Vinte e dois
Kratos entrou por uma porta que se fechou atrás dele. Ele havia se acostumado aos aprisionamentos recorrentes do Templo de Pandora. O Arquiteto havia sido astuto em seu projeto, mas agora Kratos sentia uma raiva crescente. Enganado! Ele havia andado um círculo completo e agora estava no corredor em anel que circulava o núcleo central. Todos os seus esforços haviam sido em vão. Encolerizado, ele bateu o punho com força contra a parede interna e, retrocedeu, quando um painel deslizou, permitindo-lhe entrar em outro corredor anelado. Mas esse mostrava uma curva mais acentuada, o que significava que ele estava mais perto do centro. Sua raiva diminuiu quando percebeu que estava mais perto de completar a sua missão. Não havia outra explicação. Ele entrou pela porta, que se fechou imediatamente atrás dele. Além de ter uma curvatura mais acentuada, esse corredor podia ser o irmão gêmeo do anel externo. Ele começou a procurar diferentes maneiras no interior para localizar a Caixa de Pandora. Ele estava perto. Ele sentia. Então sentiu algo mais: o chão vibrou.
Virando-se, ele viu que um cilindro enorme que se estendia de um lado a outro do corredor começou a girar, lentamente no início, e, em seguida, aumentando de velocidade. Ele rapidamente calculou que o peso e o poder total do rolo excedia a sua capacidade de detê-lo. Kratos correu na direção contrária ao cilindro, seguindo a curvatura do corredor. Escadas em ambas as paredes acenaram para ele, mas um rápido olhar bastou para convencer Kratos de que eram armadilhas. Seus degraus permitiriam que um homem escalasse bem alto, antes que abrissem caminho para derrubar o guerreiro no chão, e ele fosse esmagado pelo rolo. Ele percebeu que o anel no qual estava tinha de fornecer algum tipo de rota de fuga. Kratos correu, passando pelas escadas que cortavam a parede e levavam para cima. Ele arriscou saltar para o degrau inferior, enquanto o rolo se movimentava rapidamente, raspando a pele de seu braço. Ele olhou para os degraus de cima, mas não os subiu. Em vez disso, esperou, contando lentamente. Demorou um minuto para que o cilindro passasse por ele mais uma vez. Pular de volta para o corredor e seguir o rolo não parecia ser uma saída. Se ele se cansasse por um segundo, ou tropeçasse, correria o risco de o rolo continuar em seu caminho inexorável e, eventualmente, atingir as suas costas e esmagá-lo por trás. Kratos subiu os degraus de pedra até o topo da parede. De cima, ele via que o centro continha uma grande piscina de água, mas a sua atenção estava focada em outra rota de fuga. No outro lado do corredor estendiase uma passagem que desaparecia no coração do templo. Alcançá-la seria difícil, pois ele julgou que o caminho pela escada,
passando pelo corredor até a passarela poderia ser uma armadilha tão traiçoeira como as outras escadas. O rolo zuniu por ele. Um sorriso surgiu em seus lábios. Kratos se preparou, esperou o cilindro passar por ele mais uma vez, e pulou em cima dele. A pedra girando abaixo de suas sandálias obrigou-o a ajustar sua marcha para combinar a sua velocidade com a do rolo. Enquanto atravessava a circunferência completa do anel, Kratos deslizou para o outro lado do cilindro e, quando viu uma passarela em cima dele, saltou. Suas pernas poderosas impeliram-no para a frente, mas, ainda assim, ele errou o alvo. Freneticamente, ele alcançou a borda de outra escada e ele estava correto em seu julgamento prévio. Uma armadilha. A escada desabou sob seu peso. Ele alcançou o cabo de uma das Lâminas do Caos e lançou-a, de modo que sua ponta curvada se prendeu a uma pedra sólida. Ele caiu alguns metros, pendurado pela corrente fundida em seu pulso. Com um chute, ele bateu seus pés contra a parede, inclinou-se para trás e começou a caminhar na vertical. Então ele viu que o rolo retornava, mais rápido agora. Com um empurrão forte, Kratos se impulsionou para a passarela no momento em que o cilindro passou por ele. Ele escapou de ser esmagado por uma fração de segundo. Ele correu ao longo da passarela, fazendo uma curva que adentrava em um túnel e, depois, em uma longa escadaria. Um sopro de ar alertou Kratos de que ele estava saindo do templo. Ele diminuiu a velocidade e parou, pensando se teria algo que demonstrasse a forma adequada de chegar ao âmago do templo, longe dos anéis concêntricos atrás dele. Então toda a chance de retroceder desapareceu. Dos degraus acima veio um rugido ensurdecedor. Delineado contra a luz pálida, estava um legionário amaldiçoado, sua espada zunindo no ar. Fugir dele seria um anátema para Kratos. Ele investiu, subindo os degraus; as Lâminas do Caos teciam uma terrível cortina de morte na frente dele. Suas lâminas bateram na espada longa empunhada pelo legionário morto-vivo e ricochetearam. Kratos desviou para o lado, para evitar que um prego na ombreira da criatura perfurasse seu peito, quando o legionário se virou. O monstro expeliu gritos horrendos enquanto retomava o seu ataque. Kratos lutou furiosamente, empurrando lentamente a criatura para a luz do dia. A ampla área em que estavam agora era totalmente aberta e vazia, a não ser por uma enorme caixa que se elevava atrás da cabeça do guerreiro amaldiçoado. O coração de Kratos quase diminuiu uma batida. Poderia ser essa a Caixa de Pandora? Redobrando seus esforços, ele forçou a criatura a recuar, mas o legionário era um adversário valente, inteligente, rápido e mortal, o que Kratos descobriu quando a criatura quase talhou a sua perna; o golpe foi parado pela greva e derrubou-o no chão. O golpe encaixou a borda irregular da espada no bronze da armadura de
Kratos, mas também deu ao espartano uma chance de chutar, torcer e pisar com força contra a lâmina. Ele desalojou a espada das mãos do guerreiro. Com a espada ainda presa em sua greva, Kratos girou e ficou de pé a tempo de usar suas lâminas contra um ataque furioso de punhos ósseos e cotovelos blindados. Os pregos em cada cotovelo poderiam ter estripado o Fantasma de Esparta, mas uma volta rápida fez com que seus golpes não o acertassem completamente, deixando apenas uma sangrenta cicatriz em seu ventre. O legionário tentou desequilibrar Kratos para recuperar a sua espada, mas não teve chance. Kratos abandonou a sua espada e decidiu usar seus punhos para socar a criatura, deixando-a de joelhos. Essa era a abertura de que ele precisava. Evitando os pregos nos ombros e cotovelos, Kratos ficou atrás do legionário amaldiçoado e segurou seu queixo e cabeça, protegida com um capacete. Uma poderosa força quebrou o pescoço do morto-vivo. Kratos se abaixou e retirou a espada da criatura, ainda agarrada à sua armadura. Ele jogou-a de lado, mas a armadura pesada que vestia parecia melhor do que a que havia improvisado rusticamente, usado e descartado em Atenas. Kratos raspou o sangue seco e as crostas de ferida em sua carne nua, demorando-se apenas na tatuagem vermelha que marcava a sua posição como um líder espartano. Trevas ameaçaram-no de novo. Kratos se recusou a permitir que as memórias o inundassem novamente, embora tivesse pouco controle, sua força de vontade impediu-o de cair em profunda depressão e vivenciar os pesadelos assustadores. Ele vestiu a armadura de bronze do morto-vivo caído e descobriu que ela chegava mais perto de se encaixar em seu corpo poderoso que a maioria das proteções que não haviam sido especificamente forjadas para ele. Só então ele voltou-se para examinar a caixa enorme, duas vezes maior que a sua altura. – Pelos deuses, será ela? – Kratos colocou a mão contra o lado sem adorno, pensando em como tão potente artefato irradiaria a sua energia. Ele não sentiu nada. Saltando, ele segurou na beirada e se lançou para a parte superior. Um ferrolho simples se abriu e ele olhou para uma caixa vazia. Antes que ele pudesse amaldiçoar os deuses por sua perversidade em dar-lhe esperança e depois frustrá-lo, uma flecha flamejante ricocheteou em sua recém-adquirida armadura de bronze, abalando seu equilíbrio. Ele lutou para manter-se de pé, em seguida, viu uma boa razão para continuar a sua queda. Ele caiu atrás da caixa um instante antes de mais de uma dúzia de flechas flamejantes preencherem o espaço onde estava. Pequenas explosões abalavam as rochas onde as flechas impactavam o solo. Kratos olhou para uma depressão em sua nova armadura e viu que uma fecha quase a penetrara. O legionário amaldiçoado tinha o apoio de um esquadrão de arqueiros amaldiçoados. Kratos arriscou um olhar rápido ao lado da caixa enorme e viu seis
arqueiros na borda mais alta ao longo do caminho que levava em direção à montanha. – Para frente – ele murmurou. – Nunca recuar, por Zeus! Kratos ficou atrás da caixa, apoiou os pés no chão e empurrou com toda a sua força. A caixa rangeu por alguns centímetros, quase parada; em seguida, rendeu-se à pressão constante. Ela começou a deslizar mais rápido. Ele sentiu o impacto de flecha após flecha contra o outro lado da caixa. Cada batida causava uma pequena explosão. Se estivesse sem proteção, certamente estaria morto. Kratos empurrou mais rápido, deixando a caixa perto da borda de onde os arqueiros mortos-vivos disparavam contra ele. Quando ele chegou à parte inferior da beirada, descobriu que tinha apenas um pequeno espaço seguro atrás da caixa para ficar em pé. Mas o Fantasma de Esparta não se levantou. Ele sacou as Lâminas do Caos e arremessou a da mão direita por toda a extensão de sua corrente, controlando-a com o pulso. A lâmina não feriu o arqueiro, mas fez com que ele virasse ligeiramente e soltasse sua flecha na frente dos outros. Isso forçou os outros a errarem o alvo. Com todos tendo de sacar novas flechas simultaneamente, Kratos ganhou um instante para atacar. O que ele fez. Usando suas lâminas como ganchos de escalada, subiu na lateral da caixa e depois saltou para o topo, onde girou as correntes em um círculo furioso. As lâminas ferozes cortaram pernas e braços descuidados. Depois, ele começou um ataque mais dirigido. Dois dos arqueiros amaldiçoados caíram. E um terceiro. Os remanescentes dispararam suas flechas mortais a poucos metros de distância. A primeira flecha bateu em sua armadura e detonou, arremessando-o longe. Ele aterrizou com força e patinou. Outro arqueiro atirou e errou. De sua posição, Kratos não podia lançar suas Lâminas do Caos ou fugir das flechas por muito mais tempo. Ele alcançou as suas costas e sacou a cabeça da Medusa. O brilho explodiu dos olhos da Górgona, paralisando os arqueiros restantes e transformando-os momentaneamente em pedra. Kratos sabia que tinha apenas alguns segundos. Ele pôs-se de pé e girou as correntes em um círculo furioso. Ele sentiu suas lâminas baterem repetidamente enquanto rodopiavam; então se apoiou em um joelho, afastou as espadas, e deu uma olhada experiente no campo de batalha. Ele vira tal carnificina antes, muitas vezes, talvez com demasiada frequência. Seus inimigos estavam espalhados, os braços de um lado e as pernas do outro. Uma cabeça decepada estava a poucos metros de distância. Dois dos arcos dos arqueiros amaldiçoados haviam sido cortados como lenha. Kratos havia sobrevivido.
O Fantasma de Esparta correu através da estrada esculpida cruelmente na lateral do corpo de Cronos. O rochoso caminho rapidamente se transformou em um túnel que conduzia à encosta da montanha, e Kratos viu a sua passagem bloqueada por um guerreiro minotauro. A criatura levantou o martelo de guerra, fixado onde a sua mão esquerda deveria estar, e bateu ameaçadoramente no chão. As reverberações passaram pela rocha até as pernas de Kratos, dando-lhe uma sensação de fraqueza nos joelhos. – Você vai morrer se tentar me parar – Kratos não falou isso para intimidar o guerreiro minotauro; nada além da morte poderia ter esse efeito. Em vez disso, Kratos ouviu os ecos de sua voz, avaliando o tamanho do cômodo atrás da enorme criatura que ameaçava bater em sua cabeça até a transformar em pasta, se ele tolamente tentasse avançar. Ele ampliou sua postura e esperou pelo inevitável. O minotauro se apressou em sua direção. Kratos abaixou a cabeça, mas o minotauro foi mais rápido do que ele esperava e girou para trás dele. Com um salto, a criatura foi para o ar e apontou seu martelo diretamente para a cabeça do espartano, enquanto despencava. Kratos deu um salto mortal para a frente, e a marreta pesada passou perto de seu crânio. Ele talhou a criatura com as lâminas enquanto ela passava, mas infligiu apenas ferimentos superficiais. Ele se virou e a encarou; como antes, o guerreiro minotauro provou ser mais agressivo do que o usual – e os homenstouro em geral eram combatentes tenazes e temíveis em batalha. Evitando o golpe do martelo, Kratos mirava em qualquer alvo minúsculo que o minotauro deixasse sem proteção. Um pulso. A parte de trás de um joelho. As costelas. Um golpe de Kratos atingiu um chifre preto como ébano e causou uma rápida inclinação da cabeça. Não importava o quanto Kratos lutasse, ele não conseguia desferir um golpe mortal. Eles se moviam para frente e para trás, rolando, saltando e se esquivando. Aos poucos ele enfraqueceu o touro. Ele se esquivou de outro golpe do pesado martelo, pensando em escorregar para trás da guarda da criatura e cravar uma lâmina em seu intestino. Em vez disso, Kratos levou uma chifrada em seu braço. O sangue jorrou e a sua mão direita ficou dormente. As Lâminas do Caos deslizaram de suas mãos, deixando-o indefeso. Acreditando que essa era sua chance de acabar com a luta, o minotauro investiu, de cabeça baixa. O homem-touro percebeu que Kratos talvez não empunhasse as espadas forjadas no Hades, mas isso não significava que ele estava desarmado. Kratos evitou o ataque e envolveu seu braço esquerdo em volta do pescoço do touro. O minotauro tentou se erguer, balançou sua cabeça, e tentou atirar Kratos para o lado. Severamente, Kratos aguentou todas as investidas, sua mão encontrando um chifre ímpio. Ele jogou o braço direito sobre
o ombro inclinado do minotauro e puxou com força. Seu primeiro esforço só enfureceu a criatura. Longe de estar ferido, ele ainda tentou esmagá-lo com seu martelo. O esforço só fez o minotauro avariar a si mesmo. Kratos deixou o golpe do martelo de guerra encontrar o ombro da criatura e segurou a arma com sua outra mão. Agora, ambas as mãos eram funcionais. Com o braço direito em torno da garganta musculosa do touro, ele soltou o martelo e agarrou o chifre com mais força, arqueando suas costas para trás, em um esforço extremo. – Pelos deuses, morra, morra, morra! Kratos girou pelo ar e bateu contra uma parede distante. Ele ficou em pé, atordoado, mas pronto para continuar a luta. Mas não havia necessidade. Ele havia quebrado o pescoço do homem-touro com as próprias mãos. A criatura imensa estava deitada no chão, grunhindo deploravelmente em seus últimos momentos, antes de finalmente sucumbir à morte. Ofegante, Kratos passou por cima do cadáver e entrou na câmara. Ele olhou em volta, mas viu apenas uma outra saída, além do portal por onde havia entrado. Uma porta circular marcada com o tridente de Poseidon zombava dele. Kratos a empurrou. Ela não se moveu. Ele tentou rolá-la para o lado. Nenhum movimento. Então, ele deslizou os dedos por debaixo da porta de pedra e levantou-a. A porta subiu vagarosamente até que Kratos a manteve aberta até a altura de sua cintura. Soltando um grunhido para coordenar sua força, ele empurrou a porta para cima. Kratos rolou para a frente e a porta bateu de volta no lugar. Não havia nenhuma maneira de abri-la desse lado, uma vez que a porta tinha um entalhe de proteção, que a impedia de ser agarrada. Ele não se importou. Seu caminho estava à frente. Correndo pelo estreito túnel esculpido em profundidade na montanha, ele logo viu que a única luz vinha dos braseiros na extremidade da câmara. Quando entrou na sala grande, o brilho instantaneamente floresceu em um clarão ofuscante, mais brilhante que a Carruagem de Hélios ao meio-dia. Kratos protegeu os olhos com um braço até o brilho desaparecer o suficiente para que pudesse suportar olhar para a câmara. Imediatamente à frente havia uma porta grandiosa com o selo de Poseidon cravada nela. Na frente da insígnia brilhava um feixe de luz em meio a uma pedra. – O tridente de Poseidon – Kratos disse, olhando em volta enquanto avançava. Sua cautela salvou sua vida, conforme raios vermelhos varreram o quarto, compelindo-o para longe do tridente. Ao final de uma cambalhota, ele ficou de pé e encarou um espectro.
Ele alcançou suas costas para sacar as Lâminas do Caos, mas, em vez disso, acabou com a arma dada por Ártemis em suas mãos, com sua lâmina larga posicionada lateralmente, refletindo os raios vermelhos. Tudo tocado pela luz refletida do fantasma chamuscava. Sua carne ferveria de seus ossos se ele permanecesse olhando para a criatura por mais que um instante. Ele atacou com um grito de guerra capaz de congelar o sangue de qualquer inimigo. O espectro se contorceu, a névoa negra translúcida que compreendia a parte inferior de seu corpo arrastava-se atrás dele enquanto se movia. Kratos balançou a Espada de Ártemis no local onde o fantasma deveria estar, mas não onde realmente estava. A criatura emitiu um grito ensurdecedor de pura dor quando a espada da deusa cortou através da névoa de tinta que havia no lugar de suas pernas. Das profundezas dos olhos do fantasma brilhou a luz carmesim apavorante mais uma vez. Kratos girou, segurando a Espada de Ártemis no maior diâmetro possível. A lâmina pesada, de difícil manuseio, se tornou mais fina e se contorceu como uma cobra, enquanto, ao mesmo tempo, permanecia dura como metal. A ponta acertou o braço do espectro profundamente, fazendo com que a criatura gemesse de forma ainda mais fina e aguda, em plena agonia. Arrancando a espada da carne do fantasma, Kratos passou por debaixo de seu adversário. O fantasma desabou suspenso no ar e tentou evitar o seu golpe final. A Espada de Ártemis cortou o fantasma ao meio. Antes que os pedaços pudessem flutuar, Kratos movimentou a espada novamente e dividiu-os em partes ainda menores. Em seguida, um redemoinho de névoa pulou para a inexistência. Kratos olhou para a espada azul brilhante que empunhava e soube que essa era uma potente arma contra os inimigos tanto substanciais quanto etéreos. Ela lhe serviria bem na batalha contra Ares. Ele lançou um olhar rápido em torno da sala, mas não viu nada. Ele foi examinar o tridente encrustado no chão. O metal brilhante do eixo levou-o a apertar os olhos. Ele o tocou, esperando que alguma defesa o repelisse. Sua mão repousou no metal frio. Segurando-o, tentou puxá-lo para fora da rocha. A força que havia levantado as imensas portas de pedra não conseguiu tirar o tridente da rocha. Mesmo depois de posicionar seus pés um de cada lado e puxar com toda a sua força, o tridente não se moveu. Kratos soltou-o e continuou a explorar. O altar de Poseidon consistia em mais do que o selo enorme e o tridente. À direita, havia uma plataforma de pedra. Kratos avaliou o seu tamanho e andou o perímetro da sala, encontrando uma caixa escondida atrás de uma coluna que se ajustava perfeitamente ao contorno da plataforma de pedra. Kratos passou para o outro lado da caixa, abaixou-se e empurrou. A caixa deslizou facilmente pelo chão, mais e mais rápido, em direção à plataforma de
pedra perto do altar. Com um empurrão final, ele enviou a caixa deslizando sobre a plataforma de pedra. Uma brilhante luz amarela banhou a caixa por um momento, então seu peso fez o chão afundar sob ela. Kratos foi até o tridente e agarrou-o novamente. Ele puxou lentamente e, dessa vez, a peça deslizou da pedra, como se não fosse nada além de uma faca em um pedaço de queijo. Kratos, triunfante, segurou o tridente no ar e olhou para ele por um momento, então escorregou-o por trás das costas, onde repousou magicamente com os outros dons que recebeu dos deuses. Ele levantou sua mão direita e olhou para a cicatriz branca. Zeus o havia abençoado. Seus olhos subiram para o santuário de Poseidon, mas Kratos não tinha nenhum motivo para acreditar que o tridente da pedra havia sido outro presente do Deus do Oceano. – Obrigado, Senhor Zeus – disse ele. Em uma voz mais suave, no entanto, ele acrescentou – obrigado, Senhora Atena. Mas ele se perguntou se estar grato realmente seria adequado. Havia muitos perigos à frente. Kratos estendeu seus músculos doloridos, tensionou-os e relaxou-os para se preparar para o próximo desafio, fosse ele qual fosse. Kratos se dirigiu para a roda de pedra circular com o selo de Poseidon e colocou suas mãos sobre ele. Nenhum esforço foi capaz de movê-lo. Ele usou as Lâminas do Caos, mas elas estalavam inofensivamente soltando faíscas azuis pela câmara em volta dele. Assim que ele começou questionar se os deuses o protegiam ao menos um pouco, pegou o tridente de trás dos seus ombros. Ao nível de seus olhos, ele viu três pequenos buracos. Inclinando-se para frente, empurrou as pontas do tridente nos furos profundos e espaçados de forma exata. O portal enorme abriu-se com facilidade. Ele retirou o tridente, e o portal imediatamente começou a se fechar. Ele abaixou-se sob a porta pesada e correu para a margem de uma piscina circular que estava atrás da porta. Nada mais poderia sair do quarto anterior, e Kratos sabia que a porta não se abriria por esse lado. Todo o caminho no Templo de Pandora se tornara um único caminho: para a frente. Dessa vez, sua estrada só podia conduzi-lo para dentro da água cristalina da piscina. Ele ajoelhou-se e, em primeiro lugar, lavou o sangue que havia acumulado de suas muitas lutas, sombriamente satisfeito que a maior parte dele não vinha de si próprio. Ele se esticou e se flexionou novamente para avaliar se estava em completa capacidade de lutar. Muitas foram as vezes em que havia ido para a batalha em piores condições. Mas uma coisa o preocupou, quando ele mergulhou sua cabeça por baixo da superfície da água, e se esforçou para encontrar o fundo do poço. Nenhum homem poderia segurar a respiração tempo suficiente para chegar ao fundo, aparentemente ilimitado. Tudo o que ele podia fazer era explorar até chegar ao limite de sua capacidade pulmonar e, em seguida, avaliar a situação.
Ele sugou uma quantidade enorme de ar e, em seguida, mergulhou na água fria. Ele nadou para baixo, em movimentos largos, que o transportam cada vez mais profundamente. Uma luz fraca brilhava ao redor, permitindo que ele visse que as paredes do poço estavam gravadas com os mesmos símbolos misteriosos que vira ao longo de toda a sua jornada até então. Mais uma vez ele se perguntou se decifrá-los levaria a uma passagem mais fácil através das armadilhas no Templo de Pandora. Ele nadou ainda mais profundamente, até encontrar um túnel enorme que se encurvava longe de sua posição na piscina. Seus pulmões estavam começando a queimar um pouco. Ele soltou algumas bolhas que se formavam em suas narinas, deu uma arrancada e nadou rápido em direção à superfície distante. Kratos tentou estimar suas chances de continuar, com seus pulmões queimando cada vez mais pela falta de ar. Essa era uma decisão a ser tomada enquanto estivesse respirando gratamente o ar lá encima. Enquanto subia, percebeu que barras de ferro saíam das laterais do poço, fechando o seu diâmetro de passagem inteiramente. Ele acelerou, tentando passar pelas barras antes que elas prendessem-no debaixo d’água. Ele falhou. Na hora que ele atingiu as barras, elas haviam trancado ambos os lados do poço, deixando pequenos quadrados de abertura entre elas. Ele tentou uma arrancada para passar pelas aberturas. Suas mãos romperam a superfície da água, mas isso não o ajudou. Ele respirava pelo nariz, e não pelas pontas dos dedos! Tensionando-se, ele aplicou seu ombro nas barras, mas elas se recusaram a ceder. Kratos moveu-se para agarrar a borda do poço e ganhar mais impulso. Mais uma vez ele falhou. As barras de ferro eram indiferentes a sua força. Seus pulmões pareciam bexigas prontas para estourar. Ele soltou mais bolhas e viu como elas zombeteiramente explodiram logo acima de sua cabeça. As barras foram maleficamente colocadas para permitir ao nadador a promessa de segurança e, depois, negar terra firme por meros centímetros. Ele sacou as Lâminas do Caos e levou-as a girar em torno d’água. Mais bolhas foram liberadas de seus pulmões, o que não ajudou a aliviar a pressão crescente que ele sentia. Sua visão turvou, e um rugido do oceano soou em seus ouvidos. O rugido do oceano. O Deus do Mar. Poseidon. O tridente de Poseidon! Perto de sucumbir e inspirar água em seus pulmões, Kratos tateou por detrás dos ombros até que seus dedos sentiram o frio punho do tridente. Ele empunhou-o, pensando em usá-lo contra as barras de ferro. Seu fôlego explodiu de seus pulmões, e a morte corria para dentro sob a forma de água, destinada a afogá-lo.
Ele sentiu a investida da água clara em seus pulmões e o desconforto que vivenciava desapareceu. Sua visão voltou, possivelmente mais acentuada do que antes e não ofuscada pela água refratada. Ele sentiu seus pulmões se movendo de forma ritmada, inspirando e expelindo a água como se fosse um peixe. Ou o próprio Deus do Mar. O tridente lhe permitiu tornar-se um habitante do reino subaquático. Ele deu um impulso, empurrou e tentou deslocar as barras de sua posição, sem sucesso. Como tinha sido com os outros portais, uma vez fechado, ele não poderia voltar a se abrir, mas, com o tridente de Poseidon nas mãos, ele teria como proceder. Girando na água, ele se dirigiu para baixo. Kratos chutou com força e nadou em direção à parte inferior, seguindo a curvatura do túnel inundado tão facilmente quanto se suas sandálias andassem em terra firme. Movimentos vigorosos o conduziram pelo túnel até que ele chegou a outro poço. Ele parou no fundo, olhando para o alto. Uma pernada enviou-o em disparada para cima. Ele rebentou da água e pousou em um piso azulejado. Ao ficar de pé, pensou que fosse sufocar com o ar, agora que seus pulmões haviam se adaptado a respirar água. Quando ele guardou o tridente, tossiu, colocou um bocado de água para fora e então respirou o ar novamente. – É isso o que é ser um deus? – Kratos se perguntou em voz alta. Ele não tinha certeza de que queria usar o tridente de novo, mas sabia que não teria escolha, se fosse necessário para atingir seu objetivo. Essa câmara era pequena, pouco mais que uma antessala. Ele foi para o outro lado da sala, onde uma fenda estreita abria-se em um tipo de escorregador. Kratos ouviu barulhos estranhos, quase que gorjeios, misturados ao eco murmurante da água abaixo. Um teste rápido do piso inclinado confirmou sua suspeita. Se ele pisasse na inclinação, a superfície viscosa tornaria o retorno para a câmara impossível. Contudo, isso não era diferente de qualquer outra passagem dentro do templo. Mas e os sons? Eles atraíam e repeliam Kratos ao mesmo tempo. Não eram canções de sereias. Outra coisa o aguardava. Kratos avançou e escorregou para baixo. Ele aterrizou com força; em seguida, ajeitou o corpo, depois de ter despencado. Ele caiu na água e foi completamente engolido uma vez mais. Os gritos de caça das náiades encheram seus ouvidos. Em seguida, elas atacaram.
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