sábado, 19 de maio de 2018

CRÔNICAS 66 : GOD OF WAR

Epílogo

À borda de um penhasco sem nome, ele põe-se de pé: uma estátua de mármore travertino, pálida como as nuvens do céu. Ele vê que não há cores na vida, não nos cortes escarlates das suas tatuagens, não nos retalhos apodrecidos de seus pulsos onde as correntes rasgaram sua carne. Seus olhos são pretos como a tempestade agitada que marca o Egeu abaixo, que termina com a espuma que se aferventa nas rochas acidentadas. Cinzas, somente cinzas, desespero, e o chicote da chuva invernal. Essas são as recompensas de dez anos de serviço aos deuses. Cinzas e putrefação e decadência, uma morte solitária e fria. Seus únicos sonhos agora são de esquecimento. Ele foi chamado de Fantasma de Esparta. Ele foi chamado de Punho de Ares e de Campeão de Atena. Ele foi chamado de guerreiro. Um assassino. Um monstro. Ele foi todas essas coisas. E nenhuma delas. Seu nome é Kratos, e ele sabe quem são os verdadeiros monstros. Seus braços pendem, suas vastas linhas de músculos fortes e entrelaçados são inúteis agora. Suas mãos trazem calos endurecidos não somente pela espada e pela lança espartana, mas pelas Lâminas do Caos, o Tridente de Poseidon, e até pelo lendário Relâmpago de Zeus. Estas mãos tiraram mais vidas do que Kratos tenha inspirado e expirado, mas agora, elas não têm armas para empunhar. Tudo o que ele pode sentir é o gotejar de sangue e pus que pingam de seus pulsos dilacerados. Seus punhos e antebraços são símbolos verdadeiros de seu serviço aos deuses. A maltrapilha e descascada carne treme no vento cruel, se tornando enegrecida de podridão; e até os ossos padecem pelas cicatrizes deixadas pelas correntes que uma vez fundiram-se lá: as correntes das Lâminas do Caos. Estas amarras já não existiam mais, arrancadas dele por cada deus que se impôs sobre ele. Aquelas correntes uniam as lâminas a ele, e ele às lâminas; aquelas amarras eram os vínculos que o algemavam a serviço dos deuses. Mas o trabalho havia acabado. As correntes se foram, e as lâminas com elas. Agora ele era nada. É nada. Tudo o que não o abandonou, ele se livrou, atirou fora. Sem amigos, ele é temido e odiado pelo mundo, e nenhuma criatura viva pode olhá-lo com amor ou com alguma sugestão de afeição. Sem inimigos, ele
não tinha mais nenhum vivo para matar. Sem família... E, mesmo agora, é um lugar no seu coração que ele não se atreve a espiar. E, finalmente, o último refúgio dos perdidos e solitários, os deuses... Os deuses fizeram de sua vida um escárnio. Tomaram-no, moldaram-no, transformaram-no em um homem que não aguenta mais ser. Agora, no final, ele não consegue nem se enfurecer. – Os deuses do Olimpo me abandonaram. Ele pisa nos últimos centímetros do penhasco, suas sandálias raspam no cascalho da beirada esfarelada. Trezentos metros abaixo, bocados de nuvens giravam e trançavam uma malha de névoa entre ele e as pedras pontiagudas banhadas pelo mar Egeu. Uma malha? Ele sacode a cabeça. Uma malha? Antes uma mortalha. Ele fez tudo que um mortal poderia. Ele completou proezas que nem mesmo os deuses poderiam igualar. Mas nada apagava a sua dor. O passado de qual ele não pudera escapar trazia a agonia e a loucura como seus únicos companheiros. – Agora não há esperança. Não há esperança para este mundo, mas para o próximo, dentro das bordas do poderoso Estige, que faz fronteira com o Hades, lá corre o rio Lete. Um esboço da água negra que, dizem, apaga a memória da existência, deixando-a em sombra, e o espírito vagueia para sempre, sem nome, sem casa... Sem passado. Esse sonho o impulsiona a tomar um final e último passo, que o empurra para o meio das nuvens que despedaçam-se em volta dele, enquanto ele cai. As rochas carcomidas pelo mar se materializam, ganhando solidificação e tamanho, e correndo para esmagar sua vida. O impacto engole tudo que ele é, tudo que ele fez, e tudo que foi feito a ele, em uma erupção estilhaçada de noite. Mas, mesmo nisso, ele está condenado à decepção. * * * ELE NÃO VÊ A FIGURA ao seu lado nas escuras ondas do Egeu; ele não sente as mãos que erguem-no do mar. Ele não sabe que está sendo carregado
para um lugar muito além do que qualquer mortal poderia ir. Quando, então, seus olhos se abrem, ele está diante de um portão majestoso de ouro e pérola, fixado em uma muralha construída de nuvem. E com ele está uma mulher de beleza sobrenatural, vestida com uma armadura reluzente e carregando um escudo em que está encrustado a figura da cabeça da Medusa. Ele nunca a tinha visto antes. Mas ele a conhecia há anos, e ela não podia ser confundida com qualquer outra. – Atena. Seu rosto impecável se volta para ele, e a majestade serena de seu olhar toma-lhe o fôlego. – Você não vai morrer hoje, meu espartano – diz ela, e sua voz soa como música marcial de flauta e tambores. – Os deuses não podem permitir, eu não posso permitir... que alguém que tenha realizado tal serviço pereça por sua própria mão. Ele apenas fitou-a, mudo tanto pela injustiça amarga quanto pela graça incompreensível. – Há mais trabalho aqui do que você pode imaginar. Ela levanta uma mão e o portão imenso abre-se diante dele, revelando escadas que ascendem na nuvem. – Mas você salvou mais do que a sua própria vida hoje, e realizou uma ação maior do que conquistar a sua própria vingança. Zeus declarou-o digno, e você não irá negá-lo. Existe agora um trono vazio no Olimpo, meu Kratos, e eu tenho um último serviço para exigir de você. Tome essas escadas. Elas levam àquele trono vazio. Para o seu trono. – Eu não entendo... – As palavras caem espessamente de seus lábios entorpecidos. – É possível que você nunca venha a entender. Vou dizer-lhe apenas isso: você não deve morrer por sua própria mão e manchar o Olimpo com o seu sangue. E, assim, você está aqui. Conosco. Para sempre. É o desejo de Zeus. Kratos sobe a escada por longo tempo. Agora ele pode ver no topo um trono de azeviche brilhante: mortal, resplandescente, negro, digno do deus que ele está prestes a se tornar. A cada passo, as imagens e sons de batalha apressam-se sobre ele, de todo o mundo e por toda a eternidade, pois tempo e lugar são diferentes para os deuses.
Ele teme, por um instante, ou por um milênio, que seus pesadelos tivessem voltado a violar a sua mente, mas ele não reconhece os soldados que vê. Eles usam armaduras de metal e marcham em falange; cavalaria e carros apoiam seus espadachins, homens de lança, e arqueiros. – Atravesse o Rubicão –, um general urra em uma língua estranha e estrangeira, mas Kratos entende. No passo seguinte, mais uma vez ele ofega. Armaduras curiosas substituem o desenho mais familiar. Correndo por ele estão homens com olhos asiáticos, gritando em uma língua que ele não reconhece, embora novamente pudesse deduzir. Era a batalha de Sekigahara. – Por Xogum! Os nomes surgem do nada e não significam nada para ele, mas mesmo que seus aspectos e armaduras sejam estranhos, a carnificina que provocam é muito familiar. Milhares estão mortos por todos os lados, embora ele ainda esteja na escada para o seu trono. No próximo degrau, ele encontra-se quase titubeante, quando um enorme pássaro com asas de metal duro e uma roda giratória mergulha diante dele. Sudetos. Enormes explosões balançam-no quando a máquina, não um pássaro, mas uma máquina voadora, um Stuka (outra palavra desconhecida que ele compreende) sai de um mergulho e ruge para longe no sujo céu cinzento. E logo acima, uma claridade brilhante faz com que ele aperte os olhos, que ficam cheios de sombras, mas ele sabe que nenhuma forma de luz pode prejudicá-lo. Nada pode prejudicá-lo. A luz vem de uma vasta nuvem que se enrola acima de uma cidade em chamas, florescente, enquanto se levanta em surpreendente forma, como um cogumelo branco resplandecente maior do que Atenas. Ele olha em outra direção, e diante dele se desdobram colinas arborizadas onde os rios correm vermelhos de sangue. Antietam? Que idioma seria esse? Essas pessoas, esses lugares, vieram com ele a cada passo. Waterloo. Agincourt. Passo Khaibar. Glípoli. Xilang-fu. Roncesvalles. Stalingrado e o Bulge e Normandia. O caos da guerra assola ao redor dele, uma cadeia laçada interminável de vitórias impressionantes e horríveis derrotas. Quando ele chega ao trono, ele faz uma pausa por um momento e olha de volta para o lugar de onde ele veio. Espalhados diante dele estão toda a Grécia, todo o Mediterrâneo, África, Europa, Ásia e terras estranhas do outro lado do mundo. Em qualquer lugar que uma batalha acontecia, em qualquer lugar que a guerra era combatida, este é o seu reino. Mas entre tudo no seu reino, a parte que
mais tem significado para ele, é o palco das batalhas que irão destruir o mundo em pedaços. Porque o Olimpo, também, faz parte de seu reino, da maneira que ele desejar construí-lo. Kratos, uma vez de Esparta, senta-se no seu trono, projetos escuros se desenrolam por trás de suas sobrancelhas. Eles querem um Deus da Guerra? Ele irá mostrar-lhes a guerra de uma maneira que eles nunca conjuraram em seus piores pesadelos. Kratos do Olimpo, Deus da Guerra, pousa o olhar sobre o seu reino, e sua fúria queima.


CRÔNICAS 65 : GOD OF WAR

Trinta e um

Rápido como era o raio, pareceu a Kratos que ele estava rastejando através de um tipo espesso de melado. O intervalo entre o lançamento do relâmpago e o atingir o seu alvo estendeu-se mais do que toda a vida de Kratos. Ele não esperou para vê-lo acertar. Se ele errasse, estaria morto de qualquer maneira, sendo assim, ele se colocou em uma posição que poderia aproveitar melhor o seu sucesso. No instante em que suas mãos ficaram livres, ele mergulhou para a borda do teto do templo, pegou uma escultura ornamental, e chutou-a na direção da estátua de Atena, rumando para o nível do solo. Ele ainda estava no ar quando o raio atingiu seu alvo. Ares, ainda gritando seu desafio a Zeus, nunca predisse o que iria acontecer. Seu primeiro indício sugestão foi um choque que ferroou sua mão direita e, no momento seguinte, ele não sentiu mais o peso da Caixa de Pandora. O relâmpago tinha atingido seu alvo e feito o seu trabalho, rompendo a corrente que unia a Caixa à mão do deus. – O quê? – Ares olhou fixamente para o punho como se ele tivesse, de alguma forma, traído-lhe. – O que você fez?
Do punho erguido de Ares para o chão abaixo havia uma centena de metros. Kratos calculou onde a arca iria pousar e correu para o local com toda sua velocidade. Seu palpite foi bom. A caixa caiu em uma pilha de entulho poucos passos a sua frente, e ele correu na sua direção antes que Ares entendesse o que tinha acontecido. Alcançando-a, Kratos agarrou a tampa e empurrou-a tão forte quanto podia. Ao contrário de sua tentativa no Templo de Pandora, a tampa deslizou sem esforço, quase como se a Caixa quisesse ser aberta por ele. Entre as ruínas do Templo de Atena, Kratos de Esparta tinha aberto a Caixa de Pandora, pela primeira vez desde que foi escondida no templo nas costas de Cronos, um milênio atrás. Kratos escalou os escombros e ficou à margem da arca, olhando para o seu brilho quente e ensolarado. O que estava dentro também brilhou intensamente para os olhos de Kratos. Ele experimentou um terrível instante de vertigem, como se estivesse prestes a mergulhar de cabeça em um buraco mais profundo que o universo. Mas quando a vertigem passou, todo o seu corpo estava aquecido com a luz. E a Caixa pareceu encolher-se, diminuindo ao tamanho de uma caixa de joias. Kratos gritou quando o poder submergiu em seu corpo, encheu sua alma... e
muito mais. Seus braços se ergueram acima de sua cabeça, e faíscas minúsculas dançavam entre os dedos abertos. Ele nunca tinha imaginado tal poder. Era esse o poder e a sensação semelhantes aos de um deus? Em seguida, Kratos olhou para o Deus da Guerra e descobriu que não fora a Caixa que tinha encolhido. Ele tinha crescido. Antes, Kratos tinha uma altura que batia no tálus de Ares, agora ele olhava o deus bem no meio dos olhos. E, naqueles olhos, ele viu uma centelha de medo. Ares afugentou seu horror com fúria altaneira. Seu rosto torcia-se em um sorriso desdenhoso. – Você ainda é apenas um mortal, tão fraco quanto no dia que você me pediu para salvar sua vida. – Eu não sou o homem que você tomou naquele dia. – Kratos se endireitou e, quando ele falou, sua voz também abalou a montanha. – Por dez anos eu esperei. Nesta noite, você morre.
O escárnio de Ares expandiu-se em riso sombrio. – Atena deixou-o fraco.
Kratos abaixou-se em posição de luta. – Forte o suficiente para matar você! – Nunca! – O deus abriu os braços, como se acolhesse a chegada de seu filho favorito. – Dê meus cumprimentos a sua família.
Em vez de começar a guerrear com Kratos, o deus liberou um poder escuro e sobrenatural que banhou Kratos, e o invadiu, apoderando-se de sua mente completamente. O templo, a montanha, Atenas, e o próprio Deus foram todos apagados diante dos olhos de Kratos, substituídos por uma aldeia em chamas. Ele caiu de joelhos. Ele conhecia esse lugar terrível. Ele tolerava-o todas as noites em seus sonhos, em visões que torturavam seus dias e preenchiam cada instante de sua vida. Um riso zombeteiro soou em seus ouvidos. – Eu lhe ensinei muitas maneiras de matar , Kratos. Carne queimada, ossos quebrados, mas romper o espírito de um homem é verdadeiramente destruí-lo.
Rosnando com uma raiva sem palavras e com negação, Kratos ficou de pé. Ele cambaleou através das chamas em frente ao templo na vila onde ele havia assassinado sua esposa e filha. – Você reconhece esse lugar , Espartano? Talvez você possa desfazer seu crime. Se você me implorar por misericórdia, eu posso deixá-lo paralisar seus assassinatos.
Kratos entrou pela porta do templo. Sua esposa, sua filha, vivas e ilesas, estavam diante dele como a resposta para todas as orações que ele fez a todos os deuses. Ele tentou falar, mas nenhuma palavra conseguia romper o domínio da emoção que fechava a sua garganta. Cada pesadelo durante essa década terrível de tormento girava em torno dele, manchando um ao outro, e tomando forma física diante de seus olhos. – Kratos? – Sua esposa disse, incerta, protegendo os olhos contra as chamas atrás das costas dele. – O que está acontecendo? Onde estamos? – Papai! – Sua filha se jogou em direção a ele, mas sua mãe agarrou o braço da menina e segurou-a de volta. A única vez em sua vida que Kratos tinha sentido um golpe tão poderoso e mortífero em sua alma foi quando a coluna lançada por Ares o fixou na porta do Templo de Pandora. – Pelos deuses, pode isso ser real?
– Kratos? – Disse a esposa. – Você veio nos levar para casa? A parede do templo, cintilando de repente brilhou como se já não fosse uma coisa inteiramente material, e por trás desse brilho veio... Kratos. Seu eu mais jovem, o Kratos da década passada, veio caminhando no templo para matar tudo o que se movia. * * * ELE SE COLOCOU entre sua família e seu eu mais jovem. Seu eu mais jovem veio para cima dele com um estilo resoluto e eficiente que tinha sido sua marca registrada. Cada passo era um golpe. Cada golpe era um passo. Sua versão mais jovem era mais rápida e mais forte do que Kratos era agora, mas força e velocidade nunca foram os únicos elementos de vitória. O ar chiou com a música das Lâminas do Caos. Na medida em que elas brilhavam ao seu redor, abrindo pequenos cortes em todo o corpo, Kratos
descobriu que ele não gostava de estar deste lado das lâminas. No próximo chicotear de armas do jovem Kratos através do ar, o velho Kratos entrou na cama de gato das lâminas e segurou uma pela corrente. Seu calor queimava suas mãos, mas ele não se incomodou. Ele estava acostumado à dor. Para ganhar de volta sua família, ele suportaria tudo. Ele agarrou o punho da lâmina e puxou com todo o seu poder. Sua força atirou o jovem Kratos no ar, mas o seu eu mais novo foi tão ágil quanto ele tinha sido. Em vez de cair, impotente, o jovem Kratos inverteu a direção do seu voo em um ataque súbito, a outra lâmina pronta para matar. A ação do velho Kratos deve ter sido um considerável choque para o jovem Kratos quando seu braço foi cortado na altura do cotovelo, de modo que sua mão, lâmina, e corrente caíram inofensivamente no chão. O velho Kratos misericordiosamente poupou-lhe de qualquer choque adicional dividindo-lhe o crânio em duas partes. – Você está vendo, Ares? Você tomou-as uma vez. Eu nunca vou perdê-las de novo! Como se em resposta, manchas nas paredes do templo brilharam novamente. Três delas. De cada uma, um jovem, forte e novo Kratos espreitou à frente. Kratos amaldiçoou Ares enquanto balançava as Lâminas do Caos contra trio de si mesmo. – Um de cada vez teria sido fácil demais. À medida em que os três avançavam sobre sua família, Kratos sentiu o retorno de sua incontrolável fúria sangrenta, alimentada pelas familiares Lâminas do Caos em seu punho. Kratos investiu contra eles sem hesitação, atacando dois de uma só vez. O terceiro aproveitou essa oportunidade para flanquear Kratos e matar sua família, mas descobriu, horrorizado, que seu ataque tinha sido antecipado. E contraatacado. O sangue derramou de seu pescoço cortado, enquanto sua cabeça rolou no chão. Essas duplicatas eram mais jovens e mais fortes, mas elas lutavam com a mesma ferocidade sedenta de sangue que tinha levado Kratos a cometer o pior de seus crimes. O velho Kratos lutava para controlar essa fúria sangrenta, e já não era uma estúpida máquina de matar. Como sua esposa queria, ele se livrou da necessidade de ver sangue derramado, substituindo pela luta por honra e família. Dentro de dez segundos, todas as duplicatas restantes estavam mortas diante dele.
Kratos ficou diante deles, ofegando asperamente, sangrando de dezenas de cortes. Esperando. – Kratos, por favor, eu não sei onde estamos – Chorou a sua esposa. – Levenos para casa. – Em breve, eu espero – Kratos disse suavemente. – Ainda há trabalho a fazer por aqui. Desta vez, eram cinco. Eles tiveram o mesmo destino que os outros. – Você nunca vai tomá-las, Ares. Envie dez de mim. Envie mil. Eu vou matar todos eles. Nenhum deles vai tocar a minha família. As chamas do templo falaram-lhe com a voz de Ares. – Você abriu mão delas em sua busca por poder absoluto. Há um preço a se pagar por tudo o que você ganha.
– Não este preço. Nunca. – Nenhum preço é demasiado elevado para o que eu lhe ofereci, idiota! Você se atreveu a rejeitar um deus! – A voz do fogo se suavizou em uma malícia sedutora. – Aqui está o preço de tal ato tolo.
– Eu não me importo. – Kratos levantou as Lâminas do Caos. – Eu estou pronto. – Está?
As Lâminas do Caos ganharam vida em suas mãos, movendo-se com vontade própria. Era como se elas tivessem tomado os pulsos de Kratos em um apertão indestrutível. E elas começaram a se arrastar para sua família. – Não – ele gritou. – De novo, não! Ele tentou soltar as Lâminas do Caos, lançá-las para longe, mas elas estavam soldadas às suas mãos. As correntes em seus braços queimavam com uma fúria que turvava a sua visão com uma dor de rasgar a alma. Então, as lâminas o controlavam, não o contrário. – De novo, não!
As lâminas subiram. As lâminas desceram. E, mais uma vez, agora, dez anos depois, Kratos se punha de pé sobre os corpos de sua esposa e filha. Assassinadas pelo Deus da Guerra. – Você deveria ter se unido a mim.
Kratos gritou e caiu de joelhos. Este grito não era de terror ou arrependimento; não era a tristeza que afrouxava suas pernas. Era raiva. As chamas em seu coração ardiam mais quente do que as Lâminas do Caos jamais poderiam. – Você devia ter sido mais forte.
Kratos só conseguia uivar com uma cólera incoerente. – Agora você não terá nenhum poder. Nenhuma mágica. Nenhuma arma.
Mãos invisíveis agarraram as lâminas e puxaram-nas de sua aderência. Elas ficaram cada vez mais longe uma da outra, como uma manivela que afastava e estendia os braços de Kratos, quase rompendo-os, mais e mais, até que seus ombros gritaram de dor, como se os braços fossem rasgar fora do corpo. Ao final, sua carne desistiu antes que suas articulações o fizessem. As correntes estavam livres, triturando os braços com a sua retirada, deixando os enegrecidos rasgos soltando fumaça. – Tudo o que resta para você é... morte!
Com essa última palavra do Deus da Guerra, o templo queimando desapareceu em torno de Kratos. Kratos ajoelhou-se sobre os escombros da noite envolta pelo estilhaçado Templo de Atena, no topo de sua montanha sagrada, acima de sua arruinada cidade. Uma única lágrima arrastou-se pela sua bochecha e caiu no acúmulo de pedras na alvenaria quebrada. Ele levantou uma mão, contemplando o danificado e carbonizado antebraço, e virou-se em direção ao templo, como se inspecionando o quanto ele superava em tamanho a grande estátua de Atena. Quando olhou para cima, seus olhos estavam secos. Ares encarou-o através da ruína. Ele se inclinou sobre sua espada vermelho efervescente como se fosse uma bengala.
– Sem magia? – O rosnado do Kratos do tamanho de um deus retumbou pela cidade, aumentando os ecos das montanhas distantes. – Eu tenho magia suficiente. – Você ainda é um mortal, inútil e fraco – zombou Ares. – Há uma mulher morta no chão do templo. Ela disse que eu sou um monstro, e ela não estava errada. – Kratos levantou-se. Ele balançou as torções para fora de seus membros, enviando gotas de seu sangue voando em todas as direções. – Eu sou o seu monstro, Ares, e eu vim para lhe matar.
Ares soltou uma gargalhada. Então a fúria de Ares entrou em erupção, em uma explosão de chamas e um estrondoso urro, como um milhão de soldados berrando seus gritos de guerra em uníssono. Ele levantou a grande espada sobre sua cabeça. – Lute! – Ele rugiu. – Se você ousar!
Ares veio galopando pelo cume da montanha, cada passo fazia a pedra tremer e quebrava o templo em pedaços. Kratos assistiu-o como um leão à espreita. E a verdadeira peleja, enfim, começou. * * * ATENA ASSISTIA À LUTA mostrada pela piscina de vidência diante do trono do Olimpo, Zeus a seu lado, seu coração batendo até que ela mal pudesse respirar. Era mais do que a ansiedade por seu plano ter alcançado o clímax de uma década. Surpreendentemente, ela estava preocupada com Kratos!
Embora ela mal pudesse acreditar, de alguma forma ela tinha começado a se importar com esse grosseiro mortal homicida. Quando Kratos se deparou com a investida de Ares, lançando um punhado de prédios como areia nos olhos do deus, ela prendeu a respiração. Quando Kratos escorregou de lado para evitar os golpes cegos da espada de Ares e levou o Deus da Guerra para o chão, ela arfou. Kratos extraiu uma rocha da base da montanha que deveria pesar toneladas; agora ele estava tentando transformar o cérebro de Ares em pudim de sangue, e Atena se viu de pé sem lembrar de ter se levantado. – Isso sim é uma luta! – Zeus exclamou.
Seus olhos dançavam, e não havia cor no alto de suas bochechas. Relâmpagos minúsculos mostravam-se em sua barba de nuvens. – Nada dessa coisa moderna de ficar saltitando, com espadas e escudos o tempo todo. Essa é a maneira como uma peleja costumava ser.
O Rei do Olimpo deslocou-se para uma posição mais confortável à beira da piscina de vidência. – Kratos pondera bem em seu... julgamento, e faz toda a humanidade parecer mais esperta. Você pode imaginar o que deve estar passando pela cabeça de Ares agora? Atena viu-se apertando os punhos e contraindo os ombros como se ela pudesse, de alguma forma, ajudar Kratos a ganhar. Quando Ares chutou-o e ele conseguiu ficar de pé, ela não conseguiu respirar novamente. O Espartano, porém, sem hesitação, jogou-se de volta para a luta. – Esse menino Espartano significa muito para você, não é? Ela contraiu os músculos com a pergunta e depois corou de vergonha por ser tão transparente. – É claro – disse ela, forçando um véu de calma para cobrir sua ansiedade. – Como você cuida de suas águias, pai. Fico na expectativa da sua saúde, e torço por sua felicidade. – Se ele cuidar de Ares, pelo menos não terá mais de se preocupar com sua maldição por ter matado parentes. Se ele derrotar Ares, seus crimes serão perdoados. Eu decretei que seria assim. – É tudo o que ele espera – Atena disse. – Com o perdão, a sua loucura, as visões, os pesadelos vão finalmente acabar. Zeus olhou de soslaio. – Quem lhe falou sobre seus pesadelos? Ela olhou para seu pai. Um choque de pavor percorreu seu coração e expandiu-se para seus membros. – Pai, o fim dos seus pesadelos... é por isso ele vem trabalhando todos esses anos! – E para vingar a morte de sua família – Zeus apontou. – O que ele parece estar prestes a fazer, pelo jeito que as coisas estão indo. – A vingança é apenas uma parte da sua jornada. – Ela insistiu. – Para que serve o perdão? Ele não precisa ter seus pecados lavados, ele precisa de uma noite de sono decente! – Talvez – Zeus disse. – Mas o que ele precisa e o que merece não são a mesma coisa.
– Pai, você não pode balançar essa esperança na frente dele para ganhar dez anos de serviço e depois arrancá-la fora! – Eu não balancei, como você diz, nada. O que quer que tenham pechinchado entre vocês dois não é da minha conta. Há mais importância nessa luta do que você imagina. Atena só podia sentar e ficar boquiaberta. Zeus ergueu-se, e toda a sua zombaria alegre e prática de jogos insignificantes desvaneceu. A majestade da realeza radiante brilhou em seu rosto como o próprio sol. – Não há crime pior do que derramar o sangue de sua própria família. Eu suporto a maldição desse ato em mim. É um crime que pode ser justificado, talvez, pelo fato de que eu agi para me defender e salvar a todos vocês, mas ainda assim estarei manchado para sempre com a maldição do meu crime. Kratos agiu por simples frenesi de sangue. Isso nunca pode ser alterado. – Ele não é responsável por isso.
– Sua culpa será purificada. Mas, ainda assim, ele é o responsável. O que quer que ele tenha feito não pode ser desfeito. Um ato tão vil pode ser expiado, algum dia. Mesmo perdoado. Mas nunca poderá ser esquecido. Ele deve encontrar paz a sua própria maneira. – Mas, Pai... – Acalme-se, filha. Não tema pelo seu espartano. Eu vou cuidar de Kratos por você. – Ele acenou com a cabeça na direção da piscina de vidência. – Olha lá: Ares, no entanto, pode matar Kratos. Então, nós não teríamos um problema com isso, não é? – Você acha que Ares vai ganhar?
– Ele parece ter a vantagem no momento... * * * KRATOS E ARES ESTAVAM em uma briga mano a mano, peito a peito, rosnando e rasgando um ao outro como ursos enfurecidos. Kratos tinha mantido toda a luta dentro do alcance de um agarrão, de modo que Ares nunca chegou à distância suficiente para usar sua arma de forma eficaz. Ele manteve uma mão apertada no pulso da espada do deus, e a outra forçando sob o queixo de Ares, rechaçando sua cabeça para trás. As chamas da barba do deus enchiam de pústulas as mãos de Kratos, mas ele tinha se acostumado a tal dor por conta dos longos anos empunhando as Lâminas do Caos.
Ares rosnou obscenidades através de seus dentes cerrados quando ele socou, com a mão livre, o rim de Kratos, de novo e de novo. Uma dormência se espalhou, dobrando o joelho do Espartano. Sentindo suas articulações cederem, Kratos, como qualquer espartano teria feito, usou o que lhe foi dado. Se ele não conseguisse ficar totalmente de pé, ainda poderia espancar a virilha de Ares. Para cada soco que o deus dava, ele também levava uma joelhada nos testículos, até que, ainda que por meio do brilho de seu cabelo e barba, seu rosto começou a mostrar dor. Kratos desistiu de empurrar o queixo do deus para golpear com o cotovelo a lateral da cabeça de Ares, abalando o já enfraquecido deus. À medida que Ares perdeu o equilíbrio, Kratos mergulhou para a esquerda, usando o aperto no pulso do deus para fazer a mão que empunhava a espada receber o impacto pleno de ambos os seus pesos, dele e de Ares, quando caíram de lado para o chão. O punho de Ares quebrou o leito de rocha onde ele o atingiu, e a pedra fez o mesmo com os nós de seus dedos. Kratos colocou seu joelho entre a pedra e o deus e chutou Ares longe dele, enquanto torcia a espada das suas mãos. Ares levantou-se, arrastando-se como um bêbado e segurando sua mão quebrada. Kratos rolou suavemente e cortou o ar com um floreio desfocado da espada de Ares. A pele dos lábios do espartano descascou com seus dentes. – O que acha do seu monstro agora?
Ares endireitou-se e deixou sua mão ferida assentar ao seu lado. Seu sorriso feroz de predador era um espelho quase exato da expressão de Kratos. – Você não tem ideia do que é um verdadeiro monstro, pequenino espartano. Você aprenderá essa lição.
Ares curvou-se, e seu rosto enegreceu com a tensão. Explodindo através da armadura impenetrável nas suas costas, vieram apêndices articulados, contorcendo-se como as pernas dos escorpiões aterrorizantes, blindados com rocha preta, cujas pontas tinham mais lâminas do que o Pártenon tinha colunas. – E você não vai viver para precisar de outra.
Com o barulho de seus membros laminados, Ares surgiu como uma aranhalobo, cada objeto cortante angulado para beber profundamente o sangue do Espartano. Kratos recuou. Esse era um inimigo que nunca tinha imaginado. Ares saltou, apunhalando com suas lâminas de escorpião em conjunto, em um sequência complexa, impossível para Kratos contra-atacar. O espartano continuou
recuando, desviando furiosamente, cortando os membros quando podia, mas seus escudos negros não eram menos impenetráveis do que a armadura mística do deus. Mas aquela armadura mística, Kratos observou, não cobria todo o corpo do Deus da Guerra... Na próxima vez que Ares adiantou-se contra ele, Kratos deu o bote e enfiou dez metros da grande espada vermelha quente na parte interna da coxa do deus. Em um mortal, esse teria sido um golpe final; cortar a grande artéria na coxa faria um homem sangrar em segundos. O sangue do deus, negro e grudento, saiu gotejando da ferida, mas o único efeito real que o ataque pareceu ter causado era que Ares, agora, usava os membros das lâminas para levantar seu corpo do chão. Assim como eles tinham servido-lhe como um braço da espada, agora serviam-lhe como pernas. Ele investiu contra Kratos novamente, e novamente. Kratos foi para trás, tentando circular, procurando por qualquer abertura no entrelaçamento confuso de morte dos membros de seu oponente. – um local mais vulnerável no qual ele pudesse golpear a carne do deus. Ele estava se cansando mais rapidamente agora. Sem as Lâminas do Caos para alimentá-lo de energia vital, suas feridas permaneceram abertas e derramaram a sua força nas lajes do pátio. Por um breve momento, ele realmente pensou que iria perder... mas, naquele instante, os rostos de sua esposa e de sua filha emergiram dentro de sua mente e inflamaram-no com uma fúria diferente daquela que ele conhecia. Toda sua força voltou para ele, e mais. Ares veio em sua direção. Kratos esmagou uma das facas do membro com tanta força que a lâmina atingiu um membro vizinho. E rachou sua armadura. Kratos demonstrou surpresa quando um líquido de obsidiana vazou da rachadura. Uma fraqueza?
Ares recuou, sua confiança foi abalada por um momento, mas, em seguida, se preparou para outro ataque. Vamos acabar com isso, Kratos pensou. Ele deixou seus joelhos se dobrarem, para que eles balançassem oscilantes, e deixassem que a espada se inclinasse para fora da posição de ataque. Quando a ponta raspou no pátio de pedra, os dedos se abriram calmamente, e a espada tiniu no chão. Vendo tal fraqueza, Ares saltou no ar, caindo sobre Kratos para empalá-lo com duas lâminas de uma só vez. Mas, quando o Deus da Guerra saltou, a fragilidade de Kratos desapareceu e ele se levantou em um pulo para encontrar Ares no ar. Suas mãos se fecharam em torno da junta de um membro de lâmina, e ele torceu e se inclinou com irresistível força, emperrando a ponta de agulha através da couraça de Ares,
para dentro do peito do deus. Ares contraiu-se, e eles caíram. E Kratos puxou violentamente o seu peso para cair em cima do deus, deixando que seu peso conduzisse a lâmina totalmente no peito de Ares e saísse em suas costas. Com um rugido que era mais de indignação do que de dor, Ares arremessou Kratos para longe e caiu com os pés no chão, olhando para a imensa lâmina encravada em seu peito com uma espécie de perplexidade. Kratos lembrava-se muito bem dessa expressão, era exatamente a maneira como ele olhou para a coluna com que Ares o tinha lanceado ao Templo de Pandora. Ares caiu de joelhos. Kratos levantou-se e recuperou a espada do deus. Ares olhou para ele, em seus olhos havia medo e súplica. – Kratos... Kratos, lembre-se... fui eu quem o salvou em sua hora de maior necessidade!
Kratos levantou a espada. – Naquela noite... Kratos, por favor ... Naquela noite eu estava tentando apenas torná-lo um grande guerreiro!
Kratos empurrou própria espada de Ares no peito do deus. Enquanto ele mancava para longe do cadáver do deus, o corpo sem vida começou a piscar com luzes miríades. As luzes se transformaram em partículas de dança que afastaram-se do cadáver e rodopiaram para cima, para o céu, até que, com um clarão ofuscante e um trovão como o fim do mundo, nada de Ares permaneceu. Kratos estava exaurido e sangrando, e era, mais uma vez, apenas um homem. Ele olhou maravilhado para a enorme lâmina que alguns momentos atrás empunhou de forma tão leve. Agora, ele não era a metade da altura que o ponto mais estreito da lâmina. Ele mancou de volta para as paredes quebradas do templo em ruínas, ficando diante da estátua da deusa. – Atena – disse ele –, a cidade está salva. Ares está morto. – Ele olhou atento para os olhos de mármore branco. – Eu já fiz a minha parte. Agora, faça a sua. Limpe esses pesadelos para sempre. O brilho cintilante de divindade imanente tocou o mármore. Os olhos se ascenderam, e os lábios se moveriam quando Atena falou.
– Você fez bem, Kratos – a estátua disse. – Embora lamentemos a morte de nosso irmão, os deuses estão em dívida com você.
Kratos ficou um pouco mais reto. Um calafrio escuro escoava em suas veias. – Prometemos que seus pecados seriam perdoados, e assim será. Mas nós nunca prometemos apagar seus pesadelos. Nenhum homem, nenhum deus, jamais poderia esquecer os atos terríveis que você cometeu. – Você não pode Atena, eu fiz tudo que você pediu! Você não pode! – Adeus, Kratos. Seu serviço aos deuses chegou ao fim. Vá adiante em sua nova vida, e saiba que você ganhou a gratidão do Olimpo!
O brilho da deusa desapareceu. Kratos estava sozinho no templo em ruínas, acima do despedaçado remanescente da cidade. Ele ficou lá por um longo, longo tempo. Então ele começou a andar.


CRÔNICAS 64 : GOD OF WAR

Trinta

Quem é o coveiro? Zeus pareceu ter se surpreendido com a pergunta repentina de Atena. – Ora, ele... cava sepulturas. – Isso não é uma resposta. – Mas é. Só não a resposta que você está esperando. Atena escondeu o início de um sorriso. As palavras do Pai dos Céus levaram-na a uma conclusão inevitável: o próprio Zeus tinha sido o coveiro, e ele apoiou Kratos. Ela sabia que ele não podia favorecer abertamente o Espartano, por causa de seu próprio decreto. Os outros deuses iriam protestar. Com tanta confusão no Olimpo, graças a Ares e sua desobediência, Zeus caminhava com cuidado. Ele era o Rei dos Deuses, mas nunca poderia suportar uma rebelião aberta encetada entre todos os outros deuses. Ela regojizou-se. Zeus tinha auxiliado Kratos de uma forma que ela desconhecia, mas, ainda assim, tinha ajudado-o. O que aumentava a chance de sucesso de Kratos. Zeus havia concedido o poder do relâmpago a seu Kratos secretamente. Atena precisava de mais ainda de Zeus. – Pai, devemos ajudar Kratos mais abertamente. Ele não pode esperar vencer Ares em batalha sem a nossa ajuda. – Não! – Imediatamente instável, Zeus sacudiu-se para ficar ereto e agora elevava-se sobre ela, de modo que todo o corpo da deusa estava em sua sombra. – Você não vai ajudar Kratos, porque o sangue de Ares não vai manchar as suas mãos! Tudo se encaixou. A complexidade roubou-lhe o fôlego. Zeus tinha manobrado-a para que ela guiasse Kratos onde ele, o Senhor do Olimpo, pudesse provocar a morte de Ares. – O que mais, Pai? Você disse que Kratos tinha que se provar digno. De quê? O que mais, além de matar Ares, você planeja para ele? – Você pensou em usar o seu mortal para realizar o seu objetivo, mas eu previa fracasso. Agora, há uma chance de que Kratos mate um deus e... realize mais.
– Uma chance – Atena disse – mas não uma certeza. Zeus não respondeu.


CRÔNICAS 63 : GOD OF WAR

Vinte e nove

Na cova aberta, a pele de Kratos formigou como se ele sentisse um calafrio repentino. Ele se virou e olhou para cima, e, sim, estava no lugar onde achava que estava: o túmulo que tinha sido escavado ao lado do Templo de Atena. Kratos saltou sobre a cova e olhou para a cidade em chamas. À distância, ele viu a forma imensa de Ares caminhando pela cidade, pisando nos edifícios de forma aleatória. – Ah, Kratos, bem a tempo. Terminei de cavar apenas um instante atrás. A voz inesperada assustou Kratos e o fez virar-se. Ele agachou-se, pronto para lutar por sua vida recém-recuperada, mas não havia nenhum perigo ali. Atrás dele estava apenas o velho coveiro. Agora, no entanto, o coveiro não parecia tão velho ou tão decrépito, e sua voz não tinha nada de seu antigo tremor senil. A inteligência inflamou em seus olhos uma vez turvos. – Quem é você?
– Uma pergunta interessante, mas não temos tempo para respondê-la, meu filho. Você deve se apressar. Atenas precisa de você. – Mas... mas... – Krato gesticulava em uma perplexidade impotente para o túmulo vazio. – Mas como é que você sabia... como poderia saber que eu... – Atena não é a única divindade que está tomando conta de você, Espartano. Você chegou longe para provar o seu valor, mas a sua tarefa final está diante de você. Kratos se virou assim que um estrondo irrompeu da direção de Atenas. Ares elevou-se, distribuindo destruição e rindo em triunfo. Kratos sentiu sua raiva inflamar. Sem voltar-se para o coveiro, ele perguntou: – Quem é você? Kratos falou com o vazio. O coveiro tinha desaparecido como fumaça ao vento. Veio uma resposta sussurrada, um zéfiro soprando em seu ouvido. – Complete sua tarefa, Kratos... e os deuses perdoarão os seus pecados...
O Espartano balançou a cabeça sombriamente. – Como posso fazer isso sem a Caixa de Pandora?
De todas as armas que ele ainda carregava, Kratos sabia que nenhuma sequer colocaria em desordem o cabelo ornado de chamas de Ares. Ele fitou através da ruína inflamada de Atenas, onde o Deus da Guerra permanecia gritando seu triunfo para os céus. Kratos endureceu quando ele se lembrou de um velho ditado: espartanos lutam com as armas que têm, e não com as armas que desejam.
O momento da decisão finalmente tinha chegado. Hora de matar. Hora de morrer. Kratos começou a caminhar. Um abafado e ofegante gemido chegou aos ouvidos de Kratos enquanto ele se dirigia para o abismo que tinha há pouco cruzado, antes da ponte solitária ser destruída. Ele vinha de dentro do Templo de Atena. Parecia um gemido de uma mulher em agonia, ofegando seus últimos suspiros. Ouvindo isso, Kratos descobriu-se contente por saber que, ao menos, sua esposa e filha não tinham sofrido. Ele tinha dado a elas uma morte rápida, quase indolor. Mais limpa do que a mulher lá dentro. Provavelmente o Oráculo, pensou ele, e parou. Se fosse o Oráculo, ele tinha uma última pergunta para ela.
Ele trotou até os degraus da frente do templo. O andar inteiro estava manchado com sangue seco. Ele foi até a estátua imensa de Atena e ficou em pé diante dela, olhando para os seus olhos de mármore branco. – Nenhuma caixa. Somente as armas que eu tinha antes – disse ele, girando as Lâminas do Caos ao redor. – Algum conselho? O rosto de mármore da estátua permaneceu teimosamente vazio. Kratos virou-se e andou por de trás do altar, em direção ao corredor que levava aos aposentos do Oráculo. Uma dúzia de passos longos levaram-no para a sala vazia. Não havia nada lá, a não ser algumas folhas mortas. De volta ao templo, ele olhou em volta para encontrar a fonte do gemido suave. Ele virou-se lentamente, ouvindo com atenção. Acima. Em algum lugar acima. O teto do templo havia sido explodido em pedaços. Ele correu rapidamente e saltou sobre o altar, caindo novamente ao lado da cabeça da estátua de Atena, e, em seguida, um salto prodigioso impulsionou-o para a borda do telhado rompido. Ele quase não conseguiu; sua mão esquerda fechou-se em um caco de uma viga e pendurou-se, balançando.
Mais uma vez as visões capturaram a sua mente. Sua esposa e filha em seus braços, cruelmente abatidas no chão do templo da vila. A maldição do Oráculo que o transformou no Fantasma de Esparta. O redemoinho de cinzas de sua família aderindo à sua pele, para sempre manchando tanto a sua carne quanto a sua alma. Kratos grunhiu e subiu no telhado. Esparramado a poucos passos de distância estava o Oráculo de Atena, sua contorcida posição avisava que sua espinha havia sido quebrada. Várias vezes, em batalha, Kratos tinha visto guerreiros em posições semelhantes. Levava horas, às vezes dias, para que eles morressem. Ele se ajoelhou ao lado do Oráculo. Ela tinha parecido diminuta antes. Agora ela era frágil e velha além de seus anos. Seus olhos palpitaram e abriramse quando sentiu os dedos em sua bochecha, e ela apertou os olhos contra a claridade das chamas devorando a distante Atenas. – Você voltou – disse ela em um sussurro. – Você conquistou a Caixa e a perdeu. Minhas visões... Eu vi. – Então você sabe o que aconteceu comigo. Ela fechou os olhos. Sua pele estava pálida, transparente como um pergaminho, revelando o emaranhado de veias logo abaixo da superfície. Kratos pressionou os dedos com mais força em sua bochecha. Ela se mexeu. – Diga-me o que você vê – disse ele. – Diga-me como posso matar o Deus da Guerra. – A Caixa... – O Oráculo se contraiu espasmodicamente. Ela balançou a cabeça. – Por que você foi escolhido por Atena? Você é um homem terrível. Um monstro... – Um monstro para matar um monstro. Não veio nenhuma resposta, ele falava com uma mulher morta. Ele se levantou e olhou para o seu corpo, pouco maior que o tamanho de uma criança, não importando os poderes que possuía em vida. Agora sua sombra tinha sido despachada para o abraço do Senhor Hades. Ele olhou para baixo, sobre a cidade, e então para o abismo. Como que ele iria descer daqui? Ele notou que um edifício em chamas perto da base da falésia estava se movendo, como se, de alguma forma, atravessasse a cidade; mas então o fogo
virou o rosto para o céu, e Kratos percebeu que o que ele achou que fosse uma construção era, de fato, a chama do cabelo de Ares, visto de cima. O deus parecia estar contemplando a vista. Num piscar de olhos, Ares foi varrido da existência. Mais uma vez, Kratos sentiu uma pontada fria se espalhar pela sua pele. Isso tinha sido muito parecido com o Ares fantasmagórico na Arena da Memória. Se o Ares real fosse tão invulnerável quanto a sua imitação... Ele não se permitiu pensar sobre isso. Então a voz que assombrava cada pesadelo de Kratos rugiu logo atrás dele. – Zeus! Você vê o que seu filho pode fazer?
Kratos se virou e deixou o seu coração voltar a bater. Ares não tinha ideia de que o espartano estava lá. Ele só dirigiu-se ao topo da montanha por que ela continha o templo mais sagrado de Atena. Ares se vangloriou para o céu. – Você optou por favorecer Atena, mas a cidade dela está em ruínas diante de mim!
Os ecos da voz colossal derrubaram mais destroços da alvenaria ao redor do templo. O deus levantou o punho, ameaçando o céu. – E agora, até mesmo a Caixa de Pandora é minha. Gostaria que eu a utilizasse contra o próprio Olimpo?
Kratos, do seu ponto de vista vantajoso sobre o telhado do templo, viu que o deus estava dizendo a verdade. Embora a massa da arca estivesse ofuscada pelo punho do qual pendia, não havia dúvida de que aquele era o estranho brilho de ouro de suas joias. A Caixa de Pandora rotacionava no final de uma corrente longa e delgada, como se fosse um medalhão, um amuleto que o deus usava para dar sorte. Ares continuou com seu falatório extravagante, mas Kratos já não o escutava. Toda a sua atenção estava focada na fina corrente que ligava a caixa ao punho do deus. Ele olhou da corrente para a cicatriz branca na palma da mão, em seguida, de volta para a corrente. – Não posso golpear o deus? – Ele mostrou os dentes para a noite como um lobo raivoso. – Justo.
Ele disse suavemente: – Ares. Ouvindo seu nome, o deus se virou para olhar por cima do ombro. Ele cheirou o ar, como se para capturar um sabor agradável. – Kratos. Regressado do submundo. – Ares não parecia surpreso, estar parecia satisfeito. Ele ergueu o rosto para o céu de novo e jogou os braços largos na direção do Olimpo. – Isso é o melhor que você pode fazer, Pai? Você envia um mortal alquebrado para me derrotar, o Deus da Guerra?
Kratos não se sentia alquebrado. Ele ergueu a mão direita, sentiu o poder do raio de Zeus surgindo de dentro dele enquanto dava um passo para a frente, e desencadeou a guerra sobre um deus.


CRÔNICAS 62 : GOD OF WAR

Vinte e oito

Kratos caiu, caiu e caiu, ao lado de centenas de outros homens e mulheres caindo ao lado dele. Ele mergulhou através do nevoeiro de sangue sombrio e melancólico do Hades, descendo em direção às margens do rio Estige. Ele conhecia esse lugar. Ele tinha estado aqui antes. Mas sua permanência anterior tinha sido como homem vivo, um mortal invasor entre as sombras dos mortos. Agora, ele era uma sombra ele mesmo. E nenhuma sombra, não importava a grandeza do herói que ele tinha sido em vida, jamais escapou do reino de Hades. Ele olhou para si mesmo enquanto caia sem parar. Sua pele parecia tão branca como tinha sido em vida; suas tatuagens, tão vermelhas. Sua carne, sentia-a tão sólida quanto antes; seus braços, tão fortes. Nenhuma marca permaneceu da arma gigante que tinha lhe arrancado a vida mortal. Ele se sentiu surpreendentemente, completamente, bem. Ele pensou em sua esposa e filha já no submundo à frente dele. Sua punição poderia ser a de matá-las repetidamente por toda a eternidade, incapaz de se conter, da mesma forma como frutas frescas e água pura eram eternamente inalcançáveis a Tântalo6. O vento batia em seu rosto; a resolução se solidificou em seu peito. Ele era um guerreiro de Esparta. Até que se encontrasse o barco de Caronte, remando através do rio Estige, ele não estaria morto. Não verdadeiramente. Que estado ele residia de fato era uma pergunta melhor respondida por um filósofo, uma vez que Kratos nunca tinha se interessado por abstrações. Ele não se importava de morrer. Ele só queria ter certeza de que a sombra lacrimosa de Ares atingiria primeiro o Estige. Ele havia caído tão profundamente que agora começava a ver a paisagem do submundo. Embora ainda estivesse muito alto para ver o rio, ele começou a discernir estruturas sólidas que pareciam ser da cor de ossos, que sustentavam, cruzavam ou pairavam na penumbra cor de sangue abaixo. Caindo mais ainda, ele descobriu que essas estruturas tinham cor de osso por uma razão muito boa. Eram ossos.
Ossos grandes demais para pertencer mesmo aos deuses. Kratos passou por uma gaiola de costelas, em que cada costela era maior do que a cabeça-mestra da Hidra. Abaixo das costelas, ele avistou uma coluna em que cada vértebra era do tamanho do Pártenon.
Ele dobrou os braços firmemente em volta do seu corpo e doboru as pernas o suficiente para inclinar-se de cabeça para baixo. Enquanto caia, ele realizou pequenos ajustes na extensão das pernas, ou no ângulo de uma ou de ambas as mãos, manteve-o em direção às grandes protuberâncias ósseas. Ele não se preocupou com a força com que ia aterrissar. Ele já estava morto, quão mal isso poderia lhe fazer? Ele despencou para a coluna a uma velocidade espantosa. Enquanto ele caia mais e mais perto, discernia pequenas figuras de outras sombras que haviam tido a mesma inspiração, eles se chocavam ou repousavam ou se agarravam desesperadamente aos ossos, parecendo querer atrasar a sua queda final para o Estige. Seus últimos metros passaram em velocidade vertiginosa, e o impacto veio com um brilho branco, mas sem nenhuma dor, que era o que ele esperava. O que ele não esperava era que quicaria.
Ele se viu cair de novo, descontrolado. Ele atingiu outra vértebra, mas derrapou sobre a borda antes que pudesse pegá-la. Lutando desesperadamente agora, Kratos se agarrou a tudo o que passou perto dele, porque estava prestes a passar por cima da borda do cóccix e não via mais nada entre ele e o rio preto moroso que marcava a fronteira do Hades. No último instante, sua mão pegou algo. Ele ouviu um grito de pânico e, enquanto pendia por uma mão acima da queda final, descobriu que tinha agarrado um ósseo e seco tornozelo. – Solte, idiota! – O homem que ele tinha agarrado gritou. – Eu não posso segurar nós dois! – Aguente firme – Kratos disse entre dentes. – Segure firme e eu vou tirarnos daqui. – Inflexivelmente, ele se ergueu para onde poderia segurar o joelho do homem com a outra mão. – Meus braços – lamentou o homem. – Você está deslocando meus braços do meu cotovelo! Solte! Kratos considerou-se um homem de sorte: o homem estava tão seco que o espartano poderia fechar a mão em torno da coxa do sujeito. O homem tentou chutá-lo. – Você não vai me arrastar para aquele maldito rio! – Há uma tarefa deixada para mim, acima – Kratos rosnou – e eu vou concluí-la. – Eu não me importo! Solte!
O homem gritou enquanto Kratos erguia-se mais alto e enfiou a sua mão
como uma lança profundamente na lateral do homem; ele enganchou seus dedos sobre o ilíaco do sujeito e continuou subindo. Seu apoio seguinte foi o ombro do homem, em seguida, o outro ombro, e, finalmente, Kratos pôde segurar a mesma protuberância que o outro agarrava. Agora era uma questão de trepar por cima da vértebra. Ele se voltou para o sujeito que tinha usado como escada. Ele era o capitão do navio mercante do Túmulo dos Navios. O capitão reconheceu Kratos no mesmo instante. Um olhar de puro horror torceu seu rosto. – Ah, não. Você de novo não! Kratos pisou perto da borda e chutou a mão do capitão para fora do osso. O capitão tinha uma voz penetrante, e Kratos ouviu-o gritar maldições à medida em que sua sombra rodopiava para baixo, para desaparecer na névoa sangrenta acima do Estige. Kratos virou-se e examinou a paisagem esquelética. Ele começou a subir. Escalando vértebra após vértebra, ele labutou em seu caminho por um desconhecido intervalo de tempo. A luz aqui nunca mudava, e Kratos nunca se cansava. Ele continuou subindo. Quando ele chegou às costelas, quilômetros acima de onde havia começado, descobriu uma nova característica desse reino peculiar: mortos-vivos. Esqueletos. Legionários. Mas esses não eram sombras nuas, eram blindados, equipados com todo tipo de armas, e sedentos por sangue, como haviam sido no mundo acima. Eles se espalharam para interceptar a sua passagem. Conforme eles entravam em posição, Kratos viu que não estavam sozinhos. Dois minotauros carregavam machados de batalha e um centauro enorme brandia uma espada tão longa quanto Kratos. O centauro parecia familiar. – Eu sei quem é você, espartano! – O centauro rosnou. – Você me mandou para cá apenas alguns dias atrás, em uma rua de Atenas. – E é assim com todos, não é? Eu matei todos vocês. O centauro enorme sorriu, abrindo os braços como se estivesse dando boasvindas. – E todos nós estamos aqui para retribuir o favor! Kratos olhou mais para cima e descobriu que poderia mapear seu caminho
observando onde criaturas esperavam por ele. Todos os ossos que levavam para cima estavam cheios de inimigos que haviam morrido por suas mãos. Ele começou a subir o osso até o primeiro grupo. O centauro gritou, girando sua espada enorme em torno de sua cabeça. * * * – KRATOS PASSOU EM BATALHA. Horas, dias, meses, décadas. Não havia como saber. Ainda assim ele nunca se cansava, e a luz nunca mudou, e ele nunca ficou sem inimigos. Ele subia e depois lutava. Ele saltou em seguida, viu-se diante de uma coluna imensa altamente ornamentada com segmentos rotativos de lâminas imperfeitamente afiadas. Kratos recuou e tentou ver o topo da coluna. Ela desaparecia nas névoas vermelho-sangue acima. O sibilar das lâminas rotativas cortava o ar, mas não conseguia abafar os gritos de homens e mulheres que o Senhor Hades abraçava abaixo. Kratos tinha percorrido uma distância considerável para chegar a esse ponto, e havia mais a percorrer, se quisesse matar um deus. Respirando fundo, Kratos viu as lâminas giratórias e decidiu pelos anéis “seguros”, mesmo que ele soubesse que não podiam ser consideradas ilhas de refúgio. Os anéis não giravam em velocidades uniformes. Alguns acima giravam mais rápido, enquanto aqueles em ambos os lados giravam mais devagar. Depois que ele começasse a subir, não haveria como voltar atrás, nem descanso, nem um instante de hesitação. Dois passos rápidos e um salto o conduziram para cima do primeiro anel de lâminas curvas. Kratos quase teve mal êxito em sua fuga da prisão do Senhor Hades quando uma lâmina sob seu pé esquerdo cortou parte de sua sandália. Ele deu um solavanco para cima e olhou estupidamente para baixo. Sem descanso. Sem parar. As lâminas acima vieram rápidas ao nível dos olhos. Escalando, encontrando apoio contra os anéis em constante movimento, uma pequena cavidade onde seus pés cabiam e um impulso rijo permitiram-lhe escapar da decapitação. Ele diminuiu o passo, em seguida, disparou para cima, com os dedos encontrando os locais certos para agarrar e evitar o próximo anel de lâminas, e o próximo, e o próximo. Então ele viu que o anel superior rotacionava em oposição os outros, obrigando a recuar. Kratos deixou-se cair, mas agitou-se quando viu uma pausa no anel mortal. Ele encontrou um ritmo para a subida, uma certa lógica para o aparentemente aleatório turbilhão de morte à sua volta. Mas um grito advertiu-o de que uma harpia estava vindo às suas costas. Não ousando tirar sua atenção da torre segmentada de lâminas, ele manteve-se escalando.
O sangue respingado de suas costas correu em rios grossos para escorrer até o local onde ele havia começado a escalada. A harpia imprudentemente atacouo e ignorou um conjunto de lâminas vindas no sentido oposto; ela pagou o preço por isso. Um olhar rápido mostrou o seu corpo decapitado caindo. Ele não viu a cabeça. Ele estava muito ocupado em prevenir que tal destino acontecesse a ele. Por duas vezes, as lâminas cintilantes quase deceparam peças vitais de sua anatomia. Uma ferida era menor, mas um constante jorro de sangue veio de um corte profundo nas costelas, na parte superior da coluna mortal. O santuário a vista o estimulou, e o vento que assobiava das lâminas refrigerou seu corpo, assim como o suor que evaporava de seus esforços. Perto do cume, com apenas um anel de lâminas para passar, Kratos subiu, deixando uma borda afiada esfolar sua perna, e deu uma cambalhota para o topo da coluna. Ele imediatamente encontrou-se com um alto legionário blindado em chamas. Kratos deu um salto mortal, aterrissando de pés, e sacou as Lâminas do Caos em suas mãos. A subida tinha deixado o seu pulso acelerado, e cada sentido agora estava aguçado. O legionário não tinha chance contra seus ataques rápidos e seus súbitos saltos altos no ar. Ele foi arremessado para baixo, para as lâminas que o precediam. O legionário explodiu em uma bola de fogo quando a ponta de uma faca dirigiu-se duramente para a parte de trás do crânio do morto-vivo. Kratos ficou de pé, olhando para o monte de cinzas que marcava o local de descanso final do legionário. Ele chutou as cinzas sobre a borda, levando-as a flutuar, à deriva do rio Estige. Olhando em volta, ele viu que não tinha para onde ir a partir do ápice da coluna. Kratos olhou para baixo, por sobre o borrão de facas giratórias. Se tivesse que recuar e encontrar outro caminho, ele o faria. Quando ele deu um passo para a borda para iniciar sua descida, um novo som encheu o ar, abafando os gritos dos infelizes caindo no submundo. Ele pulou de volta, a tempo de evitar ser esmagado por um bloco pesado. Um sorriso desgostoso curvou os lábios de Kratos. Ligada ao bloco estava uma corda que desaparecia, acima. Ele talvez tivesse que enfrentar algumas harpias, mas as lâminas da coluna sob seus pés eram um perigo passado. Reunindo suas forças, ele dobrou as pernas e explodiu para cima, agarrando a corda tão acima quanto possível. Mão após mão, ele continuou sua fuga, enquanto passava por dezenas, ou milhares, de armas depostas dos cadáveres de seus inimigos. Apesar de ser uma sombra, ele podia ser ferido por esses inimigos, como ele descobriu, mas a vitória curava as suas feridas. O submundo atrás dele desaparecia quanto mais ele subia para, finalmente, ver um teto. Kratos se admirou com o que pareciam ser raízes penduradas. Ao se aproximar, ele viu que realmente eram raízes de plantas vivas do mundo acima. O mundo dos vivos acima!
Kratos escalou mais rápido e seguiu a corda através de um buraco que bloqueava todos os sentidos. Seus ombros roçaram a terra e, em seguida, o orifício estreitou ainda mais, mas mantinha a corda esticada acima dele. Ascendendo mais devagar, ele sentiu-se esmagado e sufocado, e ele conhecia o cheiro em suas narinas e o gosto em sua boca. Lodo. Lama. Terra. Ele cuspiu a boca cheia de pedregulhos e selou os lábios. Com um esforço maior do que ele já tinha acreditado que poderia invocar, Kratos forçou as mãos e depois os braços a moverem-se. Ele pressionou seus membros para cima, usando a sua grande força para enviar a asfixiante terra para longe dele, abrindo um pouco mais de espaço para trabalhar. Ele começou a mover as pernas também, lutando para dobrar os joelhos ou ampliar sua posição. Seu coração batia, e seus pulmões clamavam por ar... Ele pensou consigo mesmo repetidamente: sombras não precisam respirar.
Sem parar para se maravilhar com esse milagre ou refletir sobre a sua fonte, Kratos arranhou seu caminho para cima, rosnando e ofegando e forçando seus membros enfraquecidos a se moverem, a subirem, para rasgar a terra acima dele e irromper para a luz e ar. Somente quando o seu coração palpitante pareceu estar sufocando-o para a morte, sua mão violou o último amontoado de terra para o mundo dos vivos. O ar fresco soprou em seu rosto. Sua fadiga desapareceu. Furiosamente, ele combateu a aprisionadora terra até que pudesse ver uma noite encoberta por nuvens vermelho-sangue brilhando e refletindo a luz dos incêndios abaixo. – Atenas. – Ele resmungou. – Estou em Atenas... Ele se ergueu da boca do buraco que ele cavou e descobriu que ainda havia cerca de sete palmos acima dele. Ele estava em uma cova aberta. 6 Na mitologia grega, o rei Tândalo roubou os manjares dos deuses e serviu a eles a carne do seu próprio filho. Ele foi condenado a viver em um vale rico de vegetação e lagos no Tártaro, mas não podia saciar sua fome ou sede. A água escoava perto dele, e os galhos retiravam as frutas de seu alcance.


CRONICAS 61 : GOD OF WAR

Vinte e sete
OS pés de Kratos continuavam escorregadios. Ele se aproximou da Caixa de Pandora, firmou-se e empurrou com mais força. A arca monstruosa movia-se lentamente. Pesando uma quantidade imponderável, a Caixa era difícil de deslizar até mesmo no chão lustroso da antecâmara. Os terremotos o levaram a perder a pouca tração que ele tinha encontrado em suas sandálias. Mesmo quando ele finalmente empurrou a Caixa através das portas titânicas, mais de construção caiu e quebrou em torno dele. Com a Caixa na porta, Kratos parou para reunir a sua força para um último empurrão e encontrou-se olhando para a beleza do céu do deserto: celeste vivo, sombreando na direção do índigo a oeste, repleto de nuvens que assumiam formas curiosas que resfriavam a sua alma. Mas havia mais do que nuvens acima. Quatro pontos flutuavam alto no céu, entrando e saindo de nuvens leves só para reaparecerem como escuros, quase invisíveis, pontos de perigo aproximando-se. Harpias! Sua atenção voltou-se para a Caixa de Pandora. Ele não tinha ideia de como a desceria das costas de Cronos, muito menos como a arrastaria pelo Deserto de Almas Perdidas. Ele estendeu a mão e agarrou a tampa. Independentemente do quanto ele puxava, ela se recusava a ceder. Levar a arca inteira de volta a Atenas seria mais fácil se ele possuísse o poder que estava trancado dentro dela. Embora talvez não lhe concedesse a capacidade de mover essa Caixa, ele imaginava que poderia tornar a tarefa mais fácil. Ele tentou deslizar a tampa, levantá-la, balançá-la para o lado, mas a força que bloqueava a arca era mais do que podia superar. Talvez ela só pudesse ser aberta depois que ele a levasse para Atenas, ou a Caixa tinha de ser colocada no templo de Atena, onde seu Oráculo poderia usá-la para conceder-lhe o poder. Kratos desejou saber mais, mas ele não tinha tempo a perder com especulação. Ele voltou a empurrar. Sair do templo de Pandora tinha que ser o seu primeiro objetivo. Quando finalmente ele empurrou a caixa totalmente para fora, as portas maciças do templo fecharam-se com um estrondo atrás dele. Ele parou para recuperar o fôlego e escolher um caminho. E olhou para o céu e para as harpias que voavam para baixo. Uma dessas nuvens baixas de repente desenvolveu um grande buraco no meio, como se Zeus tivesse enfiado o dedo através dela. A ondulação expandiuse a partir do furo, como as ondulações de uma pedra atirada em um lago de águas paradas. A carranca de Kratos se aprofundou. Com um instante de um relampejar branco, seu peito foi atingido por um martelo invisível, manejado por um Titã invisível. Nada em todas as suas décadas de batalha o tinha atingido tão duramente. O impacto dinamitou-o para
trás e impulsionou-o a voar para o grande portão de pedra do Templo de Pandora. Fixado à porta de pedra, piscando os olhos em sua incompreensão para com a imensa coluna de mármore branca saindo de seu peito, Kratos lutou para respirar. A lança de mármore tinha atingido-o tão rápido, que ele não a tinha notado até que já estivesse estocada. Ele olhou para baixo e soube que tinha apenas alguns segundos de vida restantes em seu corpo progressivamente moribundo. Ele não podia falar, pois seus pulmões foram perfurados a partir de seu peito, atravessando o seu coração e estômago, fígado e baço. Fracamente, ele arranhou a coluna. Ele sabia que as últimas gotas de sangue em seu cérebro lhe davam consciência nesses segundos finais... E, mesmo na morte, os pesadelos não iriam deixá-lo. Ele mais uma vez viu a sua carreira, sua vida como homem e como arma nas mãos do Deus da Guerra. Ele viu suas incontáveis vitórias, assassinatos além de qualquer imaginação; mas dois assassinatos não precisavam ser imaginados. Ele se lembrava deles. Ele os via todas as noites em seus sonhos. Ele viu a antiga e encarquilhada vidente da aldeia e ouviu de novo as suas palavras: – Cuidado com as blasfêmias contra a deusa, Kratos! Não entre neste lugar!
Se ao menos ele tivesse tido a sabedoria de prestar atenção às suas palavras... E o massacre no templo da aldeia, repetido em sua mente mais uma vez, como tinha acontecido todas as noites por dez longos anos: o assassinato dos sacerdotes, o massacre dos adoradores de Atena amontoados no tempo, e, em seguida, os dois últimos: uma mulher e uma menina, apenas silhuetas contra os incêndios que ele criou para queimar o templo e todos os edifícios na aldeia... essas duas últimas silhuetas, que não caíram de joelhos, não tentaram fugir, não pediram ou imploraram por sua vidas... Kratos novamente sentiu as suas lâminas queimarem através de suas carnes, e ele soube quando suas almas fugiram, enviadas ao Hades como ele tinha feito com muitas outras. Ele tinha assassinado muitos por muito tempo para não ser um soldado eficiente. Eficiente demais. As duas últimas vítimas não caíram de joelhos, não tentaram fugir, não pediram ou imploraram por suas vidas porque a esposa e a filha de Kratos não podiam acreditar que seu esposo e pai iria machucá-las.
Kratos novamente sentiu-se cair de joelhos, e então foi ele que implorou, que suplicou, que desejou escapar do que encontrou lá. Mais uma vez ele foi assombrado pela visão de sua amada esposa e sua filha preciosa, deitadas em piscinas de seu próprio sangue, abatidas como cordeiros por sua própria mão. – Minha esposa... minha filha... como? – Uma fatal e final questão, que ele não perguntou a ninguém, porque era a única criatura viva do templo em chamas. As palavras o sufocaram. – Elas tinham sido deixadas em segurança em Esparta...
As chamas do templo lhe responderam na voz de seu mestre. – Você está se tornando tudo o que eu esperava que seria, Kratos. Agora, com a sua esposa e filha mortas, nada vai impedi-lo. Você vai se tornar ainda mais forte. Você vai se tornar a PRÓPRIA MORTE!
Naquela noite, Kratos percebeu que seu verdadeiro inimigo era o deus que ele tinha servido tão fielmente. Sobre os corpos frios das únicas duas pessoas na terra que ele amou, Kratos fez um terrível juramento. Ele não descansaria até que o Deus da Guerra fosse destruído. A bruxa velha do vilarejo, o Oráculo de Atena dessa pequena vila, veio a ele enquanto ele observava a pira na qual ardiam os corpos de sua amada esposa e sua preciosa filha. Por apenas um momento, senil cacarejar havia se transformado em palavras claras e fortes, emitindo voz dos próprios deuses. – A partir desta noite, a marca de seu ato terrível será visível a todos. As cinzas de sua esposa e filha permanecerão presas a sua pele, para nunca mais serem removidas.
Na medida em que as cinzas levantavam de seu lugar de descanso e pintavam-se sobre sua pele para sempre, Kratos conseguiu apenas ficar de pé, engolir sua dor e aceitar o castigo que os deuses haviam proferiam sobre ele. Com essa maldição, todos iriam conhecê-lo como a besta que ele se havia se tornado. Sua pele esbranqueceu com as cinzas de sua família morta, o Fantasma de Esparta nasceu. Mas Kratos nunca tinha sonhado que chegaria tão perto, ele não teria sonhado que iria morrer no Deserto de Almas Perdidas, que a Caixa de Pandora seria a última visão que seus olhos fracos jamais vislumbrariam... Enquanto a escuridão da morte cerrava a sua visão, as quatro harpias bateram as asas abaixo do céu, seguraram a arca em suas garras, e levantaram
voo novamente. Oeste. Na direção de Atenas. Sabendo que havia falhado completamente, ele não pôde mais segurar a vida. Com um último estremecer convulsivo, Kratos morreu. Mas para o Fantasma de Esparta, até mesmo a morte não era o fim.



CRÔNICAS 60 : GOD OF WAR

Vinte e seis

Você escolheu bem, minha filha – disse Zeus, enquanto juntos eles assistiram a piscina de vidência exibir a descida lenta do trono de pilar do Arquiteto. – Ares escolheu, eu refinei. – Atena disse, recusando-se a tirar os olhos da imagem de Kratos até o espartano e a Caixa de Pandora atingirem o nível de entrada do templo. – Meu irmão não entendeu o que tinha em Kratos. – E assim ele embotou sua melhor arma. – Uma arma que é mais mortal agora do que Ares jamais poderia ter forjado. – Atena disse. Eles assistiram o progresso do mortal enquanto ele olhou ao redor do templo no topo da montanha atrás de Atenas. – Uma pergunta, meu senhor. É esse o resultado de seu plano?
Ele se virou para ela, para apontar. – Pai... – ela repetiu, mas o Rei do Olimpo simplesmente apontou para a piscina de vidência, onde o trono ainda descia em seu ritmo constante através dos incontáveis pisos do templo. – Seu espartano está quase chegando na antecâmara do templo – ele disse. – Existe alguma coisa que você queira dizer a ele antes que ele saia? – Por que você pergunta? – Uma vez que ele trouxer a caixa para fora do templo, os eventos podem começar a se desdobrar rapidamente. Atena viu que o pilar descendente já tinha atingido a antecâmara, estendendo-se para baixo através do teto, até que ele progrediu para o andar de baixo e continuou a afundar. Os terremotos desencadeados por essa ação começaram a fazer tremer todo o templo, assim como as montanhas acima e abaixo dele. Pedaços de alvenaria explodiam das tensões mecânicas e pedregulhos começaram a chover sobre a cabeça de Cronos. Atena saiu do Olimpo para a antecâmara do Templo de Pandora, onde chegou com a velocidade de um pensamento, esperando invisível, o trono de pilar aterrissar e revelar Kratos e a Caixa de Pandora. O espartano pareceu surpreendentemente pensativo quando ele entrou, empurrando a arca pelas imensas portas, que levavam ao exterior do templo. Ao seu toque, um borrifo grande de energia crepitante eclodiu das pedras gigantes.
Atena reuniu as luzes que chamuscavam moldando o formato de seu rosto. – Kratos, sua demanda está próxima do fim. Você é o primeiro mortal a chegar à Caixa de Pandora. Ainda há tempo para salvar Atenas. Você deve trazer a Caixa de volta para minha cidade e usá-la para matar Ares.
Kratos levantou os olhos para encontrar os dela, e ela notou como encontrar os desafios necessários para atingir a Caixa de Pandora o tinha modificado. Sua sede de sangue tinha sido temperada com ponderação. Misericórdia estava além do seu limite, mas ele havia sido forjado em uma arma mais potente, uma que surpreenderia a Ares. – Retorne a Atenas, Kratos – disse ela. – Retorne e salve a minha cidade.
Quando ela retornou ao Olimpo, ouviu os grunhidos de Kratos quando ele começou a empurrar a arca pesada. Ela rematerializou-se diante do trono de Zeus. Zeus, para sua surpresa, ainda estava lá, ainda observando a piscina de vidência. – Ele está abrindo as portas. Veja – disse ele. – Aí vem. – Pai, eu preciso transportar Kratos e a Caixa de Pandora para... – Não se preocupe com isso. – Mas, Pai, até mesmo descer a Caixa das costas de Cronos... – Eu disse – Zeus retrucou. – Não se preocupe com isso.
– A cada segundo que passa, mais da minha cidade queima! Zeus fez um gesto na direção das imagens no espelho d’água. – Veja. Enquanto Kratos empurrava a Caixa de Pandora para fora do templo e para o sol da manhã do Deserto das Almas Perdidas, pela primeira vez em mil anos... Zeus fez um gesto, e a cena na piscina mudou. Atenas estava em chamas. Ares caminhava pelas ruas, pisando em atenienses que fugiam, rindo quando sua espada cortava todo os bairros em ruínas e golpes de martelo achatavam as casas. Sua risada maléfica ecoava das montanhas para o porto.
Quando o Deus da Guerra levantou o punho para quebrar outro prédio, ele fez uma pausa, punho erguido, e virou-se para o leste como se uma mão invisível tivesse batido-lhe no ombro. – Então, pequeno espartano, você recuperou a preciosa Caixa de Zeus.
As chamas do cabelo de Ares brilharam como o sol. Seus olhos ardiam com uma fúria que não podia ser contida, e todo o seu corpo tremia enquanto a raiva alimentava seus músculos. – Você não vai viver para vê-la aberta!
Ares se abaixou para arrancar uma das grandes colunas de mármore do Pártenon. O deus levantou-a como se a ela não fosse mais que uma lança de brinquedo, mas uma com uma mortal ponta irregular. Ele correu para pegar impulso e atirou seu dardo prodigioso, que riscou o céu acima tão rápido que desapareceu como um trovão. Ares voltou para sua tarefa de destruição com um sorriso no rosto. Ele não se preocupou em assistir a sua arma atingir ao alvo. – Adeus, espartano. Você vai apodrecer nas profundezas do Hades por toda a eternidade.
Sua risada ribombou sobre as ruínas de Atenas como o chifre maldito do próprio Hades. – Pai, pare-o! – Atena – Zeus a interrompeu bruscamente –, seus planos estão no fim. Há apenas mais uma coisa para você fazer até isso tudo acabar. Atena abaixou a cabeça, preocupando-se com o destino de Kratos e de sua cidade. – E o que seria, Pai? – Assista.


CRÔNICAS 59 : GOD OF WAR

Vinte e cinco

Quando o amanhecer acariciou o deserto oriental com seus dedos avermelhados, Kratos estava no telhado de um prédio enorme, em cima de uma montanha que se erguia a partir do centro do Templo de Pandora, ele próprio construído sobre a montanha acorrentada às costas do Titã laborioso, que a suportava em seu rastejar eterno através do Deserto das Almas Perdidas. Com o primeiro raiar da Carruagem de Hélios no horizonte distante, três figuras enormes brilharam e cintilaram em torno dele: estátuas, de centenas de metros de altura, dos Reis Irmãos. Zeus, Poseidon e Hades estavam de frente um para o outro, e as mãos dos três estavam estendidas para suportar um disco do tamanho de um campo de batalha, com um buraco no meio, como uma roda de carroça, feita do mesmo material que as estátuas. Esse material, alguma substância mística mais transparente que o vidro, refletia o resplendor e os pontos mais luminosos das curvas das estátuas. Abaixo de onde a carruagem de ouro ainda iria tocar, os Reis Irmãos estavam totalmente invisíveis. Kratos correu em direção a eles. Atena tinha dito que a Caixa descansava na cúpula do templo, e, obviamente, nada seria maior do que eles. Mas quando chegou, suas bases sobre o telhado banhado pelas sombras do amanhecer não eram apenas visíveis, eram insubstanciais, como se as estátuas não existissem, exceto à luz da aurora. Kratos fez uma careta para cima, em direção às imagens dos deuses. Sua oportunidade para alcançar o tesouro que eles apoiavam duraria tanto quanto o alvorecer em si. Zeus ficava a leste, e, assim, mais de sua estátua estava exposta à luz do amanhecer. Kratos aproximou-se da figura do Rei do Olimpo e pulou alto para ver se ele poderia tocar na ponte da estátua onde o amanhecer batia. No topo de seu salto, ele sentiu uma superfície quente e sólida, mas mais escorregadia do que vidro oleado. Ele sacou uma das lâminas e saltou novamente para atingir a estátua. O único efeito que sua espada produziu foi fazer a enorme estátua soar como um sino grande de cristal. Nada além de um arranhão manchou a superfície quase invisível. Mas, em vez de diminuir gradualmente como o toque de um sino, o som aprofundou-se e ampliou-se, ficando cada vez mais alto, até que Kratos teve que colocar as palmas das mãos sobre os ouvidos para protegê-los da dor crescente. A estátua de Poseidon era a mais próxima da borda leste do telhado. Kratos correu em sua direção, preparando-se para a explosão de som que ele sabia que ouviria quando tirasse as mãos de seus ouvidos, em seguida, saltou para a luz do amanhecer e bateu em Poseidon, também, com um poderoso golpe das Lâminas do Caos.
O soar gerado foi mais profundo, mais ressonante, e cresceu em poder mais rapidamente do que o som que Zeus tinha emanado. Mais distante da ascensão do amanhecer, apropriadamente, pensou Kratos, estava Hades, o Rei do Submundo. E a nota provocada pelo golpe de Kratos foi mais sombria e ainda mais profunda. O volume de seus acordes juntos elevou-se até parecer a Kratos que não havia nada no mundo, exceto o som. As mãos sobre os ouvidos não faziam mais nenhuma diferença. Ele cambaleou no ponto central entre as três estátuas e caiu de joelhos. Quando o nascer do sol finalmente atingiu o local onde ele estava agachado, o que tinha sido pedra inexpressiva tornou-se uma janela magicamente transparente. Logo abaixo dele, ele viu a câmara do Arquiteto, com seu trono, em que a figura blindada sentava-se, como se estivesse alheia à explosão sônica cósmica que vinha de cima. O disco parecia ser do mesmo tipo de substância que as estátuas, ele não podia arranhá-lo mesmo com seus melhores esforços. Mas agora que ele pensou sobre isso, lembrou-se do conto do grande gongo de latão de Rodes; dizia a lenda que ele soava tão poderosamente que despedaçava vidros a cinco quilômetros de distância, ou mais. Já que parecia que o ruído faria o mesmo com seu crânio, Kratos decidiu que não haveria mal em tentar. Ele estendeu a mão para o disco transparente e bateu nele duramente, com os nós dos dedos. O disco quebrou imediatamente com agudos ruídos, espalhando cacos tão pequenos que se tornaram partículas de pó dançantes. O terrível som caiu em silêncio instantâneo. Kratos caiu pelo buraco como uma pedra em um poço. Um puxão convulsivo de seu corpo o torceu o suficiente no ar para que ele pudesse cair em pé sobre o trono do Arquiteto com um pé em cada braço. O trono começou a girar, liberando muitos ruídos e o tinir das engrenagens. Kratos saltou dos braços para o estrado em que o trono descansava. A rotação parou. – Então, Arquiteto – Kratos disse. – Você previu a minha morte, mas aqui eu estou. O capacete do coríntio virou o suficiente para que Kratos pudesse ver um fogo verde e frio através das fendas dos olhos. – Nenhum homem jamais sobreviveu à Arena da Memória.
– Até agora. – Mas a Caixa de Pandora nunca será sua.
O Arquiteto levantou um dedo blindado, e a tampa da caixa em seu colo se abriu. Kratos apreendeu o pulso do Arquiteto em um aperto do qual nenhum
mortal consegueria se livrar. A armadura era surpreendente quente. – Chega de truques – Kratos disse. – Diga-me como chegar à Caixa, e eu o deixarei viver. – Você não irá, porque não estou vivo.
Kratos apertou o pulso do Arquiteto até que a armadura cedeu sob seus dedos. – Você está vivo o suficiente para falar, então está vivo o suficiente para sofrer. – Faça como queira.
Kratos rosnou e cerrou o punho. A armadura enrugou como uma folha seca, mas de seu aperto esmagador, nenhum sangue fluiu, somente vapor, quente o suficiente para queimar a mão de Kratos. Com uma maldição, Kratos arrancou o braço e atirou-o no ombro. Da articulação cortada, assobiou outra explosão de vapor, que desapareceu quando uma placa de metal dentro da armadura deslizou para fechar o furo. Kratos franziu a testa ao olhar dentro da armadura vazia, sem carne ou osso, contendo tubos de latão apenas e engrenagens de esboço desconhecido. – Que tipo de criatura é você? – Eu sou – disse a voz, que Kratos agora notou vir de debaixo do estrado em vez do capacete – o que resta do Arquiteto. Eu sou a sua invenção final.
Os olhos de Kratos se arregalaram. – A Anticítera... – Eu controlo o templo. Eu sou o guardião do seu último desafio. Olhe dentro da caixa em meu colo.
Kratos se aproximou e espreitou dentro do dispositivo preenchido com uma multidão de pequenas hastes fixadas sucessivamente e amontoadas. Agulhas, Kratos percebeu. Aqui e ali, algumas dessas agulhas eram rebaixadas a uma ou outra altura, as depressões tinham exatamente o diâmetro dos dedos das luvas blindadas vazias que estavam nas mãos de Kratos. Ele supôs que suas alturas e configurações controlavam de alguma forma os vários mecanismos em todo o templo. Havia também agulhas pregadas horizontalmente em todas as quatro paredes. – Pressione-as. Em qualquer lugar.
Kratos ponderou. Poderia facilmente haver algo a mais na caixa do que apenas agulhas, e elas estavam descoloridas nas pontas. Veneno? Que tipo de veneno ainda poderia matar depois de mil anos? Somente uma pessoa saberia a resposta para essa pergunta: o Arquiteto. Em vez de usar o próprio dedo, Kratos utilizou o dedo blindado das luvas que ele segurava. Imediatamente, as agulhas horizontais saltaram das paredes e apunhalaram o dedo da luva. Depois de bater no bronze, as agulhas retornaram aos seus lugares. – Se você tivesse pressionado com o seu próprio dedo, a sua mão teria sido presa pelas agulhas, e você estaria morrendo, em uma dor tremenda, por conta do sangue da Hidra de Lerna, que tinge cada ponta.
– Então? Eu devo adivinhar o formato que irá revelar a Caixa de Pandora? – Não – o arquiteto, ou melhor, a Anticítera respondeu. – Eu lhe direi: é do formato do rosto de um homem, prensado dentro das agulhas.
Kratos pensou nas muitas estátuas e relevos em todo o templo, certamente ele encontraria a cabeça de um homem de estátua... – O rosto deve ser de carne. As agulhas devem se fincar totalmente e permanecer no local – a voz sem emoção, disse. – Para chegar à Caixa de Pandora, um homem deve morrer.
Kratos pensou no homem na gaiola; por um breve momento, ele se arrependeu de ter matado o velho idiota. – E essa é a sua única chance. Essa configuração das agulhas irá funcionar por um curto período depois de a janela acima ter sido abalada. Uma vez que a Carruagem de Hélios dominar os céus, as estátuas, e as caixas nos discos que elas carregam, desaparecerão à luz do meio-dia. Só você chegou até aqui. Ninguém que o seguir terá qualquer chance.
Kratos assentiu. Ele apreciava a complexidade elegante dessa armadilha final. Ele disse: – Mas você, isto é, o Arquiteto, o seu criador, sempre deixou uma forma de vencer. – Até agora.
Kratos apertou os olhos sobre o disco suportado pelas mãos dos Reis Irmãos, muito acima, ao sol brilhante. Ele agora via uma mancha sobre ele, e seu
coração se encheu de raiva. Ele não tinha chegado tão longe para ser negado. Aqui, onde ele podia ver a Caixa, não se permitiria falhar.
– Atena me contou que não há nenhuma maneira de sair deste templo sem a Caixa de Pandora – disse ele. – Então, eu vou morrer aqui, em sucesso, ou morrer mais tarde pelo meu fracasso. – Você está prestes a morrer.
– Já que eu estou prestes a morrer, não há mais necessidade de segredos, não é? – Kratos disse. – Diga-me por que este templo foi projetado dessa forma, diga-me por que cada armadilha, labirinto e quebra-cabeça tem uma solução? Por que projetar defesas fantásticas ao redor da mais poderosa arma da criação, mas deliberadamente projetar cada uma delas com a possibilidade de serem superadas? – Porque Zeus ordenou que fosse assim. – Zeus? – Kratos franziu a testa. – Mas por quê? – Eu sou um servo fiel dos deuses. Eu não questiono. Eu obedeço. A lógica era óbvia: Zeus ordenou que todos os quebra-cabeças tivessem uma resposta; cada armadilha, uma fuga, e o arquiteto foi fanaticamente leal. O que só podia significar que esse último quebra-cabeça mortal não seria diferente dos outros. O Arquiteto tinha colocado seus filhos em caixões. A pedido de Zeus? Suas cabeças provaram ser a chave para entrada por desafios progressivamente perigosos. Por duas vezes isso tinha acontecido. Duas vezes. Será que o Arquiteto faria mau uso de suas crianças? A menos que... – Uma última pergunta. – Seu tempo está se esgotando. – Eu sei – Kratos disse, pensando – O seu também.
– A minha pergunta final: como um dispositivo simples, um mecanismo movido a vapor, não importa o quão inteligentemente projetado, pode compreender e responder a tudo o que eu digo? Sem esperar por uma resposta, Kratos lançou-se para a traseira do trono com a agilidade de uma pantera e apreendeu com as duas mãos o capacete do corinto que repousava sobre os ombros blindados. Ele parecia estar mais firmemente ancorado do que o braço. Kratos teve de torcê-lo ferozmente e puxá-lo para cima com toda a sua força para arrancá-lo dos ombros. Em
seguida, ele colocou o capacete debaixo do braço e procurou dentro com a outra mão, pegando o que encontrou como se fosse um caracol em uma concha. Era uma cabeça humana. O cabelo que uma vez a tinha adornado séculos atrás havia se desfeito em pó, mas essa cabeça claramente ainda tinha um sopro de vida. Lágrimas jorraram de seus olhos, sua boca se moveu em silêncio, e a voz vinda do estrado finalmente exibiu alguma emoção. Terror. – Pare! O que você está fazendo! Você não pode!
– Eu posso. Kratos pensou que realmente deveria contar ao morto-vivo ancião que supervisionava os fogos na frente do templo, que ele estava certo o tempo todo e que o Arquiteto insano do Templo de Pandora ainda vivia, assombrando sua obra-prima milenar. Em suas mãos estava a chave para a fechadura final. Kratos não viu nenhuma razão para hesitar. – Não! Não, não, não! POR FAVOR!
Kratos comprimiu a cabeça imortal do Arquiteto dentro da caixa. A voz musical de órgão vinda do estrado gritou em pânico e desespero, enquanto as agulhas envenenadas esfaqueavam a cabeça a partir de todas as quatro paredes da caixa e de cima abaixo. Elas se alojaram em seu rosto, em seu pescoço, atravessaram as têmporas e furaram seus olhos em uma ebulição de lancetas poderosas. Com os lábios imobilizados aos seus dentes, até mesmo a voz artificial do Arquiteto só podia gemer e choramingar sem palavras. As paredes da câmara roncaram quando despertaram para abaixarem-se em torno de Kratos. Um instante depois, ele percebeu que o estrado do trono onde estava se levantou, tornando-se um pilar de pedra que subiu continuamente, até caber perfeitamente através do buraco deixado no teto pela janela quebrada. Depois disso, elevou-se ainda mais e mais, levantando Kratos e o trono a centenas de metros no ar, até finalmente empurrá-lo através do orifício no centro do enorme disco... e parou. Kratos ficou parado por um momento, sentindo os olhos dos Reis Irmãos sobre ele. Apenas a um passo ou dois à frente dele estava uma arca, tão alta quanto Kratos e três vezes a sua largura, construída com um metal impossivelmente brilhante que cercava-se de joias de ouro maiores que a sua cabeça. E então: lá estava ela. A Caixa de Pandora.
Finalmente. Mas Kratos não sentiu alívio, nem triunfo, porque isso não era o fim de sua jornada. Era apenas mais um ponto ao longo do caminho. O final dessa história estaria em Atenas. Ele olhou para cima e viu que a parte acima da sobrancelha da estátua de Zeus havia desaparecido, desmaterializando-se com o raiar do sol. Enquanto observava, as nuvens cirros das sobrancelhas de Zeus se evaporaram. Assim como o topo da cabeça de Poseidon. Kratos pulou do trono, correu pela extensão do disco transparente até a caixa enorme, e descobriu um novo problema quando tentou parar: ele não podia. Ele escorregou para a direita da Caixa com um impacto de tirar o fôlego, o que também empurrou a arca poucos passos mais longe do trono de pilar. A substância misteriosa era ainda mais escorregadia que vidro com óleo. Kratos olhou em volta em desespero enquanto cuidadosamente circulava o outro lado da caixa. As labaredas presas aos lados chamejaram. As joias de ouro que incrustavam o topo pulsaram com energia. Mas nada disso ajudou. Ele nunca teria apoio suficiente nessa superfície para empurrar ou puxar algo tão grande. Se ele tivesse algo para jogar, talvez pudesse golpeá-la em seu caminho... mas o que ele poderia jogar que teria peso suficiente para mover a arca? Ocorreu-lhe, então, que a localização da caixa no disco não teria sido um acidente, estava quase a meio caminho da borda. E descansava exatamente na linha entre o trono de pilar e a estátua de Zeus, como se esse teste final fosse concebido especificamente para ele. Olhando para a estátua do Pai dos Céus em desaparecimento, Kratos percebeu que o próprio Zeus lhe tinha dado o único caminho possível para mover o peso enorme sobre essa superfície incrivelmente escorregadia em tão pouco tempo. Ele deu alguns passos cuidadosos em direção à estátua e inclinou sua cabeça. – Senhor Zeus. Você previu este momento? É por isso que você me concedeu uma fração do seu poder? Sem resposta vindoura, Kratos rolou e alcançou por cima do ombro direito para agarrar o relâmpago sólido. Ele assumiu uma postura mais ampla para se equilibrar e jogou o raio no disco, um pouco abaixo da Caixa. A impressionante detonação teve exatamente o efeito que Kratos esperava: a Caixa deslizou alguns metros em direção ao trono de pilar. Mais seis raios empurraram-na para a beira do pilar em si. Kratos se dirigiu para a base mais firme do pilar e pôs o seu pé contra a parte de trás do trono do Arquiteto.
– Já que você ama tanto os deuses – Kratos disse enquanto chutava o trono para fora do pilar e enviava-o girando em direção à estátua de Hades. – Fique com eles para sempre. Ele se virou, pegou um pedaço protuberante de metal da arca, e arrastou o recipiente que seria a destruição de Ares para o pilar, que imediatamente começou a descer. Na longa viagem em queda, Kratos só podia olhar para a Caixa, pensativo. Ele tinha sido informado de que essa coisa era uma arma, a única arma que permitiria que um mortal matasse um deus. Ainda assim, Zeus tinha ordenado ao Arquiteto que projetasse o templo para que um mortal pudesse ter sucesso e pudesse reivindicar o poder da arca. Ele lembrou-se das palavras de Atena: Zeus proibiu os deuses de guerrearem uns contra os outros. Tal decreto devia ser compulsório, mesmo sobre o próprio Zeus. Será que Zeus ordenou que um único caminho tivesse que ser deixado em aberto, porque, mesmo mil anos atrás, ele havia previsto que um dia um deus deveria ser morto?