
– As Lâminas do Caos concedem-lhe poder acima dos seus consideráveis dons naturais. Mas, ainda assim, você acha conveniente que seu próprio filho se encarregue da destruição do seu mortal favorito? – O meu favorito? – Zeus novamente coçou a barba de nuvem tempestuosa, meditando. – Bem, eu suponho que ele seja. Na verdade, Kratos pode ser útil para mim. Em meu nome, envie-o em uma missão em Creta, para cuidar daquela coisa desagradável. Ele é perfeito para corrigir o que está escangalhado. Sim, Kratos pode ficar a meu serviço imediatamente. Fique tranquila, Atena. Vou falar com o Senhor das Batalhas na próxima vez que ele se apresentar diante de meu trono, e orientá-lo a cessar essa perseguição. Isso irá satisfazer a minha filha mais querida? Atena abaixou a cabeça recatadamente, para melhor ocultar um sorriso discreto. – É tudo o que posso pedir, senhor meu pai. Estou certa de que Ares não vai arriscar desagradá-lo. – Está certa? Zeus sentou mais ereto no trono, trazendo ambas as mãos para os joelhos enquanto se inclinava na direção dela. – Há algo que você não está me dizendo, minha pequena deusa astuta. Algum projeto que deve progredir para sua satisfação. Eu já vi esse olhar antes, como quando você me fez aceitar a destruição de Troia, se eles falhassem em proteger a sua estátua... e daí você fez aquele truque sujo com Odisseu e Diomedes. O Rei dos Deuses deu um suspiro com um matiz de melancolia. – Eu amava Troia. Vários de meus filhos – os seus próprios irmãos meio mortais – morreram tentando salvar aquela cidade. Eu não vou ser enganado novamente, criança. – Enganá-lo, meu senhor? Como eu poderia enganá-lo, meu senhor? E como eu poderia pensar nisso? “E por que eu precisaria?”, pensou, “a verdade será suficiente”. – Eu não sou a Deusa da Justiça, bem como da Sabedoria? E é a justiça que eu procuro aqui em frente ao seu trono, pai amado. Kratos já sofreu muito nas mãos do meu irmão. – Justiça – Zeus murmurou. – A justiça é uma corrente inventada pelo fraco...
– ... para algemar o forte – Atena terminou a frase com ele. – Eu ouvi o senhor dizer isso antes. – “Mil vezes”, ela pensou, mas manteve esse comentário desrespeitoso para si mesma. – Não é Kratos quem pede. Ele não apela para a ajuda dos deuses desde aquele dia em que implorou a Ares para salvá-lo em face à horda de bárbaros. Eu que peço, pai. Qualquer instante pode ser seu último – Atena disse.
Ela abriu a mão em direção à fonte de ouro que borbulhava ao lado do trono de Zeus. – Observe. As gotículas da fonte se transformaram na imagem de uma tempestade lançada sobre o Egeu, cheia de destroços de incontáveis navios. No coração da imagem, chama e relâmpago explodiram do aço faiscante enquanto Kratos usava as Lâminas do Caos como arpões para cortar o pescoço do poderoso réptil, que ele havia escalado implacavelmente, desferindo cortes enquanto subia. – Essa é a Hidra? – Zeus disse com uma leve careta de perplexidade. – Hércules não estrangulou essa besta anos atrás? E ela sempre foi tão enorme? – Essa é uma Hidra nova, recém-nascida, meu pai e senhor. Essa Hidra é a semente de Tifão e Equidna, os mesmos grandiosos Titãs que você derrotou e aprisionou no submundo mais profundo da terra, mais profundo que o próprio Tártaro. Eles são os ancestrais de toda a perversão repugnante da natureza que o meu irmão inflige a Kratos. A expressão de perplexidade de Zeus escureceu e se tornou uma carranca de desagrado. – Soltar essa criatura em Kratos sem minha permissão cheira a obstinação por parte de seu irmão, mas há pouco que eu posso fazer para ajudá-lo. O mar é o reino de meu irmão, Poseidon. Até mesmo golpear a criatura morta com meu raio seria um insulto à sua soberania – e Poseidon é sensível a respeito de sua dignidade, estou certo de que você se recorda. – Eu me lembro, pai. acredite, eu me recordo. Mas não é auxílio, nesta crise particular, que eu procuro. Kratos pode lidar com essa criatura sem a sua ajuda. Zeus levantou uma sobrancelha. – Você coloca fé considerável em suas habilidades. – Senhor meu pai, eu acredito que ele seja quase indestrutível. Mas eu tenho meus próprios planos para ele, planos que ele não poderá cumprir se tiver de lutar constantemente contra as legiões monstruosas de meu irmão. Peço apenas
que você proíba Ares de quaisquer futuros ataques. Zeus se sentou ereto no trono, reunindo sobre si o manto radiante da realeza. Ele se virou em direção à fonte. – Onde está Ares agora? Um arco-íris na névoa rodopiou para mostrar Ares caminhando através de um deserto, como um vulcão que acaba de renascer. Seu cabelo e sua barba irradiavam com a sua sempre ardente chama, e o negro de sua armadura escurecia o sol. A cada um de seus passos, homens eram esmagados sob suas sandálias encharcadas de sangue, como formigas são esmagadas por mortais. – Onde ele está? – Zeus disse. – O que ele está fazendo naquele desolado deserto egípcio? – Espalhando terror e destruição. – Sem dúvida – disse Zeus, com uma risada apreciativa. – É uma pena interromper o seu divertimento. O Rei do Olimpo levantou seu punho forte e respirou tão profundamente que alterou o padrão de tempestades em todo o Mediterrâneo, em seguida, soltou uma única palavra: – Ares.
A imagem do Deus da Guerra se contraiu de forma visível e, em seguida, lançou um olhar sombrio para trás, sobre um dos ombros, sem responder. Ele deliberadamente retornou ao esmagamento de seres humanos. – Como ele ousa me ignorar? Zeus puxou outro fôlego, e esse causou a formação de uma geada, e nuvens apedrejaram a terra com granizo. – Meu filho, sua presença é requisitada no Olimpo.
Novamente, o Deus da Guerra se contraiu, mas apenas abaixou a cabeça com tristeza, como se não pudesse ouvir. – Você deve parar o ataque da sua Hidra imediatamente. Eu tenho usos para o mortal Kratos. Ares? Ares! Eu não serei ignorado enquanto comandar você.
As sobrancelhas de Zeus franziram, e as nuvens de sua barba e juba ficaram sombrias e escuras como uma tempestade de inverno. Atena deu um passo para o lado. Ela havia antecipado esse momento com tanta certeza como
um oráculo que prevê o futuro escondido de seus poderes divinos, e ela não queria ficar no caminho. Zeus ergueu a mão, palma para cima, e uma pequena lança de energia cintilante se formou. Com um estalido de sua mão, como se ele não fizesse nada mais do que espantar uma mosca, soltou o raio. Ele brilhou perto de Atena e piscou longe no céu. Um instante depois, um raio atingiu o deserto da imagem, tão perto de Ares que o deus recuou da explosão feita de rocha derretida e areia fundida. O Deus da Guerra levantou o rosto para o céu, suas feições torcidas com ressentimento amargo; Atena podia sentir a raiva do deus por toda a retorcida e devastada terra. – Por que meu pai me perturba enquanto trabalho? – Não é sua função perguntar – trovejou o Rei dos Deuses. – Sua função é obedecer. Venha para o Olimpo e se ajoelhe diante do trono para pedir perdão. – Eu não irei, não enquanto a traiçoeira, mentirosa, frígida cadela porca que você chamou de minha irmã estiver perto do local. O cheiro de sua corrupção repele todos os deuses honestos.
Zeus ficou de pé. Relâmpagos brincaram em suas sobrancelhas. – Você ousa me desafiar? – Seu raio me pegou de surpresa. Eu não me assustarei facilmente mais uma
vez.
Ares descansou seus punhos poderosos em seus quadris. Cada movimento seu fazia suas armas colidirem com o som da batalha. – Você é bem-vindo a deixar o trono estofado em seu palácio com aroma de mel e aparecer no mundo real para me pegar. – Cuidado, Ares. Meu raio pode atingir até mesmo você.
Ares jogou seus cabelos de fogo com desdém. – Você acha que vai me assustar com luzes e barulho? Eu? O Deus da Guerra? Sou eu uma virgem covarde, cinza e fria, suplicando diante do seu trono, falando mentiras e perfídias? Eu sou Ares. Se você acha que pode induzir a guerra contra mim, ó pai, recorde que a guerra é o meu reino!
– Você vê? – Atena disse suavemente. – Ele é como eu lhe disse. Sua
loucura germina a cada dia que passa. Se ele se atreve a desafiar seu comando, a que ele não se atreverá? Pai, pode tornar-se necessário...
– Não – Zeus disse severamente. – Não, Ares não é tolo a ponto de me desafiar. Atena percebeu que o Pai dos Céus falou uma coisa, mas pensou outra. Fazer com que Zeus colocasse Kratos sob sua proteção, mesmo que por um curto espaço de tempo, havia lhe dado uma grande oportunidade. – Não é a morte a pena por rebeldia? – Eu já decretei que os deuses não poderão guerrear uns contra os outros. Nenhum deus pode matar um deus. Essa lei é absoluta e se aplica até mesmo a mim. Meus irmãos e eu destruímos os Titãs por conta de suas lutas constantes entre si; sua amargura sobre seus antigos e nunca esquecidos feudos dividiu-os até que fosse tarde de mais. Os Olimpianos não sofrerão o destino dos Titãs. Se Ares deve ser... aniquilado, não acontecerá pelas minhas mãos. Nem pelas suas, Atena. Ela baixou a cabeça, novamente para esconder o nascimento de um sorriso. – Como meu pai comanda. Eu não tenho sede do sangue de meu irmão. – Eu não acredito que ele diria o mesmo sobre você. Ela abriu as mãos, impotente. – Ele não pode aceitar que Kratos e todos os exércitos da humanidade estão agora sob meu comando, enquanto entre as suas legiões estão numerados apenas os mortos-vivos e as crias sombrias de Tifão e Equidna. Mas ele não foi enganado, nem mesmo tratado injustamente. Você estava lá, pai. Você viu a disputa, e você testemunhou que Ares concordou livremente com a minha barganha. – Sim. E eu vi naquele momento o mesmo brilho que você tem em seus olhos agora. Ele não considerou o que a barganha queria dizer – e você bem sabia que ele viria a se arrepender desse acordo. – Meu irmão é impulsivo e obstinado. Sou eu a culpada de que seu desejo por sangue domina sua razão? Mesmo que eu lhe houvesse oferecido o dom da minha previsão, você acha que ele teria aceitado? Zeus balançou a cabeça, sorrindo com carinho, apesar do assunto terrível da conversa. – Nem mesmo o Rei do Olimpo pode ganhar uma discussão contra a deusa
dos estratagemas. O que você propõe? – Se ele não pode ser morto – Atena disse cuidadosamente –, ele ainda pode ser humilhado. – Uma lição de humildade pode muito bem ser justificada, já que ele não pode ser autorizado a ignorar meus comandos dessa forma arrogante – Zeus murmurou, pensativo. – Como você pretende ensiná-lo? – Eu não sou a mentora de que Ares precisa – Atena disse, ainda falando nada menos do que a pura verdade. – Se meu pai e senhor pudesse conversar com seu irmão Poseidon e pedir que o Rei do Oceano me receba e ouça a minha palavra, a lição vai ensinar-se por si mesma. – É mesmo? O lampejo do relâmpago voltou à testa de Zeus, e seus olhos se estreitaram em suspeita. – Isso, também, você planejou, não é? Parece um estratagema excessivamente complexo para uma recompensa tão pequena. – Envergonhar o meu irmão nunca foi meu objetivo – Atena disse. E isso também era verdade, absoluta e inconfundível. O plano de Atena nunca foi humilhar seu irmão. Desde o incidente de Kratos em seu templo na aldeia, ela havia entendido outra verdade, que o resto do Olimpo apenas começara a vislumbrar: Ares era mais do que teimoso e desobediente, muito mais do que brutalmente ambicioso e sanguinário. O Deus da Guerra era insano. * * * DO OLIMPO DESCEU a Deusa da Sabedoria e da Guerra. Cada passo causava um novo canto dos pássaros. Logo as melodias doces das aves tornaramse uma torrente de água batendo contra as margens rochosas. A água marinha enevoava seu rosto e formava gotículas em seu cabelo, como constelações de diamantes estrelados. Sua armadura de bronze brilhava no cintilante sol dos trópicos. Quando ela finalmente parou, postou-se em uma linha certeira que se esticava para os lados, mais longe do que mesmo um deus poderia enxergar. O mar sem fim à sua frente ergueu-se no horizonte distante. – Ó poderoso Senhor das Profundezas, a Deusa da Guerra gostaria de falar com você – disse ela. – Preste atenção ao pedido de meu pai e ouça a minha
palavra. Atena esperou. Seria um insulto deliberado? Poseidon ainda estaria chateado com ela por conta da destruição de Troia? Ou era o fruto de um rancor anterior? Ela nunca se dara particularmente bem com o Rei do Oceano, desde que rivalizaram pela nomeação do que era hoje a cidade de Atenas. Talvez ela devesse ter trazido um presente. Finalmente, o oceano começou a borbulhar no horizonte distante. A formação de espuma correu em direção à costa onde Atena estava e, um instante depois, um vasto jato de água rugiu para encontrar o mar no céu infinito. Equilibrado no meio da coluna montanhosa de água estava Poseidon, os braços musculosos cruzados sobre o peito espesso. Sua coroa era coberta de crustáceos, e de seu tridente pingavam sangue e entranhas. – Eu trago os cumprimentos do Olimpo, Senhor Poseidon – disse ela, curvando-se profundamente. – Eu não tenho tempo para você, Atena. O Senhor do Mar fez um gesto brusco por cima do ombro, com o tridente. – Meus negócios me levam muito além dos Pilares de Hércules.1 Atena assentiu com simpatia. – Atlântida de novo? – Aquelas pessoas são um problema sem fim – Poseidon murmurou.
– Sua paciência com eles é admirável. – Admirável, talvez, mas a irritação é uma lâmina que talha minha paciência perigosamente curta. Meu irmão pediu que escutasse a sua petição. Por respeito a ele, eu ouço. O deus do mar se inclinou em direção a ela. – Brevemente. Atena levantou uma mão aberta. – Que não haja sangue ruim entre nós, meu tio. A nossa contenda deveria ser diminuída pelo tempo, não deveria? Não era tão significativa para que suas feridas ficassem inflamadas até hoje.
Poseidon levantou-se a uma altura ainda maior e empunhou o tridente na direção de Atena. – Aquela cidade deveria ser minha! Eu quebrei a rocha sobre a qual a Acrópole se assenta e… – E uma nascente irrompeu, de fato, mas de água salgada – Atena disse simpaticamente. – Devo ser culpada pelo povo da cidade preferir minha oliveira à sua fonte de água salgada? O deus do mar falou carrancudo: – Atenas é um nome terrível para uma cidade.
– Poseidia seria mais melodioso – ela admitiu. – Se o meu tio amado puder ser apaziguado por um gesto mais substancial, gostaria de lembrá-lo de que os atenienses – graças à patronagem do meu generoso senhor e tio – são os maiores velejadores em todo o mundo conhecido. Sua força está em sua marinha, e eles fazem honras ao Senhor do Oceano todos os dias. – Bem... – Poseidon resmungou, o som das ondas quebrando contra um penhasco desprotegido. – Suponho que seja verdade. Vamos deixar nossas divergências para trás, minha sobrinha. Que transação traz você neste dia ao meu litoral sem fim? – Meu tio e senhor, vim pedir desculpas pelo insulto mortal de meu irmão à sua soberania. – O quê? – as sobrancelhas de espumas do mar de Poseidon se juntaram, e o chão debaixo dos pés de Atena deu um aviso barulhento. – Qual irmão?
– Ares, é claro. Que outro deus seria atrevido o suficiente para incitar a sua raiva? – Além de você mesma? – Eu sei que ultimamente você tem se preocupado com Atlântida – o que é a única explicação conveniente para permitir que os monstros de Ares enxameiem seus mares sem contestação. – Enxameiem meus... Seu olhar foi para um local distante, e o que sua visão deífica encontrou levou-o a arfar como uma baleia. – Uma Hidra? No meu Túmulo dos Navios! O descaramento. Eu disse a Zeus, mais de uma vez, ele é muito tolerante com seus filhos! Ares deveria ter
passado uma era inteira do mundo ao lado de Sísifo! Eu não sou tão indulgente como meu irmão. Eu vou esmagá-lo! Onde está ele? Onde? – Longe de seu reino, meu senhor e tio – a salvo em um distante deserto. Poseidon rugiu, ergueu os punhos, e todo o mundo tremeu. – Eu sou chamado Tremedor de Terras por nada? – Meu senhor e tio, por favor! – Atena gritou. – Não deixe seu furor recair sobre ele diretamente! Não há vergonha em ser superado pelo grande Poseidon, imperador de dois terços de tudo o que existe. Nenhum deus menor pode enfrentar qualquer um dos reis irmãos. Se você realmente deseja punir Ares, você deve ferir seu orgulho.
Os tremores desapareceram. – Há verdade nisso – admitiu Poseidon. – Mas qual é a melhor forma de fazê-lo? – Mostre a todos os deuses que até mesmo um mero mortal pode superar os planos de Ares e derrotar seus desejos – Atena disse com casualidade estudada. – Sim, isso sim – Poseidon disse. – Mas que mortal? Hércules? Ele não está ocupado em algum lugar de Creta? Pirítoo está no Hades, Teseu é velho, e Perseu... quem sabe o que ele tem feito? Eu não acho que ele seja confiável. – Há outro – disse Atena, obrigando-se a não mostrar qualquer sinal de emoção. – O senhor meu tio ouviu falar de um mortal em particular, chamado pelos homens de Fantasma de Esparta? Seu nome é Kratos. O grande Poseidon inclinou-se na direção dela, interessado. – O Punho de Ares? – Não mais. Agora o Fantasma de Esparta me serve. Você não participou do Desafio dos Deuses da Guerra? Ele assentiu lentamente, lembrando. – Sim, sim, claro. Tinha apagado de minha mente – o destino dos exércitos da terra significa pouco para o mar. – Kratos havia renegado o serviço a Ares mesmo antes de eu tê-lo ganhado no desafio, assim como o resto dos exércitos da humanidade. – Oh, sim, eu me lembro, agora que você mencionou – tem algo a ver com
aquela pequena vila e o seu templo, que Kratos saqueou, não foi? – Sim, tio. E, para Kratos, foi um horror além da imaginação. Isso o persegue até hoje. – Então, esse Kratos é o mortal que você tem em mente? – Sua percepção é justamente lendária, meu tio e senhor. Ares odeia Kratos com tal paixão que mesmo os deuses mal podem compreender, e apenas um sonho distante de vingança contra o Deus do Morticínio mantém Kratos lutando. Não poderia haver maior vergonha para Ares do que ser frustrado por Kratos. – Como um mero mortal pode ter esperança de subjugar as legiões de Ares? – Somente as Moiras saberiam – Atena disse, um cintilar iluminando seus olhos acinzentados –, eu tenho uma ideia... 1 No livro e no game os autores optaram por usar o nome Hércules, a versão romana da alcunha do semideus grego Héracles. (N. E.)


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