Quinze
Perdido nas areias ofuscantes, Kratos não tinha ideia do caminho a seguir. Seus olhos lacrimejavam com tanta força que ele poderia estar nadando no mar, se não fossem os grãos na boca e a forma como a poeira enchia seu nariz. Kratos inclinou a cabeça para baixo e caminhou com dificuldade para a frente. Ele estava ciente de que havia um número infinito de direções erradas, e apenas uma era a certa. Ele esperava pelo melhor. Ele não tinha como saber se havia mesmo uma direção certa para andar.
O Oráculo tinha convocado as visões que assombravam seus pesadelos. A náusea do que ela viu em sua cabeça estava escrita de forma legível em seu rosto adorável. Kratos achou muito fácil imaginar que ela pode ter decidido que um homem tão corrupto e mau quanto ele devia ser retirado da companhia da humanidade. Ela podia tê-lo enviado a esse terrível deserto para morrer. Pior, ela pode tê-lo enviado a esse terrível deserto para não morrer.
Ele ouvira contos sobre os castigos dos Titãs no Tártaro. Esse deserto sem fim, as rajadas infinitas de areia, o calor sem fim e a sede infinita pareceram muito semelhantes a tais lendas. Ele amaldiçoou os deuses em sua caminhada longa e penosa, depois incluiu seus oráculos. Se houvesse uma brecha na tempestade de areia através da qual pudesse vislumbrar o sol, ele poderia ter medido a passagem do tempo. Ou, pelo menos, podia ter descoberto se o tempo, de fato, passava nesse terrível lugar ou se esse havia se tornado o seu destino eterno. Como estava, tudo o que ele conhecia era o calor crescente e o vento sempre presente, carregado de areia ofuscante. Acima do uivo do vento veio um lamento estridente. Ele alcançou as lâminas, mas não as sacou. Girando lentamente, mirou na direção do som e avançou com cautela. Ares podia ter colocado uma centena de armadilhas em uma tempestade. Pior, Kratos sabia que ele poderia ser atraído para longe de seu verdadeiro destino. Sua única esperança era determinar a direção do som e descobrir a sua origem. O som era o primeiro indício de que havia outra coisa que não a sua própria alma pesarosa caminhando em meio à tempestade. Uma luz brilhante piscou uma vez, duas vezes, então brilhou para rivalizar com o sol. Seu passo se alongou. O que quer que estivesse à frente tinha de ser melhor do que tropeçar cegamente através do deserto. Ao se aproximar, viu que os dois faróis eram os olhos de uma estátua de Atena. – Atena – ele disse com raiva, olhando para os olhos cinzentos da deusa.
Ele se sentiu abandonado, e ela havia sido apenas a mais recente do Panteão Olímpico que o usou, somente para descartá-lo depois. – Por que você me trouxe aqui? A estátua falou. – Kratos, a viagem à frente é perigosa, mas você deve completá-la para ter alguma esperança de salvar Atenas.
– O Oráculo falou da Caixa de Pandora. Pode ser real? – A Caixa existe. É a arma mais poderosa que um mortal pode empunhar.
– Posso derrotar Ares com ela? – Com a Caixa, muitas coisas se tornam possíveis. E por isso ela está bem escondida, do outro lado do Deserto das Almas Perdidas.
Por um breve instante, as nuvens turvas de areia se limparam, e Kratos viu o horizonte. Tão rapidamente quanto a janela aberta se abriu, ela também se fechou. – Há uma passagem segura através das areias mortais, mas somente aqueles que ouvirem o canto das sereias vão descobrir esta estrada, pois apenas elas podem guiá-lo a Cronos, o Titã. Zeus ordenou-o a vaguear o deserto sem fim com o Templo de Pandora acorrentado às suas costas, até que as areias rasguem a própria carne de seus ossos.
– Como posso encontrá-lo? – Mantenha-se fiel à canção das sereias, Kratos. Sua jornada começa aqui. Ore para que a leve de volta a Atenas com a Caixa de Pandora. Lembre-se disso: procure a cúpula, pois apenas a morte o aguarda abaixo. Não há como escapar sem a Caixa.
– Como resisto ao canto das sereias? – questionou. A estátua de Atena não respondeu. Ele se aproximou e viu que os olhos eram uniformes esferas de mármore. O espírito da deusa havia deixado o local, e o tinha deixado. Ele conteve a sua ira crescente. “Dicas, nada além de dicas!” * * * ELE RANGEU OS DENTES E MARCHOU. Não era dado aos mortais entender os porquês e as razões dos deuses. Isso era o que sua mãe costumava lhe dizer, antes de ele completar sete anos e ser levado para longe dela, para
começar seu treinamento. Ele sempre considerou que isso significava nada mais, nada menos, do que: – Silêncio e faça conforme lhe foi ordenado. Enquanto ele caminhava, viu que a estátua havia mudado. Agora, o braço direito estava levantado, apontando para o deserto. Quando virou para seguir nessa direção, ouviu o lamento fraco mais uma vez. Ele ficou um pouco mais ereto contra o vento. Agora sabia que o som era do canto das sereias do deserto. Atena o havia colocado no caminho certo, mas, como de costume, não dera sequer uma dica de como ele poderia subjugar as sereias. Kratos imaginou que ela confiava nele para descobrir por si mesmo – ou, se sua inteligência fosse inferior ao desafio, ele sempre podia contar com sua selvageria nata e as Lâminas do Caos. Odisseu havia tapado os ouvidos de sua tripulação com cera de abelha, enquanto ele permaneceu acorrentado ao mastro de seu navio. Kratos não tinha nada que pudesse bloquear o som insistente e sedutor. Mesmo a essa distância, ele sentiu seu coração acelerar e seu corpo responder ao apelo do seu chamado. Se sucumbisse, ele seria o jantar. À medida que caminhava, Kratos espalmava as mãos sobre os ouvidos, esperando abafar a canção traiçoeira. O que falhou. Ele viu-se andando mais rápido, caçando as criaturas através da tempestade de areia, querendo-as como nunca quisera nada antes. O bater de asas pesadas o levou a olhar para cima. Através das nuvens de poeira, ele viu uma harpia lutando para levar um corpo dependurado em suas garras. O monstro se virou e desapareceu na tempestade, mas Kratos sabia que levava o cadáver para as sereias. Uma vez, em um campo de batalha fora de Esparta, ele encontrou duas sereias e ordenou aos seus homens que as enchessem de flechas. As sereias estavam jantando os mortos de ambos os lados, devorando avidamente a carne humana e manchando-se totalmente com seu sangue. Suas lamentações mortais lhe custaram três arqueiros experientes. Quando as sereias começaram a morrer, elas gritaram a tal ponto que as cabeças dos homens explodiram. Kratos ordenou que as carcaças das sereias fossem talhadas em pedaços tão pequenos que até mesmo os corvos os ignorassem e, então, fossem lançados aos quatro ventos, de modo que suas sombras monstruosas vagassem eternamente inquietas sobre a terra. Ele apertou as mãos com mais força contra seus ouvidos. O canto das sereias se tornava cada vez mais tentador. O vento abrandou, e a canção maléfica ficou mais alta e encheu-o de um desejo irresistível. Logo, ele olhou
além de uma duna de areia marcada com ondulações de vento. Além das dunas havia as ruínas de um templo antigo, talvez onde as sereias construíram a sua morada. E então ele viu: quatro altas criaturas espectrais, flutuando sobre a praça à frente do templo em ruínas. O som sedutor das sereias deixou Kratos fraco. Um absoluto fascínio sexual puxou-o para a frente como uma alma no Hades arrastando os pés para o barco de Caronte. Cada movimento seu era lento, instável, e cada vez mais descoordenado. Uma das sereias o viu. Atraída pelo seu sangue mortal, ela se virou para ele, e a sua parte na canção elevou-se. Kratos tentou sacar suas espadas, mas descobriu que não podia. As Lâminas do Caos não foram feitas para atacar criaturas tão adoráveis. A sereia que o viu deslizou pela encosta, com o rosto mais insuportavelmente bonito enquanto ela sorria. Os dentes afiados e amarelos que ornavam sua goela escancarada não o incomodavam nem um pouco. Adorável, ela era tão linda, e ela tornava-se ainda mais bela enquanto se aproximava. – Vinde a mim, amante. Eu quero você tanto quanto você me quer. Sua voz carregava a canção das sereias. Kratos sabia o que a música realmente era, sabia que cantavam a melodia da sua desgraça, mas, ainda assim, ele não conseguia resistir. Com um empenho de força de vontade poderoso, ele forçou uma mão a se dirigir para atrás de seu ombro, os dedos roçando o punho de uma lâmina. A sereia não se acovardou. Ela conhecia muito bem o poder de sua vil canção. – Não há necessidade, amante. Venha para mim e ame-me. Eu amo você. Eu quero sentir você em meus braços. Sua resistência desvaneceu enquanto ele se aproximava da mulher mais bonita em todo o mundo. Mantinha seus braços em volta dela enquanto a puxava para perto. Kratos sacudiu quando sentiu uma mordida. – Uma mordida de amor, meu querido – vieram suas palavras em um arrulho. – Você gosta. Você quer que eu lhe dê mais, muito mais! Kratos sentiu o sangue do ferimento no pescoço escorrer pelo peito, mas sabia que ela o amava, e ele a desejava acima de todas as outras. “Mesmo acima das filhas gêmeas de Afrodite. Ainda mais do que Lora e...” Ele recuou, lutando contra o caloroso abraço da mulher que estimava. – Não – ele disse. – Eu não posso...
Seus ouvidos se encheram de música, aguda primeiramente e, depois, tão melodiosa que ele chorou. Sua amante cantava para ele. Ela cantou uma música assustadora de amor e desejo. Para ele, e apenas para ele. – Outro beijo de amor – disse ela. Novamente ele recuou, enquanto sangue vertia do outro lado do seu pescoço. “Sangue, sangue derramado em batalha, não em um encontro de amantes.” Ele endireitou seus braços e a empurrou com força. A sereia soltou um grunhido de pura raiva, quebrando momentaneamente o feitiço. Kratos viu a sereia como o que realmente era, até que ela cantou para ele. Cantou uma melodia tão encantadora e sedutora que ele soube que ela o queria acima de todos os outros homens no mundo. “Mas ela não é minha esposa... minha esposa e filha...” Aquelas memórias martelavam na mente de Kratos até mesmo quando ele se sentia mais mordidas de amor. A dor contrabalançava o prazer. Ele conhecia a dor, muita dor, e concentrou-se nela. E na sua esposa. E na sua filha morta a seus pés... Novamente ele se afastou, mas dessa vez ouviu outras vozes. – Compartilhe! Você é gananciosa! – Famintas! Estamos todas famintas. Você deve dá-lo para nós! As vozes tornaram-se estridentes, e a melodia linda de amor se extinguira em seus ouvidos. “Minha esposa! Minha filha!” Kratos levantou a mão e sentiu a energia fluir. O Relâmpago de Zeus se formou... mas contra sua amante, sua amante adorável e carinhosa. Ele não podia. Não dessa forma... A cacofonia das demandas para jantar a sua carne cresceu enquanto o canto das sereias diminuía. Kratos alcançou, lá no fundo, as visões, os pesadelos, que alimentavam sua determinação. O raio irrompeu de sua mão. Uma força maior do que qualquer coisa que ele já tivesse sentido levantou-o e atirou-o no ar, girando, rodando e caindo. Ele caiu na areia, atordoado. Quando olhou para cima, viu sereias espalhadas, sem vida. Ele sacudiu-se e pôs-se de pé, ciente de que havia destruído apenas algumas das criaturas com o poder de Zeus. Outras três sereias correram em direção a ele. Kratos nunca vira criaturas tão adoráveis e amorosas, mas não caiu sob seu encanto. Em um instante ele entendeu o porquê.
As sereias tinham começado a lutar por ele. Sua mão tocou seu pescoço e encontrou marcas de mordidas recentes sangrando livremente. Sua visão dos pesadelos lhe havia permitido quebrar o feitiço para lutar, e quando ele as explodiu com o Relâmpago de Zeus, o trovão o deixou parcialmente surdo. Ele podia não ter a cera de abelha que Odisseu carregava, mas tinha um método improvisado, bloqueando temporariamente os chamados das sereias. Sua audição já estava retornando, no entanto – tivera ele esperado muito tempo? Ele levantou a mão direita novamente, mas seu corpo o traiu. Sua mão tremia, sua carne rebelde recusando-se a apanhar o relâmpago. As sereias o acalmaram e bajularam para que relaxasse e para que não usasse a sua arma. Elas o amavam. Elas o queriam mais do que qualquer outra coisa na vida. Uma reviravolta final de sua força de vontade curvou os seus dedos de forma adequada, mas seu braço, enfraquecido, não conseguia mais segurar sua mão levantada. Ele caiu para o lado, e o raio em suas mãos detonou a areia na frente dele, transformando-a em vidro. O trovão e as ondas de choque o empurraram. Dois passos para trás, três. Ele lançou outro raio. Novamente, veio a explosão, mas dessa vez ele mal pôde ouvi-la. – Bem, certo, então – ele não se ouviu dizer. Ele partiu para os monstros do deserto, com propósito, mas sem pressa. As sereias recuaram, trocando olhares que pareciam como um choro. – Como pode esse mortal resistir ao nosso poder? De repente, as sereias ficaram incertas de que Kratos fosse humano de fato. Elas uivaram para ele, lançando suas vozes em várias harmonias, um acorde poderia deixar um homem em chamas, outro poderia cegá-lo, ainda um terceiro poderia fazer seu crânio explodir como uma castanha em uma fogueira. Kratos continuou andando. Ele não se preocupou em sacar as lâminas. As sereias espalharam-se para cercá-lo. Mas Kratos havia lidado com sereias antes, e essas, para infortúnio delas, nunca haviam lidado com Kratos. Elas não viram Kratos se mover com rapidez e não tinham ideia de quão rapidamente essas pernas poderosas poderiam dirigir seu corpo maciço. Ele permitiu que elas se aproximassem em torno dele, até julgar que estavam perto o suficiente, então, com um rápido impulso de suas coxas fortes, pulou em uma das sereias, como um tigre se lança sobre uma cabra. Com a mão espalmada, ele agarrou o cabelo de uma sereia, longo e esvoaçante, enquanto socou o peito de outra tão forte que seu esterno e clavículas quebraram e rasgaram a parte superior da sua espinha para fora do corpo.
Ele arrancou-lhe a cabeça e balançou-a pelo cabelo como um mangual. A mais próxima das duas restantes teve o rosto golpeado pela cabeça da irmã, com força suficiente para quebrar todos os ossos monstruosos de seu crânio e cair morta na areia. A última sereia virou-se para fugir, mas Kratos, girando os restos da cabeça da primeira sereia, atirou-a como num arremesso de martelo. A cabeça decepada bateu na sereia fugitiva entre as omoplatas, forte o bastante para quebrar sua espinha. Os fragmentos de osso rasgaram seus pulmões, o que deu um fim a seu horrível grito. Kratos estava sobre a sereia agonizante, e não havia nada em seu rosto que se assemelhasse a piedade. Ele esmagou sua cabeça com um pisão de sua sandália. Ele apressou os passos rumo à estrutura destruída. Estranhamente, ainda que o lugar parecesse uma ruína, as escadas e corredores estavam repletas de lâmpadas acesas, então não houve a menor dificuldade para enxergar o caminho. Ele seguiu a luz... … e, finalmente, viu-se em meio à luz do dia novamente, em uma varanda vertiginosamente alta, olhando para a tempestade de areia interminável e furiosa do Deserto das Almas Perdidas. Kratos fez uma pausa para examinar os brutos relevos esculpidos nas paredes de ambos os lados. Um desenho retratava deuses que apareciam diante de Pathos Verdes III, ordenando-lhe que construísse um templo poderoso para abrigar a maior arma da terra ou do Olimpo. O outro mostrava o templo sendo acorrentado nas costas de Cronos, uma forma desrespeitosa de Zeus tratar seu próprio pai, mesmo que Cronos tivesse tentado comê-lo assim que o futuro rei nasceu. Acorrentado à pedra na ala mais distante da varanda estava um chifre maior do que todo o corpo de Kratos. Curiosos entalhes marcavam sua parte posterior; pedras preciosas coroavam suas extremidades. Correntes pesadas prendiam o chifre no lugar, à borda da varanda. Kratos se dirigiu para a ponta menor do enorme chifre, colocou seus lábios nela e soprou. A explosão de um poderoso rugido saiu da extremidade oposta do chifre, afastando as areias turbulentas do deserto à frente de Kratos. De alguma forma, elas começaram a abrir um caminho para ele. Longe, nessa nova estrada, ele vislumbrou outra estrutura, grandiosa e mais curiosa. Enquanto tentava compreendê-la em todos os detalhes, o templo poderoso começou a se mover em direção a ele. Kratos prendeu a respiração quando viu Cronos se arquear e fazer o Templo de Pandora, acorrentado a suas costas, tremer e retumbar. Depois, o Titã, de joelhos, se virou e passou perto da extremidade da sacada de onde Kratos assistia. Kratos não tinha tempo para pensar. Ele reagiu. A corrente pesada pendurada na lateral do Titã passou por ele. Com um salto poderoso, Kratos se lançou para o ar. Seus dedos se fecharam sobre a corrente, e então ele foi
arremessado, quando Cronos mudou de direção, e caiu de volta para as profundezas do mar de areia.

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