sábado, 19 de maio de 2018

CRÔNICAS 53 : GOD OF WAR


Dezoito
–Eu conheço essa espada – Zeus murmurou enquanto olhava na piscina de vidência. – Aquela lâmina é um das armas mais poderosas em toda a criação. Como você manipulou Ártemis para que ela a desse para Kratos? – Manipulá-la, pai? Eu? – Atena balançou a cabeça. – Ela e Ares chegaram a uma espécie de trégua, mas antes ela viu seu comportamento violento e sua insanidade. Ela não cedeu a espada negligentemente. Eu acredito que ela deseja mostrar seu apoio, ajudando Kratos no templo. – Eu vi a sede de sangue do meu filho também – Zeus murmurou sombriamente. – Ele queimou a maior parte de Atenas. Somente alguns edifícios restaram ao redor da praça principal, e apenas os templos no topo da Acrópole estão de pé. Mesmo o seu Pártenon foi enegrecido pela fuligem dos incêndios e está sucumbindo em decadência. – A maioria de seus santuários se foi. Ele mata os seus adoradores da mesma forma como seleciona os meus para seus assassinatos brutais. – A guerra é sempre suja – Zeus disse. – Contudo, Ares se recusou novamente a me atender e elucidar por que ataca os meus seguidores tão agressivamente. Uma coisa é queimar Atenas, outra é portar-se de modo a me ofender. A menos – Zeus disse, tornando-se pensativo – que sua paixão pela guerra tenha se transformado em um câncer que queima o seu cérebro. – Ele quer todos os domínios para si – com seu foco e determinação habituais, Atena conduziu a conversa de volta a seu curso. – E Kratos, pai? Ele receberá a sua preferência? Zeus estava estranhamente lento para responder. Ele não a olhou diretamente, mas estudou seu reflexo na piscina de vidência. – Estou curioso, filha amada. Tenho visto você se esforçar consideravelmente para apoiar e proteger o seu animal de estimação espartano. – Ele é a última esperança de Atenas. – É mesmo? E, mesmo assim, quando você intercede comigo e com os outros deuses, você nunca pede ajuda para seus adoradores. Ou para sua cidade, apenas para os seus sacerdotes. Você diz que Kratos é a sua esperança, como ele parece ser, mas os seus poderes de persuasão e manipulação não teriam melhor uso, se você pedisse ajuda diretamente? Hefesto, por exemplo, poderia ter apagado todo o fogo com um único aceno de sua mão. Apolo poderia ter curado os seus feridos. Eu mesmo... – Sim, pai, eu sei. Eu entendo. Como sempre, você vê mais profundamente
do que qualquer outro. Atena respirou fundo e decidiu que, nesse caso, a sua causa estaria mais bem fundamentada se, finalmente, falasse a verdade. – Meu pai e senhor, o verdadeiro alvo de Ares não sou eu, nem é a minha cidade. Zeus olhou para ela, seus pensamentos encobertos por uma face sem expressão. – Pai, o alvo é o seu trono! – Então, o seu objetivo ao longo de toda essa jornada, a verdade final do seu jogo, é apenas me proteger?
– Perdoe a minha presunção – Atena disse. – Eu só temia que você permitisse que o seu carinho tão conhecido para com os seus filhos ofuscasse seu julgamento a respeito de Ares. – Ou, talvez, que meu carinho tão conhecido para com os meus filhos ofuscasse meu julgamento sobre você. Zeus ainda não mostrava nenhuma emoção, mas Atena havia percebido um tom de preocupação no discurso de seu pai, por conta da forma como Ares destruiu os santuários de Zeus em toda Atenas. – Você busca salvar-me de mim mesmo? Por eu ter esquecido as lições da minha própria vida? – Todo o Olimpo veria a morte de Ares com bons olhos. – Será? Ou será que eles o apoiariam, acotovelando-se para recolher o que restar de poder após um parricídio olímpico? – Você condenou seu próprio pai a rastejar sobre as mãos e joelhos através do Deserto das Almas Perdidas para sempre, em vez de matá-lo, depois que você conquistou a Titanomaquia – Atena disse. – Porque você sabe muito bem as consequências de se matar membros da família, você decretou que tal coisa nunca acontecerá entre olímpicos. Mas Ares pode ter em mente um destino semelhante ao de Cronos para você, pai. Uma eternidade de tormento, preso a correntes inquebráveis, e isso somente se ele puder superar sua própria loucura por tempo suficiente para mostrar autocontrole, e não simplesmente se deixar levar pelo desejo de matança. – E há quanto tempo você conhece a ambição de Ares? Há quanto tempo você vem planejando a morte de seu irmão, usando Kratos como instrumento de
destruição? Mais uma vez, Atena disse a pura verdade. – Desde o dia em que meu irmão enganou Kratos e levou-o para o meu templo na aldeia, em seu frenesi de sangue. Foi então que eu soube que a insanidade de Ares não tinha limites, que a sua ambição arrogante não o deixaria parar por nada no mundo. O que você acha que ele estava planejando para Kratos? Por que dar a um mortal força e resistência quase olímpicas? Por que ele atou as Lâminas do Caos aos pulsos de Kratos? Caos, o reino primordial, conquistado e trazido à ordem pelo seu avô Urano? Ela se levantou em toda a sua altura e se voltou para seu pai. – Kratos sempre esteve destinado a ser a arma que mataria um deus. Essa verdade se tornou o pavor mais frio que meu coração já conheceu: o deus que deveria ser vítima de Kratos era você, pai. Ares estava preparando Kratos para a mesma tarefa que eu, e pela mesma razão: para matar um deus, mas evitar a maldição imortal de Gaia, que recai sobre qualquer um que derrame o sangue de sua família. Pai, você deve ajudar Kratos! Ele não é a verdadeira esperança de Atenas; ele é a esperança do próprio Olimpo! Meu senhor, eu já vi esse futuro em meus piores pesadelos. Se Kratos cair, cairá o Olimpo. Ofegante e quase em lágrimas, a deusa da previsão e dos estratagemas inteligentes havia apelado a sua única verdade e ao seu único amor. – Pai, por favor.
– Meu decreto permanece. Um deus não pode matar o outro. Atena não tinha nada a dizer. – Kratos pode chegar à Arena da Memória e enfrentar seu desafio final. Mas isso não será o fim. Zeus parecia amargo, sua barba se debatendo com relâmpagos em meio às trovoadas. – Isso, minha querida filha, será o início. Até lá, ele tem muito a conquistar, e sua própria natureza não será seu menor desafio. Se ele fizer tudo, se ele conseguir, então eu poderei achá-lo digno. – Digno de quê, meu pai? Zeus não respondeu.
O
Dezenove
túnel que passava por dentro da rocha viva dobrava com uma repentina volta em ângulo reto e eventualmente abria-se para a face de um penhasco. Kratos olhou para cima e viu que a saliência era tal que ele teria de encontrar bordas e agarrar-se a elas para atravessar uma extensão de rocha antes de poder escalar. Um rápido olhar o convenceu de que nada além de morte o esperava lá embaixo. Ele passou as mãos nas coxas mais uma vez, para limpar o último vestígio de sangue. Os ferimentos que sofrera haviam estancado – e mais. As mortes de seus adversários haviam renovado sua própria energia e acelerado a sua cura. Era assim desde o dia em que Ares respondera sua oração, feita diante do rei bárbaro. As feridas se curavam rapidamente, mas as consequências da batalha sempre o esgotavam, porque, enquanto seu corpo estava inteiro, o seu espírito nunca mais esteve. * * * – NÃO DEMONSTREM MISERICÓRDIA – ele ordenou a seus guerreiros enquanto entravam na vil aldeia. Um santuário dedicado a Atena estava ao final do caminho, um santuário que zombava do Senhor Ares e irritava Kratos. O que quer que irritasse o Deus da Guerra irritava seu servo. Kratos foi o primeiro a acender uma tocha e jogá-la em um dos telhados de palha. As chamas explodiram na noite, mas eram apenas uma chama de vela em comparação com a raiva e sede de sangue que ferviam dentro dele. A vila inteira era uma afronta. – Matem todos eles – gritou, e passou a usar as Lâminas do Caos para mostrar aos seus homens a maneira correta de assassinar. De uma extremidade da aldeia a outra, ele matou sem hesitação. As lâminas giravam em um arco mortal, como em um molde, que terminava com a vida de quem estivesse tentando lutar contra ele com foices e martelos, e também com aqueles que não faziam nada, a não ser implorar por sua piedade. Kratos não conhecia compaixão. E ele não teria misericórdia com a velha mulher mancando fora do santuário. Ele empurrou-a para o lado. Aqueles que estivessem dentro morreriam pela sua espada. – Cuidado, Kratos – ela intimou-o com sua voz rachada e antiga. – Os perigos no templo são maiores do que você imagina! Ele riu asperamente. Ele era Kratos, e não temia ninguém nem coisa alguma e, especialmente, não receava os golpes fracos dos acólitos que estavam lá dentro. Suas poderosas Lâminas do Caos começaram a girar , cortar , penetrar e matar , até
que ele não viu mais nada além de um véu vermelho de sangue derramado. E então havia mais dois corpos no chão a seus pés, novas vítimas de sua sede de sangue. Kratos olhou para eles e gritou. A voz insensível de Ares encheu o templo. – Você está se tornando tudo o que eu esperava que seria, espartano...
* * * A RAIVA ENCHEU-O NOVAMENTE ao lembrar-se de como Ares o havia usado vilmente. Kratos respirou fundo e forçou-se a retornar da maré escura que ameaçava afogá-lo. As visões seriam o seu legado para sempre, a menos que ele fizesse o que Atena havia ordenado. Os deuses apagariam seus pesadelos, suas memórias, e ele poderia viver em paz consigo mesmo novamente. Tudo o que ele precisava fazer era atravessar o penhasco rochoso. Ele deu um passo, empurrou uma sandália em uma fenda pequena e estendeu os braços amplamente na direção de uma garra que mal podia alcançar. Seus dedos presos na saliência estreita de pedra permitiram que ele movesse o outro pé e assim continuasse a escalar a face rochosa do penhasco. Muitas vezes ele havia escalado montanhas para flanquear um inimigo, de modo que esse não era um desafio novo para ele. – Pelos deuses, não! – as palavras escaparam de seus lábios quando ele viu que a protuberância de pedra à frente começou a aumentar e tomar forma. A pedra rebentou e tomou a forma de uma criatura do tamanho de um homem e com cauda de escorpião, para bloquear o caminho de Kratos. Sacar as Lâminas do Caos requeria uma estabilidade que ele não tinha. Ele pulou, buscou novos pontos de apoio e agarrou o escorpião. Sua cauda agitou-se como um chicote, mas Kratos manteve um aperto firme em sua garganta e posicionou seu corpo de modo que a cauda mortal passasse por ele inofensivamente. Ele resmungou, concentrando toda a sua força para esmagar a traqueia blindada do monstro. A quitina rachou, a coisa começou a se debater violentamente, a cauda ficou ainda mais ameaçadora. Kratos se esquivou quando a cauda zuniu pelo ar, mirando seus olhos. Uma gota de veneno que adornava a ponta do ferrão espirrou em sua testa e ardeu como fogo. Seu domínio sobre a criatura enfraquecia, enquanto o veneno escorria em sua sobrancelha, queimando-a e ameaçando pingar em seu olho. Kratos bateu o braço contra a o veneno para evitar que ele lhe cegasse, mas seu braço estava coberto de sangue coagulado. O sangue entrou em seu olho, cegando-o. Assim como ele havia experienciado em batalha, o sangue caiu como o véu escuro do rio Estige em sua visão. Ele piscou furiosamente para limpá-lo. O sangue em seus olhos era melhor que o veneno que o cegaria
permanentemente – mas a distinção desapareceu rapidamente quando ouviu garras raspando na rocha abaixo dele. O monstro escorpião havia caído alguns metros abaixo, quando ele o liberou, mas agora estava voltando para matá-lo. E ele não podia vê-lo. Ele fechou os olhos com tanta força que lhe causou dor. Depois, lembrou-se dos dois corpos no santuário de Atena. Raiva e lágrimas explodiram dentro dele, e sua visão era cristalina novamente. O escorpião de pedra estava a apenas alguns metros de distância e aproximando-se, sua cauda com o ferrão venenoso preparada para um golpe mortal. Kratos fez um movimento feroz, pegou a criatura pelo pescoço novamente, e torceu-a violentamente. A cauda percorreu um arco sobre a cabeça da criatura, atingindo a rocha, a alguns centímetros de Kratos. Com outro grito para reunir sua força e raiva, Kratos juntou seus dedos, quebrando completamente sua garganta. Ele a segurava, agora suspensa, longe do chão; ele já não precisava ver claramente para terminar o serviço. O bicho se contraía debilmente, até o resto de sua vida desaparecer. Kratos deixou-o cair, observando o corpo bater repetidamente nas rochas do penhasco antes de desaparecer, muito abaixo. Kratos limpou o sangue de sua mão e continuou atravessando o penhasco, ainda piscando para recuperar a sua visão completamente. Ele tinha escalado apenas alguns metros, sem nem mesmo chegar ao local por onde poderia ir direto para o topo, quando novos ruídos de garras o alertaram para outras daquelas coisas que surgiam das pedras. – Atena, você exige muito de mim – disse ele, tentando acelerar ao longo do caminho que havia sondado pela pedra. Kratos mal havia alcançado o ponto em que poderia subir diretamente para o topo, quando mais dois monstros atacaram-no repentinamente, correndo pela rocha vertical como se estivessem em um terreno plano. Kratos encontrou uma saliência e posicionou os dois pés sobre ela. Ainda suspenso, ele arrancou uma pedra livre com sua mão direita e atirou-a com toda a força. O míssil navegou com precisão. O escorpião mais próximo reagiu instintivamente e atacou a pedra com sua cauda mortal. Essa era toda a abertura de que Kratos precisava para lançar uma segunda pedra, que atingiu exatamente o meio da cabeça da criatura. A cauda voou para afastar esse novo ataque, e o monstro escorpião ferroou-se. Sem esperar que a criatura moribunda caísse do penhasco, Kratos jogou uma terceira pedra, desalojando-a. Agora ele enfrentaria apenas mais uma. Esse monstro arqueou as costas e derramou lascas de pedra em todas as direções. Kratos protegia seu rosto contra as agulhas calcificadas e inutilmente buscou outra rocha. Não havia nenhuma. Kratos olhou para cima, traçou seu caminho
até o topo do penhasco e começou a escalar, o escorpião diretamente sob ele, correndo mais rapidamente do que ele podia escalar tal rocha uniforme. A poucos metros do topo do penhasco, Kratos soltou-se e caiu. Ele colidiu com o escorpião, no local ocupado por todas as oito pernas do monstro. Com um giro, Kratos mudou de direção e agarrou o ferrão, que se arqueava para cortá-lo e envenená-lo. Uma pequena gota de veneno amarelado pingava da cauda. Seu peso estava inteiramente apoiado no enorme escorpião, e, quando o espartano caiu em cima da cabeça da criatura, surpreendeu-a tanto que suas pernas começaram a se soltar da parede, uma a uma. Kratos agarrou-se à cauda que se movimentava violentamente até estar certo de que o escorpião não poderia manter a sua aderência à parede por mais um instante. Com uma torção feroz, ele puxou a cauda e despejou o monstro. No mesmo instante, ele chutou com força a face rochosa do penhasco e procurou um apoio. O escorpião seguiu seus companheiros para o distante solo, e Kratos pendurou-se pelas pontas dos dedos de uma mão em uma reentrância pequena e empoeirada. Pouco a pouco, seus dedos deslizaram. Ele olhou para baixo, não para ver onde poderia cair, mas para encontrar pontos de apoio. Impossibilitado de localizar algum por perto, ele lançou suas pernas o mais forte que pôde. A dor enlaçou a sua perna, mas seus dedos estavam bastante apoiados na lasca para que pudesse suportar seu peso. Seus dedos deslizaram, mas seus pés o apoiaram quando ele escorregou. Ele se levantou no apoio duramente conquistado e seguiu o seu caminho rocha acima, para chegar ao topo do penhasco. Uma vez lá, Kratos caiu de joelhos e fez uma oração silenciosa para os deuses, embora o tipo de ajuda que ele havia recebido deles anteriormente fosse um enigma. Ele havia sobrevivido por conta de seu próprio esforço e continuaria a ser assim. À frente, em meio ao portal aberto na lateral da montanha, procediam estampidos, barulhos de máquinas e ruídos que ele não conseguia identificar. Sacando as Lâminas do Caos, ele se aproximou do portal e avançou pelo túnel. Ele parou ao lado de uma esteira rolante que desaparecia sob uma saliência rochosa. Kratos usou suas lâminas contra a pedra, mas mesmo a magia potente presa no metal não poderia mover um pedregulho sequer. Ele se virou e olhou na direção em que a esteira se dirigia e viu o que produzia os ruídos desconhecidos. Enormes blocos cravejados com pregos longos colidiam repetidamente. A única maneira de avançar era correr contra a direção da esteira rolante e passar pelo rítmico abrir e fechar da mandíbula de metal e pregos. Kratos retornou as lâminas para seus pontos de descanso em suas costas, calculou a ação das mandíbulas mortais e pulou na esteira rolante.
Ele calculou mal a velocidade e foi arrastado pela esteira, para ser esmagado na parede de pedra. Ele gritou de dor e recuou. Embora a face da parede parecesse ser pedra comum, seu mero toque desferiu lanças quentes de dor em seu corpo. Kratos começou a correr, até equilibrar sua velocidade com a da esteira. Em seguida, ele empregou mais esforço e triunfou sobre ela, aproximando-se do primeiro conjunto de pedras que se esmagavam. Além desse, havia muitos mais. Uma vez comprometido com essa aventura, ele não tinha escolha, senão mergulhar à frente e nunca vacilar. O menor erro o jogaria entre os painéis perfurantes, empalando-o. Se ele fosse para trás, voltando com a esteira transportadora, seria arrastado para a parede e receberia torturas que queimariam o âmago de seu ser. Com tal incentivo, ele aplicou uma velocidade explosiva e com sucesso passou pelo primeiro conjunto de pedras. A Cila e Caríbdis2 que bloqueavam a sua passagem obrigaram-no a concentrar-se totalmente para evitar um esmagamento das garras e de seus dentes afiados. Ele disparou, verificou a velocidade necessária e irrompeu à frente, quando as mandíbulas de metal se abriram, e não recebeu nenhuma lesão. A passagem final não operava em um padrão, mas era inspirada pelo caos. Kratos virou-se quando uma faca afiada atingiu-o no bíceps, segurando-o no lugar. Percebendo o perigo de ser contido, ele impulsionou-se violentamente e deixou para trás um bocado de músculo sangrento para que pudesse correr ao longo da esteira, em direção a uma saliência de pedra, onde poderia descer com segurança. Em vez de os sons das máquinas diminuírem, Kratos ouviu-os ainda mais altos, ao longo de um túnel que levava a uma sala que o convenceu de que o Arquiteto havia enlouquecido por causa dos deuses. Profundas ranhuras duplas formavam um campo quadrado. Rolando sem parar nas ranhuras havia rodas de lâmina dupla; suas bordas eram reluzentes e tão afiadas que Kratos tinha de fechar os olhos quando elas corriam perto dele. Do outro lado da sala, um portão de ferro bloqueava a saída, mas ele viu a solução para isso. Uma alavanca se projetava do centro de um quadrado. Bastava impulsioná-la e o portão subiria. Mas chegar a ela exigiria cronometrar o tempo das lâminas e lançar-se de maneira mais ousada do que no seu desafio anterior. As rodas afiadas nunca paravam, nunca descansavam, e iriam cortá-lo em tiras, se ele cometesse um único deslize. Com um salto poderoso, ele pulou por cima de uma roda e caiu ileso no meio de um quadrado. Ele ficou ereto quando as rodas passaram ao lado e atrás dele. Kratos calculou a periodicidade da roda à frente e pulou quase na mesma hora que ela passava, alcançando um quadrado que ficava mais perto da alavanca. Só então ele percebeu que o ritmo frenético das rodas mortais havia aumentado. Quanto mais perto ele chegava da alavanca, mais rápido as lâminas rolavam.
Ele buscou as Lâminas do Caos no intuito de destruir qualquer uma das rodas em seu caminho, mas parou. Será que o Arquiteto teria imaginado um ataque contra as serras e encontrado uma maneira de preveni-lo? O metal das rodas carregava um brilho prateado diferente de tudo o que Kratos já vira antes. Embora as Lâminas do Caos fossem magicamente forjadas, e mesmo que Ares nunca tivesse dito que elas podiam ser quebradas, Kratos obedeceu ao seu instinto, que lhe dizia que as lâminas eram as armas erradas para usar contra as rodas. Ele tinha outros armamentos, claro, mas as Lâminas do Caos deveriam estar intactas para assassinar Ares. Uma vez que o Deus da Guerra havia fundido as espadas aos antebraços de Kratos, e que o espartano vinha utilizando-as por dez longos anos de assassinatos, em nome de Ares, nada mais justo que o Fantasma de Esparta enfiar suas pontas através do corpo do deus e vê-lo morrer pelas suas próprias armas. Kratos abandonou os punhos das lâminas e mergulhou para a frente, dependendo da sua coordenação e habilidade inatas para esquivar-se do movimento mortal das rodas. Ele tropeçou no quadrado que segurava a alavanca, recuperou o equilíbrio e moveu a estrutura com toda a força. A resposta foi tudo o que ele esperava. O portão de metal do outro lado da sala fez barulho e tiniu ao abrir. Kratos levou alguns segundos para reunir a sua sagacidade e começar a saltar sobre as rodas para sair da câmara, quando viu o portão descendo lentamente. – Você é diabólico – Kratos disse, pensando em uma meia dúzia de maldições para lançar sobre o Arquiteto. A alavanca, uma vez puxada, permitia que a porta permanecesse aberta durante um curto período. Mais duas vezes Kratos utilizou a alavanca e contou o tempo para determinar quão rapidamente ele deveria saltar por metade da câmara cheia de foices redondas da morte. Não era muito. Mas seria o suficiente. Kratos se preparou, puxou a alavanca e saltou para o quadrado adjacente. Pegando velocidade, saltou para o próximo, e para o próximo; então percebeu que o portão estava se fechando, e ele ainda tinha mais dois quadrados para atravessar. Ele irrompeu em uma explosão de velocidade que permitiu a uma roda passar pelo seu peito, abrindo um corte superficial sobre as suas costelas. Girando e usando o impacto para adicionar velocidade, ele saltou alto sobre a última roda que bloqueava o acesso ao portão, deu uma cambalhota e passou pela porta com apenas alguns segundos – e alguns centímetros – excedentes. Kratos deitou de costas, olhando para o teto baixo do corredor, enquanto recuperava sua força. Com o estalido do metal e pedra para trás, ele seguiu em frente, através de um túnel até sair na frente de um cômodo com um enorme portal circular. Pressionando seu olho contra uma rachadura no meio da estrutura de pedra, ele viu um altar lá fora, sob o sol brilhante do deserto. Mesmo com seus esforços mais poderosos, ele não conseguiria arrombar a porta a partir da
pequena rachadura. Ele tivera uma visão tentadora de onde deveria ir, mas nenhuma dica de como abrir a porta. Kratos se virou e olhou o imenso aposento onde estava. Ele correu os olhos para cima e encontrou algo que parecia familiar. Bem acima das bordas e passarelas do aposento ele avistou uma estátua de Atlas equilibrando o mundo em seus ombros vigorosos. Todas as suas labutas haviam trazido Kratos para um lugar que só poderia ser descrito como um santuário em homenagem ao Titã. Correndo na direção de um ponto que ficava abaixo de uma passarela a quase seis metros sobre a sua cabeça, Kratos captou os detalhes, e o que ele poderia fazer para avançar. Atlas estava esmagado pelo peso do mundo. A carga deveria ser aliviada. Kratos se dirigiu para uma manivela situada atrás da imponente estátua e, hesitantemente, pressionou-a. A manivela moveu-se um pouco, até sua resistência aumentar a ponto de Kratos ter de se esforçar ainda mais. Desviando o olhar da estátua para a passarela, uma segunda alavanca, acima da estrutura, revelou-se. Com a mente repleta de possibilidades, Kratos chegou a uma decisão rápida e aplicou-se a girar a manivela. Pouco a pouco ela se movia. Com mais esforço, ela girou em um círculo completo. Com ainda mais empenho, forçando os músculos e com suor escorrendo enquanto a resistência aumentava, ele conseguiu girá-la totalmente uma segunda vez. A estátua agora tinha somente metade do mundo em seus ombros. Sabendo que havia tido sucesso em descobrir o que deveria ser feito, Kratos inclinou as costas, firmou-se no chão e começou a mover a manivela a uma velocidade constante. Com cada giro, o mundo levantava um pouco mais dos ombros de Atlas, até que a estátua já quase não estivesse dobrada pelo peso nas costas. Apesar do melhor esforço de Kratos para girar a manivela ainda mais, ele agora encontrou total resistência. Ele afastou-se e olhou de volta para a segunda alavanca, em cima da plataforma e do outro lado do aposento. Ele colocou impulso total em suas pernas, para saltar e atingir a passarela. Kratos estava no mesmo nível dos olhos de Atlas. Embora as órbitas fossem esculpidas em pedra fria, ele sentiu que o filho de Jápeto e irmão de Prometeu e Epimeteu encarava-o com alívio. Ele aplicou pressão na alavanca da passarela. Esta requisitava pouco esforço em comparação com tirar o mundo de cima de Atlas. Kratos recuou quando viu a estátua ficar um pouco mais alta e levantar o globo enorme em sua direção. Sem lugar para se esconder, Kratos esperava a morte. Em vez disso, o globo terrestre saltou duas vezes e rolou sob a passarela. Kratos observou enquanto a pedra colidia com o portal que ele fora incapaz de
abrir. O tamanho do globo correspondia exatamente ao diâmetro da porta. Kratos olhou para o altar, onde um sarcófago de ouro envelhecido brilhava sob o sol quente. Ele pulou da passarela e foi descobrir qual era a nova armadilha que o Arquiteto havia colocado em seu caminho. 2 Cila e Caríbdis são dois monstros marinhos da mitologia grega. Cada um deles ficava em uma extremidade do estreito de Messina e juntos dificultavam o movimento dos navios, enviando tufões. O autor os coloca no texto como uma metáfora à ameaça dupla das garras que Kratos deve enfrentar. (N. E.)

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