sábado, 19 de maio de 2018

CRÔNICAS 57 : GOD OF WAR

Vinte e três

Elas eram tão transparentes quanto águas-vivas e moviam-se com a mesma graça confortável e sinuosa através da água. Kratos agarrou o tridente e se preparou para o ataque das náiades. Cada ondulação carregava as criaturas brilhantes em um amplo círculo em volta dele, um pouco além de seu alcance. Uma nadou graciosamente para mais perto e acenou para ele. Kratos iria começar a golpeála com o tridente, mas se conteve, incerto de que tipo de ameaça a náiade poderia representar, uma vez que não parecia estar armada. Ainda assim, como uma água-viva, ela poderia ter ferrões que poderiam liberar um doloroso, ou imediatamente fatal, veneno. Sua música encheu seus ouvidos. Ele não podia deixar de compará-la à canção das sereias do deserto, e percebeu o quão diferente era esse som. A náiade mais próxima nadou para um pouco mais perto, uma mão com dedos longos estendida para ele. Todo o seu treinamento, os anos como assassino de Ares, os anos de serviços prestados aos deuses, tudo em seu ser evidenciava morte e sangue. Um movimento simples do tridente iria acabar com a vida dessa criatura adorável. Kratos baixou o tridente e estendeu a mão para a náiade, que flutuava perto dele. Apesar de seu fino, quase amorfo, corpo aerodinâmico, perfeitamente adaptado a uma existência subaquática, ele viu tênues curvas sedutoras que sugeriam que a náiade era fêmea. Ele baixou o tridente ainda mais e estendeu a mão. Seus dedos roçaram-na. Kratos foi atirado para trás como se tivesse sido esfaqueado, mas não havia dor, somente a mágoa em sua mente e em sua memória. O toque era leve e encantador, nem um pouco doloroso. A náiade estendeu os braços. Deixando de lado sua desconfiança inata, Kratos arrancou sua armadura de bronze pesada e levou a criatura elegante em seus braços, para que seus corpos se comprimissem intimamente. Ele a beijou e, no fundo de sua mente, ouviu: – Você veio finalmente. Liberte-nos desta prisão de água e deixe-nos nadar livres nos oceanos, mais uma vez.
– Como? – Remova a Caixa de Pandora do templo e seremos livres. Nós vamos nadar os mares mais uma vez e honrá-lo como nosso salvador, se você fizer isso.
Kratos riu. O som da risada subaquática era esquisito e estranhamente musical aos seus ouvidos. Satisfazia a náiade, que sorriu e comprimiu seu corpo ainda mais contra o dele. Eles se beijaram novamente, e, dentro de sua mente, ele ouviu: – Pressione a alavanca, suba as escadas, mas não para a parte superior . Vá pela água para a esquerda e você será capaz de nos libertar.
– O que mais? Kratos beijou a náiade novamente e sentiu tanto um estímulo carnal quanto uma paz curiosa assentarem-se sobre ele. Ele poderia permanecer para sempre nesse mundo subaquático com elas, com ela. – Para o centro dos Anéis de Pandora, nade mais uma vez e entre no Hades.
A náiade estremeceu em seu abraço quando ela comunicou essas palavras a ele, então ela deu uma sacudidela em sua cauda e nadou para longe. Não importava como o tridente podia ajudá-lo debaixo d’água, não importava o quão forte ele fosse, Kratos sabia que nunca poderia alcançar a náiade que desaparecia rapidamente. Faltava-lhe a destreza e esse não era o seu mundo. Permanecer ali com a náiade não era sua missão. – Qual é o seu nome? Diga-me seu nome! – Suas palavras borbulharam, mas nenhuma resposta flutuou de volta na corrente para ele. Mais uma vez, ele se viu sozinho. Sozinho. Com chutes poderosos que agora pareciam insignificantes se comparados com os da náiade, ele nadou até localizar a boca de um poço acima. Ele emergiu e viu uma enorme estátua em honra à esposa de Poseidon no alto, mas, mais do que isso, uma alavanca sobre um pedestal, no outro lado da sala, chamou a sua atenção. A náiade tinha lhe falado sobre escadas, mas ele não viu nenhuma. A alavanca poderia ser a resposta para essa ausência. Ele foi até ela, aplicou uma quantidade considerável de pressão, e ficou maravilhado com a sensação de trabalhar no ar novamente, em vez de lutar contra ou usar a resistência eterna da água ao redor de seu corpo. A alavanca rachou, e um som ensurdecedor de pancadas preencheu a imensa câmara. Degraus feitos da melhor jade elevaramse do interior do quarto e guiavam diretamente para a estátua, o santuário de Anfitrite. Kratos saltou sobre a piscina e subiu os degraus, depois abrandou o passo e olhou à esquerda da escada, para dentro da água. A náiade tinha lhe dito para pular na piscina nesse momento. Kratos lambeu seus lábios, sentiu o gosto de sal e a memória da boca da náiade. Fazia muito, mas muito tempo, que ele não confiava em ninguém. Por que ele deveria acreditar em uma criatura subaquática que poderia conduzi-lo para a ruína? Ele decidiu mergulhar e atravessou a água pela esquerda, não se importando em usar o tridente. Várias pernadas rápidas levaram-no para o outro lado da piscina, onde havia uma gaiola. Sem hesitar, ele nadou para dentro do dispositivo e escutou os ruídos tinindo em seu redor, quando começou a ascender ligeiramente; a gaiola o elevou para cima da água mais uma vez. A sala parecia familiar, e quando ele olhou através do portal aberto, o rolo de pedra pesado
retumbou no corredor circular. A náiade havia dito que ele deveria voltar para os Anéis de Pandora. Que só podia significar os corredores anulares. Kratos agradeceu silenciosamente à náiade. Kratos ficou imediatamente preso, mais uma vez, em frente ao rolo, que girou e ameaçou esmagar a vida de seus ossos. Ele correu um pouco à frente do rolo, encontrou os degraus que levavam para cima e, dessa vez, quando chegou ao topo não olhou para o corredor, mas para dentro do núcleo aquoso. Antes ele não tinha visto o fundo da piscina, o que o havia estimulado a ir na direção oposta, mas agora possuía o tridente de Poseidon. A náiade o tinha dito para mergulhar. Tomando o tridente na mão, ele submergiu na água e deixou que a corrente forte o conduzisse sempre para baixo, até alcançar uma porta marcada com um crânio. Bater ferozmente na estrutura não produziu nenhum resultado. Kratos afastou-se e nadou alguma distância em um canal de travessia, à caça de um caminho diferente. Ele logo se encontrou no fundo de um poço novo. A luz acima tremeluzia e dançava como se os fogos do Hades queimassem lá. Novamente, a náiade tinha dito a verdade. Agora Kratos acrescentou um motivo a mais para obter a Caixa de Pandora: parar a destruição de Atenas, matar o Deus da Guerra e libertar a náiade e todas as suas irmãs, para que pudessem nadar sem restrições nos mares novamente, depois de um milênio de aprisionamento. Ele deu mais duas braçadas e atirou-se para fora da piscina, apoiou-se na borda, e virou-se para a abertura por onde vinham o calor e a luz intensa de lava escorrendo em bicas de pedra. Kratos se dirigiu ao portal e rapidamente avaliou toda a sala imensa. O teto arqueava a mais de uma centena de metros, com drenos de lava despejando as aquecidas rochas fundidas e nocivas respingando a seis metros acima de sua cabeça. Na extrema esquerda, erguia-se uma estátua em homenagem ao Senhor Hades, mas, à direita, ele viu um dispositivo mais curioso: uma balista montada sob uma passarela. Kratos encontrou uma escada, subiu e caminhou até uma alavanca de fogo. Num impulso, ele acionou a alavanca, sentiu a passarela tremer debaixo de seus pés, e então uma enorme bola de fogo explodiu ao colidir com o centro da estátua. Kratos agarrou suas armas quando viu um iluminado círculo giratório aparecer no chão, na base da estátua. As gravações que o tinham atormentado desde que ele entrou no Templo de Pandora pulsaram com luz azul, e, movendose para a arena, entre a passarela e o círculo giratório, vieram quatro centauros, cada um armado com uma lança. As Lâminas do Caos estavam confortáveis em suas mãos, mas ele sabia instintivamente que uma arma mais potente seria necessária. A Espada de Ártemis sussurrou e brilhou em seus punhos. Com um salto longo, ele caiu
agachado próximo aos centauros. Kratos reagiu imediatamente ao seu ataque, balançando a Espada de Ártemis para cortar as pernas do centauro líder. Um rápido movimento circular cortou a cabeça do monstro e fez uma chama azul ardente irromper em um dos pontos cardeais no padrão circular no chão. Ele capotou, rolou para o lado e esquivou-se de outra das criaturas geradas pelo Hades. Ele se levantou, balançando a arma que Ártemis lhe havia concedido com cutiladas poderosas que mantinham os três centauros restantes acuados. Mas esse não era o feitio do Fantasma de Esparta. Defender era morrer. Ele atacou. Com um grito louco, Kratos correu para frente, desferindo golpes de lâmina exatos e perigosos. Ele derrubou outro homem-cavalo, pulou em cima de seu corpo caído e cravou a espada em sua garganta. Um novo e diferente ponto de luz resplandeceu no padrão circular, o segundo antípoda ao primeiro. Os dois centauros remanescentes provaram-se mais cautelosos, ou menos confiantes, do que seus companheiros mortos, mas essa precaução não os salvaria dos ataques de Kratos, que girava, cortava e rasgava com a lâmina de fogo azul mágico. Quando ele enviou os dois centauros de volta para o Hades e iluminou os pontos finais sobre o anel giratório no chão, ouviu um barulho estrondoso. Portas de pedra se abriram para revelar mais um corredor iluminado com a luz vermelho-alaranjada do inferno. Um sentimento de urgência o compelia agora. Ele correu para as portas e, atravessando-as, não se preocupou em olhar para trás enquanto elas colidiam e se fechavam. O túnel era estreito, e ele rapidamente encontrou mais dispositivos do Arquiteto: alçapões no chão começaram a se abrir para mostrar poços de lava sulfurosa, antes de se fecharem com um estalido. Ele saltou essas armadilhas, só para encontrar-se quase empalado por dardos que irromperam das paredes. Kratos riu sem humor. Ele havia resistido a coisa muito pior para chegar a esse ponto. A ele não seria negada a Caixa de Pandora. Ele mataria o Deus da Guerra e teria seus pesadelos apagados pelos deuses para sempre. Ele correu pelos corredores sinuosos, assassinando espectros e matando legionários amaldiçoados, dificilmente desacelerando sua corrida desenfreada. Pela sua intuição, ele sabia que sua missão estava quase acabando. Apenas uma câmara a mais, outro adversário para exterminar e a Caixa de Pandora seria seu prêmio. O corredor levava a uma passarela, à metade do caminho para o teto abobadado, permitindo-lhe olhar para trás e visualizar o local onde havia disparado a balista no peito da estátua. Mas Kratos olhou para baixo e viu, saindo do poço de lava, uma cabeça, uma cabeça com chifres. Em seguida vieram os ombros e os braços cruzados feitos de um metal negro e opaco. Ele lançou as Lâminas do Caos, quando uma nova estátua do Senhor Hades subiu até a passarela, seu pescoço na altura certa para que ele saltasse sobre o monumento.
Kratos reuniu suas forças e saltou para tão longe quanto podia, e quase não alcançou a borda do ombro da estátua. Ele jogou os pés para a frente, balançando-se para tomar impulso, e rolou para a passarela. Uma alça se salientava ao lado do pescoço. Como um marinheiro girando um molinete, Kratos empurrou-a, girando a cabeça da estátua lentamente. Enquanto a rotacionava, a boca da estátua se abria e um feixe de luz amarela ofuscante atravessava a enorme sala. Kratos viu que a luz atingiu o outro lado sem efeito. Ele continuou pressionando a manivela, até que cabeça mudou de ângulo e o feixe brilhou totalmente em uma estátua queimada na outra extremidade da câmara. O local queimado começou a incandescer até se tornar um laranja efervescente. Depois, vermelho. Kratos levantou o braço para proteger os olhos quando a cor mudou para branco. Mesmo a essa distância, o calor foi suficiente para fazer o suor adornar seu peito. Com uma lufada contaminada com o cheiro de metal derretido, o peito da estátua se abriu. Kratos voltou ao chão e imediatamente enfrentou outra armadilha diabólica do Arquiteto. Bolas de rocha fundida foram vomitadas da abertura no peito, por onde ele deveria passar. O calor ameaçou chamuscar a sua pele branca como osso, mas ele não reduziu a velocidade. Fazer isso significaria a sua morte. Com os pés batendo contra o chão, ele correu tão rápido quanto podia, esquivando-se das esferas mortais enquanto elas tombavam. A menos de quinze metros do túnel, uma porta estampada com o rosto de Hades sorrindo maliciosamente se definiu na parede. Rolando e mergulhando, ele cruzou a trilha intermitente cheia de morte fundida e agarrou a parte inferior da porta. Da sua direita, veio outra pedra, trovejando diretamente contra ele. Com um puxão convulsivo, Kratos levantou a porta e rolou sob ela uma fração de segundo antes de a rocha esmagá-lo e queimá-lo. O túnel se estendia diante dele. A passos largos e seguros, ele partiu. Ele voltou ao piso da grande câmara, onde a rocha fundida escorria das paredes e iluminava o ambiente com um brilho estranho, mais adequado ao submundo do que a um templo. Seu aspecto era medonho, mas na outra extremidade da sala, guardando o caminho a seguir, ele viu o que devia ser a criatura mais mortal que ele já enfrentara. Blindado como um soldado, o minotauro se erguia a nove metros acima ele. Cada bufo produzia grossos pilares de fumaça preta e turva saindo de suas narinas, quando ele abriu sua boca, Kratos reagiu instantaneamente, girando para longe de um jorro de fogo do inferno que chamuscou suas costas e braços, apesar de sua rápida reação. Ele deu um salto mortal para a frente, sacou as Lâminas do Caos, e atacou. A criatura blindada, que parecia mais uma máquina do que algo vivo, ou
morto-vivo, moveu-se lentamente, dando a Kratos muitas oportunidades para golpeá-la. Pouco a pouco, o espartano lascou sua armadura, mas ele percebeu que isso não seria suficiente. A criatura era muito grande, muito vigorosa, e resistiu aos golpes mais selvagens que ele poderia liberar com sua arma. Depois de ter usado a Espada de Ártemis, Kratos soube que mesmo essa potente espada não seria suficiente. Ele rolou, evitando um enorme punho blindado que esmagou o chão e deixou cacos de pedra para trás. Ele o cortou com as suas espadas, mas não produziu nada, a não ser uma pequena fenda. O imenso minotauro levantou-se e a luz cegante disparou do gorjal que protegia seu pescoço. Onde quer que os raios atingissem as paredes de pedra, enormes buracos apareciam. O minotauro balançou sua cabeça, rugiu, e dirigiu ambas as mãos para baixo em uma tentativa de esmagar Kratos. O espartano estalou uma das lâminas em seu pulso coberto de ferro e rolou para a frente, atirando as Lâminas do Caos, como se fossem ganchos de escalada. Ele prendeu as pontas curvadas na armadura do minotauro e puxou, arrastando-se para cima da espinha do monstro. Oscilando no ar, ele enfiou os pés na coluna da criatura, em uma tentativa de enfraquecer os músculos de seu poderoso pescoço e empurrar a cabeça de modo a expor a garganta. A fera rugiu desafiadoramente e novamente bateu seus punhos contra o chão, fazendo Kratos voar. Ele aterrizou com as costas no solo. Olhando para cima, viu os olhos do blindado minotauro brilharem uma luz infernal. O bicho abriu a boca e expeliu um fogo mortal. Kratos rolou de bruços a tempo de evitar o sopro devastador. Nessa posição, atirou-se com as lâminas em movimentos giratórios. Ele selecionou o pulso esquerdo e conseguiu cortar as correntes que prendiam as luvas do minotauro. Era pouco, mas um começo. Kratos recuou, decidiu o que tinha de ser feito, e o fez. Ele atacou, levando a criatura a estender-se à sua altura máxima, deu uma cambalhota para o lado da câmara, encontrou o caminho até a passarela inferior e correu até a alavanca de controle da balista. A criatura rugiu e seus olhos brilharam em vermelho ardente em retaliação. Ele abriu a boca para vomitar mais chamas, e Kratos empurrou a alavanca para baixo, lançando um disparo da atiradeira diretamente no peito do monstro. A criatura ficou um pouco mais ereta, tocou o ponto onde Kratos tinha arrancado várias partes da sua armadura, gritou em fúria e investiu contra ele novamente. Kratos saltou para fora da passarela, bateu no chão de pedra dura, e deu um impulso para aumentar o poder de seu ataque arrasador. Dessa vez, ele cortou parte do pulso esquerdo do minotauro e foi recompensado com um urro ensurdecedor. Ele soube que a coisa podia ser ferida. O que significava que ela podia ser morta. Quando ele se adiantou para desferir outro corte, foi descuidado, suas investidas anteriores o tinham deixado com uma sensação de falsa confiança.
O punho direito blindado do minotauro bateu contra suas lâminas, enredando as correntes, e Kratos foi erguido. Pendurado pelas correntes fundidas em seus antebraços, Kratos estava impotente para atacar – ou fugir. Ele olhou para o ardor nos olhos do minotauro. O monstruoso homem-touro abriu sua boca como se quisesse mordê-lo, e Kratos viu o fogo dentro das entranhas da criatura crescer. Ele seria assado enquanto estivesse suspenso pelas correntes de suas espadas. Um empurrão para o lado o fez girar. Kratos impulsionou-se e girou no sentido oposto, então enrijeceu os poderosos músculos de seu abdôme para chutar com força. A ponta da sandália encontrou um ponto de apoio contra um pico saliente na armadura do minotauro. Ele se afastou quando a criatura do inferno liberou a chama escaldante de sua boca. Kratos envolveu as pernas ao redor da armadura e deu um puxão violento, movimentando-se para frente e para trás. As correntes estalaram e ele deslizou para a coluna do minotauro, lutando para não empalar-se nos pregos montados em todos os lugares. Kratos agarrou-se a um deles, parou de escorregar e imediatamente renovou seu ataque. Novamente as Lâminas do Caos serviram como ganchos, mas dessa vez elas penetraram a armadura e afundaram suas pontas na carne do homem-touro. O minotauro rugiu, suspendeu-se e tentou atirá-lo longe. Kratos insistiu com tenacidade, recusando-se a desistir, a morrer. Ele ficou de pé sob o monstro e puxou as correntes duramente, até que as lâminas se libertaram, trazendo com elas pedaços sangrentos do pescoço do minotauro. Pela maneira que a cabeça da criatura pendeu, a coisa estava enfraquecida. Segurando os punhos de suas espadas, Kratos saltou livre, picando a carne exposta do homem-touro em cada oportunidade possível. A mão esquerda, que estava desprotegida sem armadura, provou ser uma área excepcionalmente vulnerável. Ele deixou ferimentos profundos, se não mortais, em todo o comprimento de seu antebraço, antes de atingir o chão. O minotauro rugiu de frustração por suas feridas, e por ser incapaz de esmagar o Fantasma de Esparta. Ele bateu seus punhos em uma nova tentativa de transformá-lo em pasta de sangue, mas novamente errou por centímetros. Kratos investiu e cortou uma artéria do braço esquerdo do monstro. Enquanto o sangue jorrava, a criatura berrou, e a luz inflamou tanto no pescoço quanto nos olhos. Kratos notou que, cada vez que os raios mortais atingiam as vigas, menos dano era causado. Ele rolou, evitando outro furioso golpe de punho, e correu até a passarela mais uma vez. O minotauro expressava sua ira, batia as pernas no chão e presenteava Kratos com um alvo perfeito. Ele pressionou a alavanca, disparando a balista. O dardo enorme voou e acertou o minotauro no rosto, imobilizando o monstro à porta; que estremeceu com as dores mortais que torturavam o seu corpo monstruoso, com seu rugido estrondoso desaparecendo lentamente.
Kratos prendeu a respiração, esperando a porta se abrir, o que não aconteceu. O minotauro pendia sobre ela, guardando-a. Além do assobio da fonte de lava na mais alta distância da câmara, só havia silêncio. O último espasmo deixou o minotauro com uma aparência medonha, zombando de Kratos em sua morte. Sua raiva aumentou. Olhando ao redor, ele tentou encontrar uma nova munição da atiradeira, que não existia. Isso só alimentou sua raiva. O minotauro havia morrido sob o dardo pesado, e Kratos pensou em enviar outro através dele para derrubar a porta, mas era impossível. Puxando as Lâminas do Caos, ele pulou da passarela e avançou, o assobio mortal das espadas movendo-se no ar. Ele cortaria o minotauro em pedaços e depois talharia seu caminho através da porta. Ele não seria negado! Quando ele se aproximou, percebeu um novo perigo. Sangue escorria da cabeça rompida do homem-touro. Cada gota sibilava e queimava o chão de pedra. As piscinas de sangue negro se espalhavam, obrigando Kratos a saltar sobre elas. A cabeça chifruda relaxou para o lado e se libertou do dardo. O que tinha sido um gotejamento constante de sangue agora se tornou uma cachoeira. Kratos correu para a frente. Espartanos nunca recuavam! Ele estremeceu com o sangue respingando ácido em suas costas, braços e pernas. A dor incitou-o para a frente, até que ele bateu na porta próximo à perna do touro enorme. Ofegante, ele olhou para o corpo, que deslizava lentamente para a parte de baixo da porta, sem cabeça. Mais sangue de minotauro formou uma cascata, mas Kratos ignorou-o quando viu a situação da porta que bloqueava o seu progresso. A porta tinha uma rachadura onde a munição da balista tinha batido contra o minotauro. A esperança reluziu. Kratos levou ambas as lâminas para a fissura fina. Seus ombros vigorosos bradaram com o esforço enquanto ele tentava abrir a fresta. Em um primeiro momento, nada aconteceu. As espadas não se moveram e a fenda não se alargou. Seu mundo se resumiu à pressão que exercia com as lâminas e à cachoeira de sangue venenoso ao lado. Dor. Ardência. Seus músculos estavam a ponto de romper. Então Kratos soltou um grito de vitória. A fenda explodiu em todas as direções quando uma parte da porta quebrou como vidro, formando uma rachadura quase do tamanho de seu corpo maciço. Ele virou-se de lado, espremendo-se por entre a abertura, e caiu de joelhos do outro lado da porta para rolar para a frente, quando uma chuva torrencial de sangue do minotauro esguichou. Kratos se levantou e disparou pelo novo corredor, e o atravessou até chegar a um sarcófago correspondente ao que havia encontrado anteriormente. Um livro de pedra em um pedestal recordava a morte do segundo do filho do Arquiteto.
Com um grunhido selvagem, Kratos saltou para o topo do caixão, impulsionando a tampa, e arrancou a cabeça do corpo mumificado. Ele seguroua alto, mas, ao contrário da anterior, não pensou em atirá-la. Kratos encarou-a e soube o que fazer com o crânio, onde ele se encaixava, soube que era a chave para o Templo de Pandora. Refazendo seus passos em direção aos Anéis de Pandora, ele evitou o cilindro e mais uma vez atingiu o aro do núcleo cheio de água. Abaixo, ele havia encontrado uma porta que obstruía a sua jornada, uma porta com um crânio gravado na pedra. Kratos mergulhou, submergindo poderosamente na água, e inclinou-se na frente do portal. Pressionar a cabeça no contorno da porta fez com que a água fosse drenada por todos os lados. O nível da água na piscina central desceu rapidamente, permitindo que ele abrisse a porta. Atrás da porta havia um elevador. Ele entrou, e a gaiola caiu em uma velocidade de tirar o fôlego. A parada súbita pôs Kratos de joelhos, mas, quando a porta se abriu, ele sabia onde estava. Ele saiu para reivindicar a Caixa de Pandora.


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