sábado, 19 de maio de 2018

CRÔNICAS 47 : GOD OF WAR

Doze

Massacrar os asseclas de Ares ao sair da pousada provou ser mais divertido do que Kratos havia imaginado. Quando Zeus deu-lhe o poder do relâmpago, aparentemente, ele também recarregou o seu reservatório mágico geral; a Cólera de Poseidon estalava mais mortal do que nunca, e o Olhar da Medusa transformava dúzias e dúzias de monstros em pedra, e o Relâmpago de Zeus despedaçava uma multidão de monstros petrificados de uma forma muito satisfatória. O melhor de tudo, a inundação de magia poderosa que saía da palma de sua mão quando ele usava o raio curava as suas feridas. Alongar-se e girar não causava o menor desconforto nas suas costas, onde o toque do fogo de Ares o havia ferido tão dolorosamente. Depois de alguns arremessos do raio, os asseclas de Ares fugiram, dando a Kratos a chance de se banhar em uma fonte e limpar um pouco do sangue do ciclope de seu corpo. Quando ele terminou suas abluções, teve certeza de que poderia triunfar sobre o pior que Ares tinha para oferecer. Kratos encontrou uma sequência que era particularmente eficaz: ele saltava no meio de uma multidão de monstros e usava a Cólera de Poseidon, em seguida, sacava a cabeça da Górgona e transformava todos em pedra, porque estariam muito atordoados com a Cólera de Poseidon para evitar seus olhos de serpente. Então Kratos se movia no meio de outro pelotão de legionários mortos-vivos, disparava um raio para o local de onde viera e, enquanto os monstros petrificados choviam em pedaços, mais uma vez disparava a Cólera de Poseidon contra a carne fresca em torno dele. Ele se tornou perito o suficiente em empunhar o Olhar da Medusa, de modo que podia petrificar harpias em seu mergulho de ataque enquanto passavam, transformando-as no equivalente a pedras afiadas de catapultas que poderiam cortar uma meia dúzia de mortos-vivos com um só golpe. E descobriu que a armadura de bronze dos legionários mortos-vivos tinha uma propriedade interessante quando fulminadas com o Relâmpago de Zeus: se outro morto-vivo com uma vestimenta semelhante estivesse perto o suficiente, o raio iria arquear de monstro a monstro, detonando-os em uma sucessão rápida, como castanhas atiradas em uma fogueira. Kratos ficou apreciando sua obra quando o estalido de cascos contra os paralelepípedos alertou-o para a aproximação dos centauros. Ele virou-se, pensando que iria enfrentar apenas um. Um rebanho de criaturas metade cavalo, metade homem trotou na praça e rapidamente investiu contra ele. De alguma forma, um deles havia conseguido avançar pela retaguarda quando a sua atenção era desviada pela manada principal. Poderosas mãos levantaram-no do chão e seguraram-no alto. Ele olhou para o céu e se esforçou para sacar uma arma, qualquer arma. Em um instante, Kratos percebeu que era
incapaz de lutar desse modo. Ele jogou os pés para o alto e rolou para trás, libertando-se do aperto do centauro. O homem-cavalo gritou de raiva quando Kratos aterrizou no traseiro da criatura, as pernas pendendo de ambos os lados do corpo equino. – Você é aquele que o Senhor Ares procura! O centauro virou meio corpo e tentou descarregar um punho ao lado da cabeça de Kratos. O espartano esquivou facilmente, encolheu os ombros e produziu um laço com a corrente fundida com o osso do seu antebraço. Ele não sacou as Lâminas do Caos, mas estalou a corrente, segurando o punho na carne do bicho como um garrote de ferro. Kratos balançou para trás, sufocando o centauro. A criatura tentou, em vão, soltar a corrente enrolada em sua garganta. Ele debateu-se em suas ancas e retaguarda, na esperança de lançar Kratos para fora. O Fantasma de Esparta agarrou-se à corrente como se ela fosse freio e rédea, em vez de uma arma de estrangulamento. Ele moveu-se para frente, aproximou-se da parte humana do monstro e chutou forte, para que seus calcanhares batessem contra a barriga do centauro. À medida que a criatura galopava para a frente, Kratos guiava-a para onde estavam os outros do rebanho que ele desejava. No último instante possível, ele liberou a corrente e levantou sua mão direita. A marca de estrela queimou furiosamente e liberou o Relâmpago de Zeus. Kratos não mirava para os corpos dos centauros, mas para o chão onde eles estavam. O solo repentinamente se fundiu sob os seus cascos, o que os fez colidirem uns com os outros. Não satisfeito, Kratos soltou outro raio, dessa vez dirigido às suas ferraduras. Tal como acontecia com as armaduras de bronze usadas pelos legionários mortos-vivos, as ferraduras metálicas faiscaram e inflamaram, queimando até que nenhum centauro do rebanho tivesse um total de quatro pernas. Vários haviam perdido todas as quatro patas; nenhum era capaz de lutar. Kratos apeou-se do centauro que montava, mas, antes que pudesse empunhar as Lâminas do Caos para matá-lo, a criatura fugiu, deixando para trás apenas um lamento estridente de absoluto medo. Kratos percebeu que, mesmo que apreciasse o poder resoluto do presente de Zeus, ele tinha de seguir em frente para encontrar o Oráculo. Ele perdeu a conta de quantos monstros já havia destruído; quando, finalmente, não restava mais nenhum para incomodá-lo, a estrada estava pavimentada com três fileiras de profundidade, cheias de cadáveres em todas as direções. Ele não se preocupou em contar. Apesar da garantia de Zeus, ele sentia que o tempo estava se esgotando. Kratos correu pela pista íngreme, caminhando em passos largos.
Enquanto corria, sua mente se lançava para o futuro, considerando diferentes cursos de ação, mas, acima de tudo, sua mente sempre voltava para o Oráculo e seu misterioso segredo de como um mortal poderia matar um deus. Ele estava tão absorto em seus pensamentos que, ao fazer uma curva, deu de cara com um legionário morto-vivo. Eles colidiram, Kratos foi para trás e o guerreiro esqueleto de armadura caiu no solo. O barulho de seus ossos contra a sua espada e escudo ao cair ecoou pela Acrópole. Kratos se recuperou mais rapidamente do que o guerreiro esqueleto, sacou as Lâminas do Caos e retalhou o crânio do morto-vivo. Kratos riu. Ninguém oferecia resistência ao Fantasma de Esparta. E quando viu uma dúzia de legionários descendo o caminho para investigar o ruído, ele riu ainda mais. Esses legionários mortos-vivos estavam bem protegidos com armaduras e impressionantemente bem armados. Órbitas oculares ocas, perturbadoramente maléficas, o encaravam como brasas em uma sala escura, através de capacetes de bronze decorados com penas negras. Eles carregavam escudos cravejados com pregos de metal. Uns poucos brandiam foices, mas a maioria estava armada com espadas, e eles marchavam em uma formação apertada, disciplinada, com mais soldados apinhados às suas costas. E um raio único fê-los em pedaços. A explosão voraz irradiou, ziguezagueando em seu caminho como um raio do Monte Olimpo. O trio principal de legionários explodiu. Assim como a fileira seguinte e a seguinte e a seguinte. Kratos pisou cautelosamente sobre os ossos e as partes fumegantes e queimadas dos corpos dos legionários. No caminho havia um capacete de bronze, as penas negras soltando fumaça, assim como o crânio amarrado com correias. Espadas derretidas e capacetes repartidos espalhavam-se ao longo da estrada. Kratos olhou com espanto para a cicatriz branca na palma da mão. Depois apressadamente virou a palma para o outro lado. Se ele acidentalmente acionasse um relâmpago enquanto olhava para sua própria mão, sua morte poderia ser tão rápida quanto humilhante. Mais uma vez ele acelerou em um ávido passo que era seu ritmo habitual até o caminho ficar cada vez mais íngreme. Em alguns lugares, os peregrinos haviam meticulosamente esculpido degraus nas rochas para os suplicantes mais fracos. Como se em um sonho, ele já não escalava a Acrópole de Atenas em direção ao Pártenon, mas sim uma estrada montanhosa, cheia de vento a milhares de metros no ar. Tornou-se mais difícil respirar, e suas pernas – aquelas pernas incansáveis que andaram oitenta quilômetros em um dia – começaram a doer pelo esforço.
Ele chegou a uma ponte sobre um desfiladeiro profundo. Ao longo da construção marchavam cinquenta atenienses ou mais, todos com cestos de vime com oferendas e se dirigindo para o templo de Atena. Kratos entendia agora como o templo do Oráculo havia resistido às agressões do Deus da Guerra: ele não estava no Pártenon, mas no cume de um caminho oculto magicamente, que poderia ser visto e trilhado apenas pelos fiéis! Enquanto ele corria em direção à ponte, um estridente assobio preencheu o ar. Ele olhou para cima e viu uma bola de fogo descendo dos céus, e ocorreu-lhe que, mesmo que não pudesse ver o caminho ou o templo, Ares aparentemente ainda podia encontrá-lo. O espartano atirou-se e rolou para o lado. O pegajoso e ardente fogo não o tocou dessa vez, mas espirrou por toda a ponte. Dezenas de suplicantes gritaram. Alguns saltaram da construção em um mergulho de centenas de metros para as rochas abaixo, em chamas, como pequenos sóis. Aqueles que foram atingidos diretamente pelo fogo grego estavam agora envoltos em mortalhas de carvão que um dia foram suas peles. Ele ouviu berros de gelar a alma. Horrivelmente queimados, presos em suas fuliginosas vestimentas, cada segundo da vida era uma eternidade de agonia. Mas alguém sentiu pena deles – Atena ou talvez mesmo Zeus –, pois um som agudo como bronze batendo na pedra soou, e os atenienses ardentes tiveram uma morte rápida nas rochas abaixo. Kratos correu para o final da estrada e olhou através do abismo. Em seu vislumbre anterior, ele pensou que as bolas de fogo de Ares haviam destruído a construção, mas não; mais da metade da ponte conservara-se – porém, estava inclinada para cima, longe de Kratos, suspensa por um enorme guincho acima do abismo. Um homem baixo e forte lutou com a manivela para travá-la no lugar. – Pare! – Kratos gritou. – Abaixe a ponte! Preciso chegar ao templo! – Vá embora! – O guardião gritou de volta. – Os monstros espreitam por toda parte. Pelotões inteiros escalam o caminho atrás de você. Se você ama a deusa, você vai me ajudar a destruir a ponte! – Eu sirvo Atena! Ela me deu a tarefa de encontrar seu Oráculo! Abaixe a ponte! Kratos deu um passo adiante, à beira do abismo. – Mesmo se abaixá-la, um terço dela foi destruído! Como você vai atravessar o fosso? Se você pode voar, por que precisa da ponte? – Abaixe-a – Kratos rosnou. – Eu não vou pedir de novo.
– Eu morreria pela deusa! – Ótimo. Kratos levou a mão sobre seu ombro direito, preenchendo-a com um raio sólido. O guardião apertou os olhos através do abismo. – Ei, ei! – disse ele, hesitante. – O que é isso na sua mão? – Veja por si mesmo. O relâmpago disparou de sua mão e estilhaçou a plataforma onde o homem estava. O grito do guardião ecoou pelo desfiladeiro, mesmo depois de seu corpo quebrado respingar nas rochas abaixo. A discussão com o guardião estava acabada, mas Kratos ainda tinha o problema da travessia do abismo. Kratos fez uma careta para a manivela. Aquele era certamente o momento certo para montar uma harpia domada. Ou até mesmo uma coruja. Se Atena realmente queria que ele chegasse ao seu Oráculo, ela podia pelo menos oferecer um casal de seus pássaros sagrados. Nem harpias amigáveis nem corujas do Olimpo fizeram uma súbita aparição. Kratos sacou um novo relâmpago. Ele deixou-o voar até a manivela, explodindo-a até virar sucata. As correntes enormes emitiram um som agudo enquanto a ponte levadiça descia. O estampido finalmente apagou os ecos da morte do guardião. Kratos fez uma pausa para julgar a lacuna restante. Oito ou nove metros, não mais, mas um mau julgamento da distância significava sua morte nas rochas abaixo. Ele precisou de alguns passos para dar o impulso e se atirou para o ar. Enquanto voava em direção aos destroços do final da ponte, outro assobio vindo do céu elevou-se a um guincho. Ele alcançou o final da ponte, seus dedos agarrando lascas de madeira e pedra, e virou-se em um salto para trás que o deixou em uma estrutura um pouco mais sólida e um pouco mais próxima do templo. Kratos olhou em direção ao guincho e viu outra bola de fogo grego voando, vindo diretamente para ele. Mesmo que sobrevivesse ao fogo, ele certamente destruiria a ponte; Kratos não tinha nenhuma vontade de acompanhar o guardião e acrescentar seu corpo à pilha sangrenta abaixo. Agindo instintivamente em vez de decidir-se conscientemente, ele soltou outro relâmpago de sua mão, cortando a noite para chocar-se com a bola de fogo. A detonação espalhou a bola de fogo por todas as direções. Kratos se virou
para evitar que pedaços de piche escaldante chovessem sobre ele. A última coisa de que precisava eram mais cicatrizes em seu rosto. Alguns atingiram o piso da ponte e inflamaram. Ele saltou para o outro lado, correndo para superar a velocidade das chamas, mas antes que ele pudesse chegar à segurança das pedras, ele sentiu a estrutura vacilar sob o seu peso, tremer e, por fim, desmoronar. Kratos escalou as pranchas ardentes como se fossem uma escada, mal atingindo o caminho rochoso antes da ponte despedaçar-se e cair no abismo. Kratos olhou de volta para a abertura rochosa por um breve momento. Pelo menos, o guardião devia estar sorrindo do Hades. Nenhum monstro atravessaria aquele precipício, a menos que pudesse voar. Ele virou-se e seguiu em frente. O caminho íngreme tornou-se uma escadaria que levava direto para o topo da montanha. Na cúpula, erguia-se uma estrutura vasta, de muitos níveis, três ou quatro vezes o tamanho do Pártenon abaixo e dez vezes a sua altura, toda construída com elegante mármore e folheada com o mais puro ouro. Enquanto subia os degraus, sons de batalha vieram de cima. Ele se endireitou e empunhou suas lâminas, que assobiaram e deixaram uma trilha de faíscas. Kratos empregou os passos em direção ao templo rápida e silenciosamente, movendo-se tão furtivamente quanto podia, até encontrar a fonte do barulho de espada contra espada. Uma grande área devocional no centro do templo estava suja com sangue fresco. Dois soldados cambalearam de trás da estátua de Atena que se erguia sobre o outro lado da câmara, tentando desesperadamente refrear os ataques de cinco ou seis mortos-vivos da infantaria pesada. Kratos assentiu consigo mesmo. É claro, tão logo o Deus da Guerra localizou o templo, suas imundas desovas do Hades começaram a aparecer. Mesmo ali, no santuário mais sagrado da deusa. Ele caminhou suavemente através da área aberta e cortou as pernas de quatro mortos-vivos antes das criaturas perceberem a sua presença. Alguns golpes rápidos liquidaram os outros. Um soldado estava ferido, vertendo a última gota de sua vida no chão imaculado da deusa. O outro ateniense acenou a Kratos sombriamente em agradecimento, em seguida, soltou um grito de guerra e investiu para trás da estátua de Atena. Sua cabeça rolou um instante depois. Kratos, relutante, admitiu para si mesmo que talvez nem todos os atenienses fossem covardes. O monstro que havia acabado de enviar o valente soldado para o Hades
circundou a estátua e veio a ele. Outro legionário morto-vivo, mas esse se elevava mais alto que um minotauro, estava vestido com uma armadura impenetrável, e ambos os seus braços terminavam em uma foice mortal no lugar das mãos. Os fogos venenosos de suas órbitas oculares vazias fixaram Kratos como se lançassem um desafio silencioso. O monstro horrível atacou com uma velocidade que pegou Kratos de surpresa. Mal desviando das lâminas perniciosamente afiadas, Kratos adiantou-se e chegou ao centro do templo, onde ele poderia lutar desimpedido. A criatura avançou sobre ele e perdeu uma perna. Quando ela caiu, Kratos desferiu um segundo golpe, que arrancou as duas mãos do legionário. As foices mortais retiniram no chão. Kratos olhou para o monstro que se contorcia, então golpeou com sua espada uma última vez. A cabeça rolou para além das foices. Mesmo com todo o seu aspecto feroz, o legionário provou não ser um grande adversário. – Ajude-me! – Veio um novo grito de trás da estátua. – Ao meu lado, se ama Atena! Um terceiro soldado ateniense lutava sozinho contra um par de legionários, batalhando ainda que enfraquecido por conta de uma dúzia de cortes, alguns profundos e pelo menos um provavelmente mortal. Kratos acrescentou seu braço forte à luta. Atenienses valentes eram raros o suficiente para ele sentir que deveria contribuir para a sobrevivência desse. Ele afastou os legionários e viu por que os soldados atenienses estavam lutando atrás da estátua: havia uma porta escondida que fora quebrada em cacos, abrindo um corredor estreito que levava, Kratos supôs, para os aposentos do Oráculo. Esses legionários não eram desafio maior do que fora seu irmão maior. Kratos teceu uma cortina de morte sobre eles, avançando para a matança, e o mundo explodiu ao seu redor. Uma bola de fogo estourou no telhado do templo e queimou o que havia em seu caminho, abrindo um buraco na estrutura. Um bocado grande do fogo grego caiu inteiramente no ateniense e matou-o instantaneamente. Os mortos-vivos com os quais esse espírito valente duelava também voltaram ao Hades em um instante de combustão. Mesmo os legionários que Kratos combatia pereceram, quando uma bola do tamanho de um punho de fogo espirrou em cima de seus capacetes e queimou até que nada se mantivesse acima dos ombros ossudos, fora uma poça de bronze fundido. A armadura que Kratos havia roubado de suas vítimas também chamejava com dezenas de gotículas de fogo. Um rápido floreio das Lâminas do Caos cortou
suas ligações improvisadas, e a armadura caiu no chão, onde foi rapidamente consumida. Kratos nem sequer olhou para trás. Ele passou por cima do cadáver ateniense que ardia em chamas e entrou no corredor estreito. – Eu sou Kratos de Esparta – ele chamou. – A deusa me comanda a falar com seu Oráculo. A mulher espectral que veio a ele em Atenas agora apareceu em carne e osso, e sua beleza roubou-lhe a voz. As tiras translúcidas de seda verde que ela usava como saia iludiam, movendo-se para esconder e ao mesmo tempo revelar suas pernas, coxas e quadris. Envolto em torno de seu corpete, o pano diáfano se agarrava com ferocidade estática a cada uma das suas curvas delicadas. – Você veio – o Oráculo sussurrou. Sua voz o acalmava e excitava ao mesmo tempo. – Eu tinha começado a duvidar que você o faria. – O templo não é seguro – disse ele. – Os seguidores obscuros de Ares caçam aqui dentro. O Oráculo fechou os olhos, e seus seios pesados se elevaram e desceram com um suspiro profundo e melancólico. – Meus outros defensores sucumbiram. Que suas almas encontrem nada além de alegria ao se juntarem a seus amados nos Campos Elísios. O espartano pensou que isso era improvável, mas segurou sua língua. – Só você perdura, Kratos – seus olhos, como piscinas de luar, fixavam-se em Kratos, e por um momento o espartano não se lembrava sequer de que havia uma batalha em torno dele. – Você é tudo o que eu tenho agora. Ele se sacudiu para voltar à realidade. – E eu sou tudo de que você precisa. Apresse-se. Ele olhou ao redor da pequena sala onde o Oráculo vivia: apenas uma cama e alguns objetos pessoais. Ela levava uma vida pouco sofisticada, inocente, livre de vaidade ou malícia. Mas a câmara em si era um pesadelo tático. Se os asseclas de Ares chegassem a essa sala, o teto baixo e as paredes próximas impediriam o uso das Lâminas do Caos, e desencadear qualquer magia poderosa dos deuses em tal área poderia ser suicídio. Pior, o corredor que levava ao templo era a única saída da sala. Uma força suficiente na porta os deixaria abertos a qualquer investida,
como moscas em uma garrafa. – Devemos conversar, você e eu –, o Oráculo disse, indicando um banquinho de três pernas ao lado de sua cama. – Sente-se e eu vou lhe dizer o que você precisa saber. – Por que Atena não me disse tudo o que eu preciso saber para matar Ares? O Oráculo fez um movimento de desprezo para silenciá-lo e disse: – Eu vou revelar o que eu vi. Às vezes, minha visão é precisa. Outras, é como se eu estivesse olhando através de um véu. Ou, talvez, seria melhor dizer através de uma mortalha. – uma expressão distante alterou-a de ansiosa para etérea. Kratos viu o poder de seu talento, ou seria uma maldição? – Revelados a mim são os segredos escondidos aos deuses – o Oráculo disse. – Por mais que sua sabedoria atinja terras longínquas, há algumas coisas que, mesmo a eles, são privadas. Kratos sentiu-se exposto sob o seu olhar firme, que centrava-se não sobre ele, mas aparentemente em algo além, algo dentro dele. – As visões preenchem todos os meus momentos despertos, cada instante dos meus sonhos, dizendo-me o que você deve fazer. – sua voz diminuiu para pouco mais que um sussurro. – Eu sei como matar um deus. * * * GRITOS MUITO FAMILIARES ecoaram entre as colunas do templo, e Kratos empunhou suas lâminas prontas para a ação. – Esta sala é uma armadilha. Ares quer você morta. Mova-se e eu vou mantê-la viva. Ele correu de volta para o templo e derrapou em volta da estátua de Atena. Fora os cadáveres e o sangue espalhados no chão, a sala se estendia vazia e silenciosa. Ele olhou para o teto rompido e encontrou um enxame fétido de harpias. Ele dirigiu-se para um terreno mais aberto, onde poderia atacá-las com toda a sua força. Uma harpia gritou e atirou-se violentamente para baixo, como uma águia em ataque. Ele esfaqueou-a, levando a ponta da espada ao peito do monstro horrendo. O sangue explodiu e espirrou em seus olhos, mas ele ainda desmembrava o monstro com apenas um movimento do pulso. Ele cortou o ar com suas espadas enquanto piscava firmemente para limpar seus olhos. Mais harpias gritantes enxameavam ao redor dele. Suas lâminas
encontraram a carne monstruosa mais de uma vez, mas as garras rasgavam a sua pele de todos os lados. Quando finalmente limpou o sangue de harpia de seus olhos, ele viu harpias feridas se contorcendo pelo chão do templo. Uma secreção continuava a escorrer de suas feridas enquanto elas usavam suas asas de couro para se arrastar. Quando uma delas percebeu que ele observava, gritou para ele mais uma vez, e todas rangeram seus dentes irregulares, produzindo um som agudo, em desafio feroz. Kratos viu um último golpe passar diante de seus olhos e moveu-se para matar. – Kratos!
O terror na voz do Oráculo fez Kratos voltar-se para as costas da estátua de Atena. Duas harpias seguravam o Oráculo com suas garras imundas. Ele na direção delas, lâminas em punho. Ele vira muito bem quão rapidamente uma única harpia podia assassinar um mortal, e a memória assombrosa da criança sendo açoitada contra os paralelepípedos atenienses fez a sua bile subir à garganta, mas elas pareciam ter algum outro plano para a sua prisioneira. Elas bateram as asas no ar, arrancando a mulher do chão. Garras poderosas afundaram nos ombros do Oráculo. As harpias gritaram com alegria maléfica e levantaram voo, o Oráculo suspenso em suas garras punitivas. – Kratos – ela gritou, sua voz enfraquecia em desespero. – Kratos, salveme! Kratos saltou com toda a sua força, mas outra harpia havia cronometrado a sua corrida e chocou-se contra ele, atingindo suas costas, como um falcão acertando um coelho. Ele girou, soltando um grunhido, e um único corte das Lâminas do Caos tomou uma asa e o topo da sua cabeça. Ainda não compreendendo que havia sido mortalmente ferido, o monstro investiu com suas garras apontadas furiosamente para ele. Um segundo golpe das lâminas enviou as garras para o chão do templo, desprendidas dos braços onde um dia estiveram anexadas. Mas mesmo esse único segundo de distração havia se provado muito dispendioso. Antes que ele pudesse recompor-se para saltar de novo, as harpias carregaram o Oráculo, bateram as asas com força e desapareceram através do buraco no teto do templo, e todas as suas irmãs seguiram-nas. Kratos assistiu, impotente, às criaturas e sua prisioneira sumirem entre as nuvens escuras da noite.
Sozinho no templo, Kratos virou-se para a estátua inexpressiva de Atena e estendeu as mãos. Ele não rezou para os deuses, ele amaldiçoou-os. E arquitetou um plano para resgatar o Oráculo.


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