sábado, 19 de maio de 2018
CRÔNICAS 40 : GOD OF WAR
Cinco
Quando Kratos virou a chave pela qual havia lutado por tanto tempo para obter, o selo místico evaporou e um grito de cortar a alma veio da cabine do capitão. Ele chutou a porta, esperando encontrar o que comandava tais proteções, tão potentes. E, com isso, ele não estava decepcionado. Kratos encontrou um tesouro superior turquesa e ouro. As três meninas eram tão adoráveis quanto quaisquer outras que ele já vira. Ou, talvez, elas simplesmente parecessem formosas em comparação com as enegrecidas e pútridas faces dos mortos-vivos que as rasgavam com mãos providas de garras. Kratos congelou por um instante, paralisado pela incompreensão. Como poderiam os mortos-vivos chegar ali? Através da porta trancada? A única resposta que fazia sentido era a sua própria culpabilidade. Ao abrir a porta, ele havia liberado mais do que o feitiço de bloqueio. Ele também havia libertado os mortos-vivos magicamente selados nessa sala para protegê-la contra intrusos. O capitão devia saber como evitar a sua libertação. Kratos havia cometido um erro estúpido e colocado as mulheres em risco. Em um instante, sua confusão se dispersou como folhas antes de um vendaval. Tais coisas imponderáveis eram matéria para horas ociosas. Agora ele ainda estava em uma luta, e dois dos legionários putrefatos se apressaram contra ele, manuseando espadas perversamente curvas. Kratos levou a mão por cima de seu ombro, e o mesmo movimento que chamou as Lâminas do Caos também dividiu cada morto-vivo da cabeça à virilha. Ele se moveu para o quarto e, com a sua próxima guinada, decepou as pernas de um morto-vivo que estrangulava uma das escravas. A criatura caiu, arrastando a menina com ele para o chão, e continuou a estrangulá-la, como se Kratos não tivesse mutilado suas pernas. Kratos cortou seus braços e esmagou seu crânio – mas as mãos decepadas se apertavam, sufocando a vida da mulher. Rosnando, ele se inclinou para rasgar as garras cerradas, mas a cabeça da garota se inclinou em um ângulo louco. Seu pescoço havia se quebrado como um galho. Outro morto-vivo segurava uma mulher, que tentava se libertar no ar entre ele e Kratos, fazendo-a de escudo humano. – Aço funciona melhor – zombou Kratos enquanto enfiava uma lâmina diretamente através de seu torso, encontrando apenas a resistência ligeira dos órgãos internos, e, em seguida, a ponta triturou o morto-vivo que a segurava. Ele torceu a lâmina e ambos caíram sem forças. – Não deixe ele me matar. Eu imploro, não... A terceira mulher morreu com o morto-vivo enfiando a mão ossuda contra
seu tórax, esmagando seu coração ainda pulsante dentro de seu peito. Seus apelos se reduziram a suspiros molhados e borbulhantes, enquanto ela desabava. Dois passos rápidos deixaram Kratos em distância suficiente para um ataque. Desferindo um único corte preciso, ele despachou o morto-vivo, que ainda apertava em sua mão o coração batendo. O morto-vivo caiu e ficou estendido, o coração pulsou, desacelerou para um tremor e, finalmente, parou, tão morto quanto a garota de quem ele havia sido arrancado. Kratos recuou. A carnificina parecia dançar em torno dele. Ele estendeu a mão para se segurar contra o anteparo e, ainda assim, quase caiu. – Pare – ele rosnou ferozmente para si; ele não tinha tolerância para suas próprias fraquezas, da mesma maneira que não tinha para com as dos outros. – Estas não são... não são... As mortes das mulheres não eram piores do que as que ele vira milhares de vezes – não eram piores do que as que ele cometera com suas próprias mãos, sem a menor faísca de arrependimento. Mas a cabine desvaneceu-se quando a escuridão se estabeleceu em torno dele e as visões começaram. Espadas dilacerando pescoços, resultando em barrigas expostas. Gritos de dor e o medonho crepitar da morte. Cabeças explodindo em um gotejar de sangue. E a velha acenando com a mão torta, cacarejando como uma maldição.
– Não – Kratos gritou. – Não! Membros decepados. Os campos cheios de cadáveres, os corvos bicando olhos que fixavam cegamente um céu de chumbo, larvas comendo carne morta. O sangue formando poças em torno do chão do templo, sangue encharcando corpos, sangue... E ainda o riso demente da velha de mão torta... – Não!
Com uma força de vontade que o deixou ofegante, Kratos abriu os olhos com violência. Ele não estava no templo; ele não enfrentava a gargalhada estridente do oráculo da aldeia! Ele estava ali, no extremo fim de dez anos, de pé, nos aposentos do capitão de um navio de escravos, e as meninas abatidas no chão não eram... não eram...
–Atena! – Kratos andou em círculos, então fugiu da cabine. – Atena! – ele correu para a escotilha que levava ao convés. Enquanto se atirava pelo forro manchado e sangrento, ele viu novamente a estátua de madeira de Atena que havia agraciado seu agora afundado navio. A estátua estava na proa da sua nova
embarcação como estivera na antiga, impassíveis olhos de madeira julgando cada um de seus crimes. – Dez anos, Atena! Eu tenho servido fielmente os deuses por dez anos! Quando você vai banir os meus pesadelos? Quando? As visões me assombram até mesmo nas minhas horas de vigília! Com um brilho prateado, suave como a água à luz do luar, a estátua cintilou com a vida. Aqueles olhos impassíveis de madeira agora resplandeciam com o olhar cinzento da deusa. – Requeremos uma tarefa final de você, Kratos. Seu maior desafio o espera – em Atenas, onde, agora, o meu irmão Ares estabelece seu cerco.
Kratos enrijeceu quando novas visões assaltaram seus sentidos. Ele sentiu o cheiro de sangue fresco e carne crua, viu fogo e destruição e campos com mortos empilhados. Ele ouviu os gritos de morte e provou as cinzas dos cadáveres que queimavam. Kratos esforçou-se para fechar os olhos, mas não podia fugir da visão. Ele compartilhou cada morte com cada ateniense assassinado. Ele sentia suas sombras – sua sombra – sendo rasgada de seu corpo aos berros, não por um golpe de espada ou lança, mas pelas garras encrustadas de sangue dos asseclas monstruosos de Ares. – Atenas está à beira da destruição – disse a deusa por intermédio de sua estátua. – É a vontade de Ares ver a minha grande cidade cair.
Kratos podia apenas tentar resistir, conforme visões mais escuras, mais horríveis, o assaltavam. – Zeus proibiu a guerra entre os deuses.
Kratos se sentiu carbonizar com chama imaginária, a carne cozinhando seus ossos – o que restou dele retorceu-se no ar, formando um redemoinho violento até que ele testemunhou a morte de Atenas, como se ele fosse uma águia voando no céu. Então, a visão o libertou, e ele caiu com uma força esmagadora de volta em seu próprio corpo, no convés do navio de escravos. – É por isso que deve ser você, Kratos. Apenas um mortal treinado por um deus tem uma chance de derrotar Ares.
– E se eu for capaz de fazer isso – disse Kratos, firmemente de pé mais uma vez, como convém a um homem –, se eu puder matar o deus, então as visões... elas vão acabar? – Complete essa tarefa final e o passado que o consome será esquecido. Tenha fé, Kratos. Os deuses não esquecem aqueles que vêm ao seu auxílio.
Os olhos da estátua se fecharam, e o brilho da divindade desapareceu. Kratos ficou imóvel por um longo tempo, sentindo uma emoção desesperadamente estranha. Ele ficou maravilhado com isso, com esse sentimento. Ele não conseguia se lembrar da última vez que havia sentido algo assim. Ele se perguntou se poderia ser esperança. * * * MAIS TARDE, KRATOS MARCHOU por toda a extensão do convés, tomando nota dos danos e de como a reparação deveria proceder. Havia uma gaiola cheia de escravos no porão. Eles se tornariam a sua tripulação em troca da liberdade. Posto que Atena lhe confiara a missão de salvar Atenas do exército de Ares, de soldados brotados do Hades, ele não teria mais necessidade de um navio, uma vez que chegasse ao Porto de Zea, no Pireu. A cabine bloqueada do capitão, onde as três mulheres haviam sido assassinadas, indicava como o ex-capitão do navio passava seu tempo, mas Kratos nunca mais entraria naquele compartimento. Mesmo que os escravos arrastassem os corpos para fora e o limpassem da proa a popa, ele nunca entraria nesse quarto novamente. Ele não se atrevia a arriscar mais visões. Mas havia outro quarto, também magicamente barrado, faltando até mesmo um buraco de fechadura. O capitão havia mantido concubinas em sua própria cabine; que tesouro ele teria achado precioso o suficiente para trancar até de si mesmo? Kratos tinha pouca paciência para especulação ociosa. A melhor maneira de descobrir o conteúdo da sala era arrombando a porta e entrando. Passando nervosamente pela porta da cabine do capitão – ele não se permitiria nem olhar dentro dela –, ele parou antes do portal mágico e começou a examiná-lo, buscando qualquer maneira óbvia de abri-lo. Afinal, se o quarto contivesse qualquer coisa de valor real, ele também queria ser capaz de bloqueálo. Não encontrando nenhuma maçaneta, alavanca ou fechadura, ele tentou simplesmente impulsionar a porta. Músculos se agrupavam em seus ombros maciços, mas ele não conseguia sequer fazer a porta tremer. Com um grunhido, ele perdeu o pouco de paciência que ainda tinha. Ele empunhou as Lâminas do Caos e talhou a porta. Uma força dourada flamejou, e as lâminas nem mesmo tocaram a madeira. Uma fúria elevou-se dentro dele, e para fora de seus ossos agitou-se a Cólera de Poseidon. O poder o fez se sentir invencível, e o relâmpago de sua fúria queimou a força dourada – e a porta se abriu com um simples toque.
Kratos fitou em espanto. No meio da sala havia uma mulher seminua, cuja beleza transcendia qualquer coisa que Kratos já experienciara. Ela tinha as mãos repousadas nos quadris e o cabelo vermelho flamejante mais radiante do que o nascer do sol, mas não foi isso o que Kratos notou. Ela estava nua da cintura para cima, uma saia rodopiava sobre o resto de seu corpo adornado. Seus seios expostos eram firmes e altos, culminando em pequenas saliências rosadas que apontavam para ele em um convite libertino. – Você era uma escrava neste navio? – O capitão está morto? Espero que sim – disse a jovem, inclinando-se em direção a ele, chamando-o com um dedo. – Eu prefiro a sua aparência do que a dele. Kratos ouviu um ranger sinistro no casco e olhou em volta para ter certeza de que a embarcação não estava quebrando. Quando se voltou, piscou surpreso. A mulher ainda estava na frente dele, com as mãos nos quadris, cabelo selvagem e vermelho e brilhante. Mas ela já não estava nua da cintura para cima. Em vez disso, ela usava uma túnica e não tinha saia. Estava nua da cintura para baixo, quando apenas um instante antes... – É por isso que você estava aprisionada em um bloqueio mágico? Você é uma bruxa? – Isso não é uma coisa agradável de se dizer. Nós não somos bruxas! – Nós? – Kratos piscou. Havia duas mulheres, idênticas em beleza, mas uma estava nua da cintura para cima e outra, da cintura para baixo. – O que são vocês? – Gêmeas – responderam em uníssono. – O capitão era um senhor cruel. Ele nos deu apenas um conjunto de roupas – disse a gêmea com a túnica. A gêmea com a saia fez um beicinho. – Nós compartilhamos o melhor que podíamos. Não lhe agradamos? – Não, eu... – Não? – elas gritaram em uníssono. – Então nós vamos tirar esses trapos
ofensivos! E o fizeram. Kratos estava disposto a admitir que isso melhorou a vista. – Eu começo a entender por que o capitão as manteve trancadas. Idênticas até a última pinta e sarda. – Nem tanto – disse a que estava à esquerda. – A pinta de Lora está no interior de sua coxa esquerda. Vê? Kratos viu. – Zora e eu somos completamente diferentes – disse a outra.
– Vocês fazem tudo juntas? As gêmeas trocaram um olhar e, em seguida, vieram para a frente com um único objetivo em mente. Sua resposta tornou-se óbvia quando tiraram-lhe a roupa e levaram-no para uma cama larga e macia. A única queixa de Kratos foi a de ter derrubado desajeitadamente uma garrafa de vinho no meio de sua paixão dupla. Depois disso, ele acordou com uma mulher à sua esquerda e outra à direita – ele não sabia mais quem era Lora e quem era Zora, mas sabia que não deveria verificar suas marcas de nascença. Isso só acenderia uma demanda por mais amor, e ele tinha um tripulação para comandar logo acima, no deque. A demanda de Atena deveria ser satisfeita, e em breve, pois a visão mostrava que sua cidade já estava virando lixo. – Eu quero mais vinho – disse ele, passando por cima da ruiva para obter a sua garrafa no convés. – Nós somos suas escravas voluntárias, capitão Kratos – disse uma delas. A outra acrescentou: – Contanto que você possa nos manter satisfeitas. – O capitão tinha concubinas em sua cabine... – Kratos começou. – Ah, sim, ele mantinha outras meninas para si – disse uma das gêmeas, um pouco triste. – Ele nunca nos tocou. – Nunca?
A outra suspirou. – Ele não era homem o suficiente. Depois que dois ou três membros da tripulação morreram, ele nos trancou. – Eles... morreram?
Kratos não conseguia ver nenhum sentido nisso. – Então, o capitão trancou vocês? Eles morreram fazendo... o quê? – Nós – uma disse alegremente. A outra contribuiu com um aceno ativo. – Ele queria manter sua tripulação a salvo. De nós. Temos estado muito solitárias. – Entendo – Kratos disse lentamente. – E nós estamos muito felizes por ter encontrado você... e por você não ter morrido. De verdade. – Igualmente – Kratos disse. Ele refletiu que essa viagem a Atenas poderia ser mais interessante do que ele havia previsto. A gêmea à sua esquerda acariciou a protuberância de músculos em seu ombro. – Você é um... – ... rei, mestre Kratos? – terminou a gêmea do seu lado direito. – Eu sou apenas um soldado – disse ele. – Um grande soldado – disse uma delas. – Um campeão – concordou a outra.
– Foi-me dada uma demanda pelos deuses. – Isso soa... – ... perigoso – uma das gêmeas completou. – Navegamos para Atenas. Lá eu as libertarei.
– Nós não queremos ser livres. Nós queremos ser suas escravas.
– Para sempre – disse a outra. Ou pelo menos até que você morra. Você é muito forte, mestre. – E tão grande.
Kratos viu-se sem nada para dizer. – Nós nunca quisemos ir para... – ... Ática. É um lugar terrível, frio, ou... – ... foi o que ouvimos. Kratos amaldiçoou os deuses em seu coração. Se ao menos ele pudesse ser como os outros homens e perder-se inteiramente nos prazeres da carne. Mas nem mesmo Lora e Zora poderiam afugentar os pesadelos e manter sua loucura acuada. Tudo o que ele queria agora era a promessa de Atena de apagar suas visões e acabar com as memórias horríveis que atormentavam sua vida a cada minuto do dia. Remover as visões de morte e horror, culpa e dor abjeta, era uma recompensa muito além de qualquer coisa que Lora e Zora poderiam lhe oferecer, não importa o quão habilidosas elas pudessem ser. – Esta embarcação deve se libertar do Túmulo dos Navios – disse ele, balançando as pernas para sair da cama. O vinho sob os seus pés se tornou tão pegajoso como sangue. Ele começou a limpá-los, mas as gêmeas saltaram agilmente da cama. – Permita-nos fazer isso, mestre Kratos. Elas limparam seus pés amorosamente, mas ele não tinha tempo para isso. A Hidra de Ares estava morta, mas que outras abominações poderia o Deus da Guerra enviar para destruí-lo? Kratos não queria descobrir, não enquanto estivesse preso entre os cascos de tantos navios mortos e descartados. – Vocês podem vir ao convés – disse Kratos às gêmeas –, mas completamente vestidas. – Não há nada que a gente possa usar nesta cabine – disseram elas em uníssono. – Encontrem alguma coisa – ele disse secamente. Ele hesitou em deixá-las procurar pela cabine do capitão. As três mulheres
deveriam ter deixado mudas de roupas em grande quantidade, mas desnudar os seus corpos era algo que ele imaginava que não seria bem recebidas pelas gêmeas. – Nós estaremos lá em breve – disseram elas. Kratos subiu ao convés. Ele estava longe de Atenas e, uma vez que chegasse, tinha um deus para matar. Simplesmente liberar esse navio de escravos dos outros cascos já seria uma tarefa intimidadora. No convés, o vento forte e a chuva fina alertaram para uma iminente tempestade. Presos entre outras embarcações como estavam, a tempestade iria atirá-los de um lado para o outro e rachar o casco como uma casca de noz. Ele foi para o andar de baixo, à procura dos escravos, e olhou para os infelizes miseráveis. Eles se lamentariam e suplicariam até ele abrir a escotilha para deixá-los livres. Talvez a liberdade os lembrasse do que era ser um homem. – Eu vou libertá-los. E vocês vão trabalhar – disse ele. – Trabalhem mais arduamente do que nunca. Navegamos para Atenas. – Liberte-nos! – Eu não tenho necessidade de escravos. Eu preciso de uma tripulação. Algum de vocês já trabalhou com navegação antes? Ele viu uma mão timidamente levantada. – Você é meu primeiro oficial. O resto de vocês vai ouvir e aprender com ele. Sua palavra é minha palavra. Oponham-se a qualquer um de nós e eu vou alimentar os tubarões com suas entranhas. Obedeçam e vocês serão livres, assim que chegarmos a Pireu. Houve um murmúrio entre os escravos enjaulados, mas o que ele havia designado como seu primeiro oficial aceitou o desafio e falou em nome de todos. – Vamos ser livres? – Pela minha vida, você serão – Kratos prometeu. – Então deixe-nos sair. Pela forma como este navio está chafurdando, uma tempestade está a se aproximar. – Qual é o seu nome, primeiro oficial? – Coeus. – Leve-os ao convés e a seus postos, Coeus. Você está certo sobre a
chegada de uma tempestade. Com bofetadas e chutes nos traseiros, Kratos ajudou os escravos que estavam estranhamente relutantes em deixarem suas gaiolas. Quando o último havia chegado ao convés, o vento soprou ferozmente e enviou pequenos projéteis de pingos de chuva, martelando a tripulação. – Para o cordame. Abaixem as velas. Não há outra maneira de sair deste maldito túmulo de água – Kratos berrou. – Nós devemos nos adiantar à tempestade ou estaremos perdidos. Ele viu que Coeus sabia os rudimentos do desenrolar das velas e como prendê-las com firmeza para apressar a saída, mas tentar ensinar cada um da tripulação era impossível em meio ao vento. Um gritou e caiu do mastro. Kratos observou o homem desaparecer debaixo das ondas. Ele nunca veio à tona. Kratos sentiu o solavanco do navio, como um cavalo de corrida relutante em uma falsa partida. Coeus fez o que pôde. Kratos tinha que encontrar um timoneiro para cuidar do leme. Ele agarrou um escravo pelo braço e arrastou-o pela popa até o leme. – Tome isso. Mova para a esquerda ou para a direita conforme eu comandar. O escravo fez como lhe foi dito, agarrando-se a viga como se sua vida dependesse disso. E dependia. Assim que o homem passou os braços em torno do leme e começou a experimentar o seu rendimento e sua resistência, Kratos avançou novamente. Ele parou ao lado da estátua de Atena. Ela permanecia morta, inerte, imóvel e cega. – Nós estamos a caminho – disse ele suavemente em meio ao vento. Então, ele se esforçou para levantar a âncora que os fixava no lugar. Suas costas doíam com o esforço, e as veias saltaram como fios de corda em seus braços enquanto ele extraía a âncora pesada, pedaço por pedaço. Quando o gancho de ferro enorme saiu do mar, o navio disparou, livre e flutuante. – Para a esquerda, para a esquerda com tudo! – os comandos que gritava eram engolidos pelo vento crescente, mas o timoneiro novato o viu gesticulando e inclinou-se sobre o leme. Experienciando mais resistência do que ele esperava, o timoneiro redobrou seu esforço. E mais uma vez. Kratos soltou um grito quando o navio se virou e encheu suas velas com o vento forte. As madeiras rangeram e a quilha do navio reverberou ao atingir
detritos subaquáticos. Logo que uma onda gigantesca se levantou e quebrou acima da cabeça de Kratos, ele perdeu o equilíbrio e foi lavado ao longo do convés até que uma mão forte o agarrou. Ele olhou para cima para ver Coeus sorrindo como um idiota. – Cuidado com o passo aí, capitão – disse o primeiro oficial. Então ele gritou aos que estavam com o cordame para fixar as velas mais firmemente. Kratos levantou-se, agradecendo a Atena por ter lhe enviado um marinheiro verdadeiro e experiente para ajudá-lo. Uma rajada enorme de vento pareceu levantar o navio da água e enviá-lo deslizando pela superfície, com a velocidade do pensamento. A proa tocou cada crista de onda e saltou para a frente, quase descendo para os vales profundos nos intervalos. – Atentos às velas – Kratos gritou. Suas palavras foram devoradas pelo vento faminto. Os cantos das velas de lona começaram a rasgar pelas constantes chicotadas. – Içar velas! – Precisamos de mais homens no mastro – Coeus gritou quase em seu ouvido. – Estaremos perdidos se não dobrarmos as velas. O vento está muito alto. – Deixe as velas como estão – Kratos gritou de volta. O navio batia em um pedaço de destroço atrás do outro no Túmulo dos Navios. – O mastro vai quebrar. A tempestade vai nos destruir! – Toda força à frente – ordenou Kratos. Coeus começou a discutir, mas Kratos o interrompeu. O timoneiro corajosamente agarrou-se ao leme, mas ele girou com força demais para ser contido por um homem. Kratos empurrou Coeus e correu para ajudar o timoneiro. Enquanto cruzava o tombadilho, agarrou um escravo e o arrastou junto. – Não, não, deixe-me em paz. Nós vamos morrer. Nós não podemos sobreviver à tempestade. Poseidon nos verá em seu cemitério submarino! – Ajude o timoneiro a manter o leme para a frente. – Nós vamos morrer! O escravo caiu de joelhos. – Pelos deuses, salve-nos. Eu rogo a vocês, deuses do Olimpo. Salvem-nos! – Ajude ou saia do caminho!
Kratos empurrou o homem de lado. Os braços do escravo se levantaram acima de sua cabeça, então o vento tempestuoso capturou seu corpo e, como uma gaivota, ele foi transportado para o ar. Kratos não se incomodou. O homem teve a sua chance. – Você vai me atirar ao mar, capitão? Não acho que eu tenho força suficiente para lutar contra o leme. O timoneiro sucumbiu ao esforço de manter o navio em curso no constante e feroz vendaval. – Só se você falhar. O timão resistiu como uma coisa viva, levantando o homem. Ele agarrou-se ferozmente ao leme, lutando para rendê-lo. Kratos emprestou sua força para a tarefa. O par forçou o leme reto. A madeira rangeu, e por um momento Kratos pensou que o navio iria se desfazer. Quando Zeus começou a enviar seus raios dançando pelo céu, Kratos viu luzes diáfanas multicoloridas chamuscando os mastros, movendo-se para cima e para baixo no mastro e na lona, e ele soube que havia ganhado uma amortização. Atena protegeu a ele e ao navio da pior das tempestades. Os pequenos globos de fogo que não queimavam eram a mensagem dela para ele. Depois do que parecera uma eternidade, a embarcação passou pelo último dos cascos no Túmulo dos Navios e deslizou em mar aberto. O vento manteve-se estável, mas a chuva cessou. Com os braços doendo e as costas como tivessem sido quebradas, Kratos afundou-se no convés. – O sol, capitão Kratos, o sol está brilhando! – Louvado seja Apolo – Kratos disse. – Louvada seja Atena. Ele sentiu agora que ao menos três dos deuses que habitavam o Monte Olimpo o favoreciam. Poseidon agradecera-lhe e dera-lhe poderes especiais – e não reivindicou o navio e a tripulação para o seu reino aquático. Pela primeira vez desde que embarcou nesse navio, Kratos soube que pisaria mais uma vez em terra firme. E quando o fizesse, seria a serviço da deusa Atena. – Mantenham o curso – Kratos ordenou. – Mesmo que eu tenha que me amarrar ao leme, manterei o curso em linha reta, capitão – declarou o piloto. – Eu tenho o desejo de ver o campo mais uma vez. Quanto antes estivermos no porto, mais rápido eu posso rolar na relva. Kratos deixou o homem e mais uma vez desceu à cabine de Lora e Zora.
Ele entrou e fechou a porta. – Mestre – ambas exclamaram. Ele estava cansado, a ponto de exaustão, mas só poderia ficar boquiaberto com a dupla. – Vocês me desobedeceram – disse ele. – Vocês não encontraram uma roupa adequada. Elas usavam túnicas e não apenas saias ou calças. – Então lhe devemos uma reparação, mestre – disseram elas. – Você vai nos punir? Por favor? Embora ele não tenha encontrado muito descanso na cama que dividia com as gêmeas, a viagem para o Porto de Zea provou-se agradável; seus auxílios ternos ajudaram a manter seus pesadelos afastados. Mas um dia antes de a grande cidade aparecer no horizonte, uma vasta coluna de fumaça preta o avisou do perigo adiante. Atenas estava em chamas.
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