Dezesseis
Com as mãos sangrando e doloridas, Kratos finalmente chegou ao topo do lado montanhoso do Titã. Por três longos dias Kratos escalou, mas, no último dia, já não escalava Cronos; em vez disso, ele tentava chegar ao caminho que levava até a montanha acorrentada a ele. Kratos amarrou-se ao lado do Titã, algumas vezes, para cochilar, mas a maior parte do tempo da longa, muito longa, escalada havia realizado sem descansar de verdade. Pior foi a falta de comida e água enquanto subia, sempre para cima no vasto Titã. Quando começou, Kratos pensou que o Titã se movia lentamente, mas, quanto mais escalava, mais percebia que Cronos acelerava. Apesar de ele se arrastar sobre as mãos e os joelhos, cada movimento era tão grande que o deslocamento do ar quase derrubou Kratos, em mais de uma ocasião. O sopro do chifre havia convocado das profundezas do Deserto das Almas Perdidas esse grande Titã, seu rosto imortal desgastado pelo tempo e pelas areias, em curvas suaves de eterna tristeza. Uma montanha quase tão alta quanto ele repousava em suas poderosas costas. Por seu lábio superior, Kratos se arrastou, para se encontrar cara a cara com um abutre enorme, que estava alegremente rasgando o olho do cadáver de um soldado. Kratos franziu a testa. O que o soldado estaria fazendo ali? Kratos levantou-se para ter uma ideia mais completa da paisagem. A altura da montanha deveria deixá-lo ver a léguas de distância, se não fosse a permanente tempestade de areia do Deserto das Almas Perdidas. Mas ele estava mais interessado no que estava à mão. Não muito longe dali havia enormes blocos de arenito, um portão de bronze simplório e um portão de madeira na frente de um magnífico templo. As paredes poderiam ser de ouro sólido e a praça, pavimentada com diamantes; para todos os efeitos, Kratos não se importava. Kratos era indiferente à riqueza. Ele pegaria aquilo que o templo fora construído para proteger e seguiria seu caminho, para completar sua missão. Kratos reagiu instintivamente quando uma harpia traçou um longo e amplo arco, varrendo os céus acima. Ele empunhou as Lâminas do Caos e preparou-se para lutar, mas a criatura alada concluía a sua curva em direção ao templo. Ele correu para a frente. Kratos assistiu cautelosamente enquanto as harpias se reuniam em torno do Templo de Pandora, como morcegos ao redor de uma torre sineira. Abaixo delas, em algum tipo de plataforma grande de pedra, uma imensa fogueira ardia, e a fumaça que intoxicava o ar era densa e preta. Uma mudança no vento trouxe
a fumaça para o nariz de Kratos e ele reconheceu o cheiro. O combustível desse fogo eram cadáveres humanos. Escalar os últimos metros provou ser demais para ele. Ele teve de passar um tempo considerável procurando, antes de encontrar algum bloco de pedra que pudesse ser usado como escada. Após subir para o próximo nível, Kratos descobriu que o que queimava ali não era uma pira funerária, mas que, em vez disso, havia um grande caldeirão escaldante de bronze e pedra, cuja borda era duas vezes a altura de Kratos. Enquanto Kratos se aproximava, o grito áspero de uma harpia levou seus olhos para o céu, a tempo de ver a horrenda criatura abrir as garras e deixar cair outro cadáver, outro soldado, ao que parecia. A armadura de bronze brilhou brevemente no sol da tarde, então colidiu como um chocalho, quando seu portador atingiu o recipiente. – Esse será você um dia. Mais cedo ou mais tarde, esta é a minha aposta. Kratos girou e as lâminas encontraram suas mãos. Mancando na direção dele, usando um longo bastão como muleta, veio uma espécie de morto-vivo decrépito demais para empunhar uma espada ou foice. Sua cabeça era, em sua maior parte, um crânio exposto; um braço terminava em um toco esmigalhado de osso, e sua perna direita faltava-lhe abaixo do joelho. Um lado de suas costelas, que estavam desprotegidas da visão de Kratos, parecia hospedar órgãos, pulmões encouraçados e um coração negro, que pulsava tão lentamente quanto a criatura andava. O cajado sobre o qual se apoiava estava enegrecido pelas chamas e com a ponta tostada. Kratos fez uma careta para ele. Não sabia como lidar com um morto-vivo que não estivesse tentando matá-lo, muito menos com um que poderia realmente falar. – O que é você? – Uma vez eu fui um soldado. Agora... – ele indicou com a cabeça o caldeirão de fogo. – Eu cuido disso. De cima, veio a feroz batida de asas de uma harpia, que circulou e liberou outro corpo para cair no recipiente enorme. O olho dentro da cavidade do crânio parecia tremer como as chamas do caldeirão. – Todo mundo aqui acaba no fogo. Exceto eu. – Todos? – Kratos perguntou com uma carranca. – Há outros?
– Ainda vivos? Provavelmente não. Mas nunca se sabe. – Eu vim de uma distância considerável... – E você não está ficando mais próximo de seu objetivo. Não de verdade. Zeus escondeu a Caixa de Pandora neste templo vil de modo que nenhum mortal jamais pudesse reivindicar o seu poder. E, no entanto, ano após ano, eu abro o portão para mais e mais candidatos, e enfio mais e mais corpos no fogo. Com outro guincho, uma nova harpia apareceu. O monstro alado deixou cair um corpo aparentemente fresco no caldeirão, mas errou seu centro, e ele terminou estendido sobre a borda do recipiente. Em vez de descer para corrigir o seu erro, ela apenas gritou, aborrecida, antes de sair voando. Ela pegou uma corrente ascendente perto das pedras da montanha e circulou o céu, antes de desaparecer acima da cúpula do templo. O guardião do fogo cuspiu um catarro preto, em seguida, disse: – Aqui, me dê uma mão com isso. Ele guiou Kratos para o caldeirão e entregou o seu cajado para o espartano, apoiando o osso do braço contra o caldeirão escaldante para manter o equilíbrio. – Cutuque aquele vagabundo pra mim, por favor? Kratos usou o bastão para empurrar o corpo para o caldeirão, refletindo que pelo menos descobriu por que o cajado estava carbonizado em uma das pontas. – Você disse que você abre o portão.
– Ele se abre sob meu comando. – Então o faça. – No tempo certo, espartano. Você acha que pode conquistar o Templo dos Deuses? Isso nunca foi feito, sabe. Mais cedo ou mais tarde, as harpias vão trazer o que sobrou de você de volta para eu queimar. Se eu fosse você, iria embora agora. – Vou embora – Kratos disse –, quando eu tiver a Caixa. – Boa sorte para você – o morto-vivo decrépito riu. – Você quer água? Comida? Armadura? Não é muito, mas pode pegar o que quiser. – Por quê? – Por que lhe dar suprimentos? – o morto-vivo encolheu seus ombros
ossudos. – E por que não? Não é como se eu tivesse alguma utilidade para eles – com o osso do braço, ele apontou para suas entranhas, ou melhor, para a abertura irregular onde seu estômago, fígado e intestinos deveriam estar. – Abutres malditos tomaram minhas entranhas décadas atrás. – Onde está a comida? – Ali – a decrépita criatura disse. – Eu roubo dos corpos. – De quê? Para quê?
– Qualquer coisa que eles tiverem. Por diversão, principalmente. É a única parte interessante do meu trabalho. Nunca se sabe o que se vai encontrar. Kratos levantou um odre de água meio vazio. A água dentro cheirava a cabra. – Beba – disse a criatura. – E aqui está um pouco de carne decente. Praticamente nenhuma larva. Eu peguei-a de um corpo há apenas um dia. Ou dois? Cinco? Você perde o controle dos dias aqui. Um é muito parecido com o próximo, e ambos, amanhã e depois, são como todos os anteriores. Kratos bebeu a água e comeu o que pôde. Os vermes tinham um gosto melhor do que a carne que eles infestavam. Ele lambeu o pouco de gordura que havia em seus dedos e desejou mais. Ele bebeu a última parte do odre de água. O morto-vivo não parecia se incomodar. Por que deveria? Em seguida, ele vestiu a armadura de bronze da pilha. Quando Kratos terminou, franziu a testa para seu anfitrião. – Eu posso ver a sua curiosidade, não? Você quer saber a minha história. Perguntas, perguntas. É sempre a mesma coisa – disse o guardião do fogo. – Loucos em busca do poder e tolos procurando por glória. Eu sei. Eu sei muito bem. Como você pode ver pelo que sobrou de mim – ele indicou sua forma mutilada. – Eu não tive mais sorte do que o resto deles. Menos sorte, realmente. Pelo menos eles foram queimados, e suas almas liberadas ao Senhor do Mundo dos Mortos. Eu tenho... isso. Ele apontou o seu cajado, mostrando a área preenchida com os bens roubados e com o caldeirão de fogo enorme. – Você tentou conquistar o templo?
– Isso eu fiz, e sinto muito por isso agora. Eu fui o primeiro mortal a entrar no templo. E assim eu fui o primeiro a morrer. Como punição por minha presunção, Zeus me condenou a cuidar desse fogo e dos cadáveres para toda a
eternidade, ou até que a Caixa de Pandora seja tomada. O que é parecido o suficiente com uma eternidade, pois nenhum homem jamais adquirirá a Caixa. A criatura apontou para as portas altas e deu um suspiro assobiado. – O Arquiteto, o que construiu o templo, era um fanático. Ele viveu apenas para servir aos deuses e, por isso, teve a mesma recompensa que todos nós tivemos: uma eternidade de loucura. A lenda diz que ele ainda está vivo, ainda lá dentro, ainda tentando apaziguar os deuses que o abandonaram há séculos. Kratos se aproximou e ficou olhando para o fogo, onde os corpos chiavam e estouravam. – Eu posso ver a sua pergunta. Quantos corpos eu queimo por dia? Vai. Você pode perguntar. Tentei contar, nos primeiros anos, pelo menos. Eu desisti após o décimo ano. Cinco por dia? Uma dúzia? Eu sei de suas perguntas, eu as ouvi de todos os que chegaram aqui antes. Será que todos mataram as sereias no deserto e sopraram o chifre para chegar aqui? Será que eu fiz tudo isso? Kratos resmungou, olhou para o resto de homem e estudou as portas, buscando uma forma de abri-las. Se ele não pudesse, tentaria escalar as paredes ao lado das portas de bronze e madeira. Mas reconheceu que havia perigo nisso, pois as harpias voavam acima, olhando-o com avidez. – Você não deve pensar muito – disse o guardião do fogo. – Isso só vai torná-lo louco, mas, enfim, você está aqui, então já deve estar louco. A forma como ele riu alertou Kratos de algo mais. – Você está certo de me questionar. Eu sei o que aconteceu com você, porque você não questionou os deuses.
Um punhado de pavor oprimiu a coragem de Kratos. Ele fixou o olhar no guardião do fogo. – Eu sei que você é o Fantasma de Esparta – a órbita vazia brilhava como se o morto-vivo o encarasse atentamente. – Eu sei por que a sua pele é branca como as cinzas. Kratos avançou para a frente e agarrou o guardião do fogo pela garganta. – Seu trabalho é difícil para uma criatura que não tem uma mão e um pé. Imagine o quão difícil será quando você estiver sem cabeça. – Você não terá sorte em entrar no templo se o portão permanecer fechado – o aperto de Kratos não impediu a criatura de zombar em seu discurso. – Pense sobre isso, Fantasma de Esparta. Você pode arriscar se deixar levar pelo desejo
de sangue? Depois do que aconteceu da última vez?
Com um grunhido de frustração sem palavras, Kratos soltou o guardião do fogo rispidamente. Rindo, a criatura se levantou e pulou para pegar uma caveira do chão. Com velocidade e precisão surpreendentes para uma criatura tão decadente, o guardião do fogo atirou o crânio em uma pequena plataforma na parede acima. O crânio se quebrou contra a pedra, e o impacto perturbou um par de harpias. Elas agitaram-se ao redor de algum tipo de mecanismo no topo do maciço portão. Kratos não podia ver o que elas fizeram, mas logo o portão começou a se levantar lentamente, enquanto uma harpia em cada lado movia-se freneticamente para levantá-lo com toda a sua força. Os portões foram forçados para cima e travaram. – Vejo você em breve, Fantasma de Esparta! – o guardião do fogo gritou. – Eu o verei de novo, quando as harpias jogarem-no em meu caldeirão! Kratos caminhou até o portão sem olhar para trás.

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