Vinte e sete
OS pés de Kratos continuavam escorregadios. Ele se aproximou da Caixa de Pandora, firmou-se e empurrou com mais força. A arca monstruosa movia-se lentamente. Pesando uma quantidade imponderável, a Caixa era difícil de deslizar até mesmo no chão lustroso da antecâmara. Os terremotos o levaram a perder a pouca tração que ele tinha encontrado em suas sandálias. Mesmo quando ele finalmente empurrou a Caixa através das portas titânicas, mais de construção caiu e quebrou em torno dele. Com a Caixa na porta, Kratos parou para reunir a sua força para um último empurrão e encontrou-se olhando para a beleza do céu do deserto: celeste vivo, sombreando na direção do índigo a oeste, repleto de nuvens que assumiam formas curiosas que resfriavam a sua alma. Mas havia mais do que nuvens acima. Quatro pontos flutuavam alto no céu, entrando e saindo de nuvens leves só para reaparecerem como escuros, quase invisíveis, pontos de perigo aproximando-se. Harpias! Sua atenção voltou-se para a Caixa de Pandora. Ele não tinha ideia de como a desceria das costas de Cronos, muito menos como a arrastaria pelo Deserto de Almas Perdidas. Ele estendeu a mão e agarrou a tampa. Independentemente do quanto ele puxava, ela se recusava a ceder. Levar a arca inteira de volta a Atenas seria mais fácil se ele possuísse o poder que estava trancado dentro dela. Embora talvez não lhe concedesse a capacidade de mover essa Caixa, ele imaginava que poderia tornar a tarefa mais fácil. Ele tentou deslizar a tampa, levantá-la, balançá-la para o lado, mas a força que bloqueava a arca era mais do que podia superar. Talvez ela só pudesse ser aberta depois que ele a levasse para Atenas, ou a Caixa tinha de ser colocada no templo de Atena, onde seu Oráculo poderia usá-la para conceder-lhe o poder. Kratos desejou saber mais, mas ele não tinha tempo a perder com especulação. Ele voltou a empurrar. Sair do templo de Pandora tinha que ser o seu primeiro objetivo. Quando finalmente ele empurrou a caixa totalmente para fora, as portas maciças do templo fecharam-se com um estrondo atrás dele. Ele parou para recuperar o fôlego e escolher um caminho. E olhou para o céu e para as harpias que voavam para baixo. Uma dessas nuvens baixas de repente desenvolveu um grande buraco no meio, como se Zeus tivesse enfiado o dedo através dela. A ondulação expandiuse a partir do furo, como as ondulações de uma pedra atirada em um lago de águas paradas. A carranca de Kratos se aprofundou. Com um instante de um relampejar branco, seu peito foi atingido por um martelo invisível, manejado por um Titã invisível. Nada em todas as suas décadas de batalha o tinha atingido tão duramente. O impacto dinamitou-o para
trás e impulsionou-o a voar para o grande portão de pedra do Templo de Pandora. Fixado à porta de pedra, piscando os olhos em sua incompreensão para com a imensa coluna de mármore branca saindo de seu peito, Kratos lutou para respirar. A lança de mármore tinha atingido-o tão rápido, que ele não a tinha notado até que já estivesse estocada. Ele olhou para baixo e soube que tinha apenas alguns segundos de vida restantes em seu corpo progressivamente moribundo. Ele não podia falar, pois seus pulmões foram perfurados a partir de seu peito, atravessando o seu coração e estômago, fígado e baço. Fracamente, ele arranhou a coluna. Ele sabia que as últimas gotas de sangue em seu cérebro lhe davam consciência nesses segundos finais... E, mesmo na morte, os pesadelos não iriam deixá-lo. Ele mais uma vez viu a sua carreira, sua vida como homem e como arma nas mãos do Deus da Guerra. Ele viu suas incontáveis vitórias, assassinatos além de qualquer imaginação; mas dois assassinatos não precisavam ser imaginados. Ele se lembrava deles. Ele os via todas as noites em seus sonhos. Ele viu a antiga e encarquilhada vidente da aldeia e ouviu de novo as suas palavras: – Cuidado com as blasfêmias contra a deusa, Kratos! Não entre neste lugar!
Se ao menos ele tivesse tido a sabedoria de prestar atenção às suas palavras... E o massacre no templo da aldeia, repetido em sua mente mais uma vez, como tinha acontecido todas as noites por dez longos anos: o assassinato dos sacerdotes, o massacre dos adoradores de Atena amontoados no tempo, e, em seguida, os dois últimos: uma mulher e uma menina, apenas silhuetas contra os incêndios que ele criou para queimar o templo e todos os edifícios na aldeia... essas duas últimas silhuetas, que não caíram de joelhos, não tentaram fugir, não pediram ou imploraram por sua vidas... Kratos novamente sentiu as suas lâminas queimarem através de suas carnes, e ele soube quando suas almas fugiram, enviadas ao Hades como ele tinha feito com muitas outras. Ele tinha assassinado muitos por muito tempo para não ser um soldado eficiente. Eficiente demais. As duas últimas vítimas não caíram de joelhos, não tentaram fugir, não pediram ou imploraram por suas vidas porque a esposa e a filha de Kratos não podiam acreditar que seu esposo e pai iria machucá-las.
Kratos novamente sentiu-se cair de joelhos, e então foi ele que implorou, que suplicou, que desejou escapar do que encontrou lá. Mais uma vez ele foi assombrado pela visão de sua amada esposa e sua filha preciosa, deitadas em piscinas de seu próprio sangue, abatidas como cordeiros por sua própria mão. – Minha esposa... minha filha... como? – Uma fatal e final questão, que ele não perguntou a ninguém, porque era a única criatura viva do templo em chamas. As palavras o sufocaram. – Elas tinham sido deixadas em segurança em Esparta...
As chamas do templo lhe responderam na voz de seu mestre. – Você está se tornando tudo o que eu esperava que seria, Kratos. Agora, com a sua esposa e filha mortas, nada vai impedi-lo. Você vai se tornar ainda mais forte. Você vai se tornar a PRÓPRIA MORTE!
Naquela noite, Kratos percebeu que seu verdadeiro inimigo era o deus que ele tinha servido tão fielmente. Sobre os corpos frios das únicas duas pessoas na terra que ele amou, Kratos fez um terrível juramento. Ele não descansaria até que o Deus da Guerra fosse destruído. A bruxa velha do vilarejo, o Oráculo de Atena dessa pequena vila, veio a ele enquanto ele observava a pira na qual ardiam os corpos de sua amada esposa e sua preciosa filha. Por apenas um momento, senil cacarejar havia se transformado em palavras claras e fortes, emitindo voz dos próprios deuses. – A partir desta noite, a marca de seu ato terrível será visível a todos. As cinzas de sua esposa e filha permanecerão presas a sua pele, para nunca mais serem removidas.
Na medida em que as cinzas levantavam de seu lugar de descanso e pintavam-se sobre sua pele para sempre, Kratos conseguiu apenas ficar de pé, engolir sua dor e aceitar o castigo que os deuses haviam proferiam sobre ele. Com essa maldição, todos iriam conhecê-lo como a besta que ele se havia se tornado. Sua pele esbranqueceu com as cinzas de sua família morta, o Fantasma de Esparta nasceu. Mas Kratos nunca tinha sonhado que chegaria tão perto, ele não teria sonhado que iria morrer no Deserto de Almas Perdidas, que a Caixa de Pandora seria a última visão que seus olhos fracos jamais vislumbrariam... Enquanto a escuridão da morte cerrava a sua visão, as quatro harpias bateram as asas abaixo do céu, seguraram a arca em suas garras, e levantaram
voo novamente. Oeste. Na direção de Atenas. Sabendo que havia falhado completamente, ele não pôde mais segurar a vida. Com um último estremecer convulsivo, Kratos morreu. Mas para o Fantasma de Esparta, até mesmo a morte não era o fim.

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