Trinta e um
Rápido como era o raio, pareceu a Kratos que ele estava rastejando através de um tipo espesso de melado. O intervalo entre o lançamento do relâmpago e o atingir o seu alvo estendeu-se mais do que toda a vida de Kratos. Ele não esperou para vê-lo acertar. Se ele errasse, estaria morto de qualquer maneira, sendo assim, ele se colocou em uma posição que poderia aproveitar melhor o seu sucesso. No instante em que suas mãos ficaram livres, ele mergulhou para a borda do teto do templo, pegou uma escultura ornamental, e chutou-a na direção da estátua de Atena, rumando para o nível do solo. Ele ainda estava no ar quando o raio atingiu seu alvo. Ares, ainda gritando seu desafio a Zeus, nunca predisse o que iria acontecer. Seu primeiro indício sugestão foi um choque que ferroou sua mão direita e, no momento seguinte, ele não sentiu mais o peso da Caixa de Pandora. O relâmpago tinha atingido seu alvo e feito o seu trabalho, rompendo a corrente que unia a Caixa à mão do deus. – O quê? – Ares olhou fixamente para o punho como se ele tivesse, de alguma forma, traído-lhe. – O que você fez?
Do punho erguido de Ares para o chão abaixo havia uma centena de metros. Kratos calculou onde a arca iria pousar e correu para o local com toda sua velocidade. Seu palpite foi bom. A caixa caiu em uma pilha de entulho poucos passos a sua frente, e ele correu na sua direção antes que Ares entendesse o que tinha acontecido. Alcançando-a, Kratos agarrou a tampa e empurrou-a tão forte quanto podia. Ao contrário de sua tentativa no Templo de Pandora, a tampa deslizou sem esforço, quase como se a Caixa quisesse ser aberta por ele. Entre as ruínas do Templo de Atena, Kratos de Esparta tinha aberto a Caixa de Pandora, pela primeira vez desde que foi escondida no templo nas costas de Cronos, um milênio atrás. Kratos escalou os escombros e ficou à margem da arca, olhando para o seu brilho quente e ensolarado. O que estava dentro também brilhou intensamente para os olhos de Kratos. Ele experimentou um terrível instante de vertigem, como se estivesse prestes a mergulhar de cabeça em um buraco mais profundo que o universo. Mas quando a vertigem passou, todo o seu corpo estava aquecido com a luz. E a Caixa pareceu encolher-se, diminuindo ao tamanho de uma caixa de joias. Kratos gritou quando o poder submergiu em seu corpo, encheu sua alma... e
muito mais. Seus braços se ergueram acima de sua cabeça, e faíscas minúsculas dançavam entre os dedos abertos. Ele nunca tinha imaginado tal poder. Era esse o poder e a sensação semelhantes aos de um deus? Em seguida, Kratos olhou para o Deus da Guerra e descobriu que não fora a Caixa que tinha encolhido. Ele tinha crescido. Antes, Kratos tinha uma altura que batia no tálus de Ares, agora ele olhava o deus bem no meio dos olhos. E, naqueles olhos, ele viu uma centelha de medo. Ares afugentou seu horror com fúria altaneira. Seu rosto torcia-se em um sorriso desdenhoso. – Você ainda é apenas um mortal, tão fraco quanto no dia que você me pediu para salvar sua vida. – Eu não sou o homem que você tomou naquele dia. – Kratos se endireitou e, quando ele falou, sua voz também abalou a montanha. – Por dez anos eu esperei. Nesta noite, você morre.
O escárnio de Ares expandiu-se em riso sombrio. – Atena deixou-o fraco.
Kratos abaixou-se em posição de luta. – Forte o suficiente para matar você! – Nunca! – O deus abriu os braços, como se acolhesse a chegada de seu filho favorito. – Dê meus cumprimentos a sua família.
Em vez de começar a guerrear com Kratos, o deus liberou um poder escuro e sobrenatural que banhou Kratos, e o invadiu, apoderando-se de sua mente completamente. O templo, a montanha, Atenas, e o próprio Deus foram todos apagados diante dos olhos de Kratos, substituídos por uma aldeia em chamas. Ele caiu de joelhos. Ele conhecia esse lugar terrível. Ele tolerava-o todas as noites em seus sonhos, em visões que torturavam seus dias e preenchiam cada instante de sua vida. Um riso zombeteiro soou em seus ouvidos. – Eu lhe ensinei muitas maneiras de matar , Kratos. Carne queimada, ossos quebrados, mas romper o espírito de um homem é verdadeiramente destruí-lo.
Rosnando com uma raiva sem palavras e com negação, Kratos ficou de pé. Ele cambaleou através das chamas em frente ao templo na vila onde ele havia assassinado sua esposa e filha. – Você reconhece esse lugar , Espartano? Talvez você possa desfazer seu crime. Se você me implorar por misericórdia, eu posso deixá-lo paralisar seus assassinatos.
Kratos entrou pela porta do templo. Sua esposa, sua filha, vivas e ilesas, estavam diante dele como a resposta para todas as orações que ele fez a todos os deuses. Ele tentou falar, mas nenhuma palavra conseguia romper o domínio da emoção que fechava a sua garganta. Cada pesadelo durante essa década terrível de tormento girava em torno dele, manchando um ao outro, e tomando forma física diante de seus olhos. – Kratos? – Sua esposa disse, incerta, protegendo os olhos contra as chamas atrás das costas dele. – O que está acontecendo? Onde estamos? – Papai! – Sua filha se jogou em direção a ele, mas sua mãe agarrou o braço da menina e segurou-a de volta. A única vez em sua vida que Kratos tinha sentido um golpe tão poderoso e mortífero em sua alma foi quando a coluna lançada por Ares o fixou na porta do Templo de Pandora. – Pelos deuses, pode isso ser real?
– Kratos? – Disse a esposa. – Você veio nos levar para casa? A parede do templo, cintilando de repente brilhou como se já não fosse uma coisa inteiramente material, e por trás desse brilho veio... Kratos. Seu eu mais jovem, o Kratos da década passada, veio caminhando no templo para matar tudo o que se movia. * * * ELE SE COLOCOU entre sua família e seu eu mais jovem. Seu eu mais jovem veio para cima dele com um estilo resoluto e eficiente que tinha sido sua marca registrada. Cada passo era um golpe. Cada golpe era um passo. Sua versão mais jovem era mais rápida e mais forte do que Kratos era agora, mas força e velocidade nunca foram os únicos elementos de vitória. O ar chiou com a música das Lâminas do Caos. Na medida em que elas brilhavam ao seu redor, abrindo pequenos cortes em todo o corpo, Kratos
descobriu que ele não gostava de estar deste lado das lâminas. No próximo chicotear de armas do jovem Kratos através do ar, o velho Kratos entrou na cama de gato das lâminas e segurou uma pela corrente. Seu calor queimava suas mãos, mas ele não se incomodou. Ele estava acostumado à dor. Para ganhar de volta sua família, ele suportaria tudo. Ele agarrou o punho da lâmina e puxou com todo o seu poder. Sua força atirou o jovem Kratos no ar, mas o seu eu mais novo foi tão ágil quanto ele tinha sido. Em vez de cair, impotente, o jovem Kratos inverteu a direção do seu voo em um ataque súbito, a outra lâmina pronta para matar. A ação do velho Kratos deve ter sido um considerável choque para o jovem Kratos quando seu braço foi cortado na altura do cotovelo, de modo que sua mão, lâmina, e corrente caíram inofensivamente no chão. O velho Kratos misericordiosamente poupou-lhe de qualquer choque adicional dividindo-lhe o crânio em duas partes. – Você está vendo, Ares? Você tomou-as uma vez. Eu nunca vou perdê-las de novo! Como se em resposta, manchas nas paredes do templo brilharam novamente. Três delas. De cada uma, um jovem, forte e novo Kratos espreitou à frente. Kratos amaldiçoou Ares enquanto balançava as Lâminas do Caos contra trio de si mesmo. – Um de cada vez teria sido fácil demais. À medida em que os três avançavam sobre sua família, Kratos sentiu o retorno de sua incontrolável fúria sangrenta, alimentada pelas familiares Lâminas do Caos em seu punho. Kratos investiu contra eles sem hesitação, atacando dois de uma só vez. O terceiro aproveitou essa oportunidade para flanquear Kratos e matar sua família, mas descobriu, horrorizado, que seu ataque tinha sido antecipado. E contraatacado. O sangue derramou de seu pescoço cortado, enquanto sua cabeça rolou no chão. Essas duplicatas eram mais jovens e mais fortes, mas elas lutavam com a mesma ferocidade sedenta de sangue que tinha levado Kratos a cometer o pior de seus crimes. O velho Kratos lutava para controlar essa fúria sangrenta, e já não era uma estúpida máquina de matar. Como sua esposa queria, ele se livrou da necessidade de ver sangue derramado, substituindo pela luta por honra e família. Dentro de dez segundos, todas as duplicatas restantes estavam mortas diante dele.
Kratos ficou diante deles, ofegando asperamente, sangrando de dezenas de cortes. Esperando. – Kratos, por favor, eu não sei onde estamos – Chorou a sua esposa. – Levenos para casa. – Em breve, eu espero – Kratos disse suavemente. – Ainda há trabalho a fazer por aqui. Desta vez, eram cinco. Eles tiveram o mesmo destino que os outros. – Você nunca vai tomá-las, Ares. Envie dez de mim. Envie mil. Eu vou matar todos eles. Nenhum deles vai tocar a minha família. As chamas do templo falaram-lhe com a voz de Ares. – Você abriu mão delas em sua busca por poder absoluto. Há um preço a se pagar por tudo o que você ganha.
– Não este preço. Nunca. – Nenhum preço é demasiado elevado para o que eu lhe ofereci, idiota! Você se atreveu a rejeitar um deus! – A voz do fogo se suavizou em uma malícia sedutora. – Aqui está o preço de tal ato tolo.
– Eu não me importo. – Kratos levantou as Lâminas do Caos. – Eu estou pronto. – Está?
As Lâminas do Caos ganharam vida em suas mãos, movendo-se com vontade própria. Era como se elas tivessem tomado os pulsos de Kratos em um apertão indestrutível. E elas começaram a se arrastar para sua família. – Não – ele gritou. – De novo, não! Ele tentou soltar as Lâminas do Caos, lançá-las para longe, mas elas estavam soldadas às suas mãos. As correntes em seus braços queimavam com uma fúria que turvava a sua visão com uma dor de rasgar a alma. Então, as lâminas o controlavam, não o contrário. – De novo, não!
As lâminas subiram. As lâminas desceram. E, mais uma vez, agora, dez anos depois, Kratos se punha de pé sobre os corpos de sua esposa e filha. Assassinadas pelo Deus da Guerra. – Você deveria ter se unido a mim.
Kratos gritou e caiu de joelhos. Este grito não era de terror ou arrependimento; não era a tristeza que afrouxava suas pernas. Era raiva. As chamas em seu coração ardiam mais quente do que as Lâminas do Caos jamais poderiam. – Você devia ter sido mais forte.
Kratos só conseguia uivar com uma cólera incoerente. – Agora você não terá nenhum poder. Nenhuma mágica. Nenhuma arma.
Mãos invisíveis agarraram as lâminas e puxaram-nas de sua aderência. Elas ficaram cada vez mais longe uma da outra, como uma manivela que afastava e estendia os braços de Kratos, quase rompendo-os, mais e mais, até que seus ombros gritaram de dor, como se os braços fossem rasgar fora do corpo. Ao final, sua carne desistiu antes que suas articulações o fizessem. As correntes estavam livres, triturando os braços com a sua retirada, deixando os enegrecidos rasgos soltando fumaça. – Tudo o que resta para você é... morte!
Com essa última palavra do Deus da Guerra, o templo queimando desapareceu em torno de Kratos. Kratos ajoelhou-se sobre os escombros da noite envolta pelo estilhaçado Templo de Atena, no topo de sua montanha sagrada, acima de sua arruinada cidade. Uma única lágrima arrastou-se pela sua bochecha e caiu no acúmulo de pedras na alvenaria quebrada. Ele levantou uma mão, contemplando o danificado e carbonizado antebraço, e virou-se em direção ao templo, como se inspecionando o quanto ele superava em tamanho a grande estátua de Atena. Quando olhou para cima, seus olhos estavam secos. Ares encarou-o através da ruína. Ele se inclinou sobre sua espada vermelho efervescente como se fosse uma bengala.
– Sem magia? – O rosnado do Kratos do tamanho de um deus retumbou pela cidade, aumentando os ecos das montanhas distantes. – Eu tenho magia suficiente. – Você ainda é um mortal, inútil e fraco – zombou Ares. – Há uma mulher morta no chão do templo. Ela disse que eu sou um monstro, e ela não estava errada. – Kratos levantou-se. Ele balançou as torções para fora de seus membros, enviando gotas de seu sangue voando em todas as direções. – Eu sou o seu monstro, Ares, e eu vim para lhe matar.
Ares soltou uma gargalhada. Então a fúria de Ares entrou em erupção, em uma explosão de chamas e um estrondoso urro, como um milhão de soldados berrando seus gritos de guerra em uníssono. Ele levantou a grande espada sobre sua cabeça. – Lute! – Ele rugiu. – Se você ousar!
Ares veio galopando pelo cume da montanha, cada passo fazia a pedra tremer e quebrava o templo em pedaços. Kratos assistiu-o como um leão à espreita. E a verdadeira peleja, enfim, começou. * * * ATENA ASSISTIA À LUTA mostrada pela piscina de vidência diante do trono do Olimpo, Zeus a seu lado, seu coração batendo até que ela mal pudesse respirar. Era mais do que a ansiedade por seu plano ter alcançado o clímax de uma década. Surpreendentemente, ela estava preocupada com Kratos!
Embora ela mal pudesse acreditar, de alguma forma ela tinha começado a se importar com esse grosseiro mortal homicida. Quando Kratos se deparou com a investida de Ares, lançando um punhado de prédios como areia nos olhos do deus, ela prendeu a respiração. Quando Kratos escorregou de lado para evitar os golpes cegos da espada de Ares e levou o Deus da Guerra para o chão, ela arfou. Kratos extraiu uma rocha da base da montanha que deveria pesar toneladas; agora ele estava tentando transformar o cérebro de Ares em pudim de sangue, e Atena se viu de pé sem lembrar de ter se levantado. – Isso sim é uma luta! – Zeus exclamou.
Seus olhos dançavam, e não havia cor no alto de suas bochechas. Relâmpagos minúsculos mostravam-se em sua barba de nuvens. – Nada dessa coisa moderna de ficar saltitando, com espadas e escudos o tempo todo. Essa é a maneira como uma peleja costumava ser.
O Rei do Olimpo deslocou-se para uma posição mais confortável à beira da piscina de vidência. – Kratos pondera bem em seu... julgamento, e faz toda a humanidade parecer mais esperta. Você pode imaginar o que deve estar passando pela cabeça de Ares agora? Atena viu-se apertando os punhos e contraindo os ombros como se ela pudesse, de alguma forma, ajudar Kratos a ganhar. Quando Ares chutou-o e ele conseguiu ficar de pé, ela não conseguiu respirar novamente. O Espartano, porém, sem hesitação, jogou-se de volta para a luta. – Esse menino Espartano significa muito para você, não é? Ela contraiu os músculos com a pergunta e depois corou de vergonha por ser tão transparente. – É claro – disse ela, forçando um véu de calma para cobrir sua ansiedade. – Como você cuida de suas águias, pai. Fico na expectativa da sua saúde, e torço por sua felicidade. – Se ele cuidar de Ares, pelo menos não terá mais de se preocupar com sua maldição por ter matado parentes. Se ele derrotar Ares, seus crimes serão perdoados. Eu decretei que seria assim. – É tudo o que ele espera – Atena disse. – Com o perdão, a sua loucura, as visões, os pesadelos vão finalmente acabar. Zeus olhou de soslaio. – Quem lhe falou sobre seus pesadelos? Ela olhou para seu pai. Um choque de pavor percorreu seu coração e expandiu-se para seus membros. – Pai, o fim dos seus pesadelos... é por isso ele vem trabalhando todos esses anos! – E para vingar a morte de sua família – Zeus apontou. – O que ele parece estar prestes a fazer, pelo jeito que as coisas estão indo. – A vingança é apenas uma parte da sua jornada. – Ela insistiu. – Para que serve o perdão? Ele não precisa ter seus pecados lavados, ele precisa de uma noite de sono decente! – Talvez – Zeus disse. – Mas o que ele precisa e o que merece não são a mesma coisa.
– Pai, você não pode balançar essa esperança na frente dele para ganhar dez anos de serviço e depois arrancá-la fora! – Eu não balancei, como você diz, nada. O que quer que tenham pechinchado entre vocês dois não é da minha conta. Há mais importância nessa luta do que você imagina. Atena só podia sentar e ficar boquiaberta. Zeus ergueu-se, e toda a sua zombaria alegre e prática de jogos insignificantes desvaneceu. A majestade da realeza radiante brilhou em seu rosto como o próprio sol. – Não há crime pior do que derramar o sangue de sua própria família. Eu suporto a maldição desse ato em mim. É um crime que pode ser justificado, talvez, pelo fato de que eu agi para me defender e salvar a todos vocês, mas ainda assim estarei manchado para sempre com a maldição do meu crime. Kratos agiu por simples frenesi de sangue. Isso nunca pode ser alterado. – Ele não é responsável por isso.
– Sua culpa será purificada. Mas, ainda assim, ele é o responsável. O que quer que ele tenha feito não pode ser desfeito. Um ato tão vil pode ser expiado, algum dia. Mesmo perdoado. Mas nunca poderá ser esquecido. Ele deve encontrar paz a sua própria maneira. – Mas, Pai... – Acalme-se, filha. Não tema pelo seu espartano. Eu vou cuidar de Kratos por você. – Ele acenou com a cabeça na direção da piscina de vidência. – Olha lá: Ares, no entanto, pode matar Kratos. Então, nós não teríamos um problema com isso, não é? – Você acha que Ares vai ganhar?
– Ele parece ter a vantagem no momento... * * * KRATOS E ARES ESTAVAM em uma briga mano a mano, peito a peito, rosnando e rasgando um ao outro como ursos enfurecidos. Kratos tinha mantido toda a luta dentro do alcance de um agarrão, de modo que Ares nunca chegou à distância suficiente para usar sua arma de forma eficaz. Ele manteve uma mão apertada no pulso da espada do deus, e a outra forçando sob o queixo de Ares, rechaçando sua cabeça para trás. As chamas da barba do deus enchiam de pústulas as mãos de Kratos, mas ele tinha se acostumado a tal dor por conta dos longos anos empunhando as Lâminas do Caos.
Ares rosnou obscenidades através de seus dentes cerrados quando ele socou, com a mão livre, o rim de Kratos, de novo e de novo. Uma dormência se espalhou, dobrando o joelho do Espartano. Sentindo suas articulações cederem, Kratos, como qualquer espartano teria feito, usou o que lhe foi dado. Se ele não conseguisse ficar totalmente de pé, ainda poderia espancar a virilha de Ares. Para cada soco que o deus dava, ele também levava uma joelhada nos testículos, até que, ainda que por meio do brilho de seu cabelo e barba, seu rosto começou a mostrar dor. Kratos desistiu de empurrar o queixo do deus para golpear com o cotovelo a lateral da cabeça de Ares, abalando o já enfraquecido deus. À medida que Ares perdeu o equilíbrio, Kratos mergulhou para a esquerda, usando o aperto no pulso do deus para fazer a mão que empunhava a espada receber o impacto pleno de ambos os seus pesos, dele e de Ares, quando caíram de lado para o chão. O punho de Ares quebrou o leito de rocha onde ele o atingiu, e a pedra fez o mesmo com os nós de seus dedos. Kratos colocou seu joelho entre a pedra e o deus e chutou Ares longe dele, enquanto torcia a espada das suas mãos. Ares levantou-se, arrastando-se como um bêbado e segurando sua mão quebrada. Kratos rolou suavemente e cortou o ar com um floreio desfocado da espada de Ares. A pele dos lábios do espartano descascou com seus dentes. – O que acha do seu monstro agora?
Ares endireitou-se e deixou sua mão ferida assentar ao seu lado. Seu sorriso feroz de predador era um espelho quase exato da expressão de Kratos. – Você não tem ideia do que é um verdadeiro monstro, pequenino espartano. Você aprenderá essa lição.
Ares curvou-se, e seu rosto enegreceu com a tensão. Explodindo através da armadura impenetrável nas suas costas, vieram apêndices articulados, contorcendo-se como as pernas dos escorpiões aterrorizantes, blindados com rocha preta, cujas pontas tinham mais lâminas do que o Pártenon tinha colunas. – E você não vai viver para precisar de outra.
Com o barulho de seus membros laminados, Ares surgiu como uma aranhalobo, cada objeto cortante angulado para beber profundamente o sangue do Espartano. Kratos recuou. Esse era um inimigo que nunca tinha imaginado. Ares saltou, apunhalando com suas lâminas de escorpião em conjunto, em um sequência complexa, impossível para Kratos contra-atacar. O espartano continuou
recuando, desviando furiosamente, cortando os membros quando podia, mas seus escudos negros não eram menos impenetráveis do que a armadura mística do deus. Mas aquela armadura mística, Kratos observou, não cobria todo o corpo do Deus da Guerra... Na próxima vez que Ares adiantou-se contra ele, Kratos deu o bote e enfiou dez metros da grande espada vermelha quente na parte interna da coxa do deus. Em um mortal, esse teria sido um golpe final; cortar a grande artéria na coxa faria um homem sangrar em segundos. O sangue do deus, negro e grudento, saiu gotejando da ferida, mas o único efeito real que o ataque pareceu ter causado era que Ares, agora, usava os membros das lâminas para levantar seu corpo do chão. Assim como eles tinham servido-lhe como um braço da espada, agora serviam-lhe como pernas. Ele investiu contra Kratos novamente, e novamente. Kratos foi para trás, tentando circular, procurando por qualquer abertura no entrelaçamento confuso de morte dos membros de seu oponente. – um local mais vulnerável no qual ele pudesse golpear a carne do deus. Ele estava se cansando mais rapidamente agora. Sem as Lâminas do Caos para alimentá-lo de energia vital, suas feridas permaneceram abertas e derramaram a sua força nas lajes do pátio. Por um breve momento, ele realmente pensou que iria perder... mas, naquele instante, os rostos de sua esposa e de sua filha emergiram dentro de sua mente e inflamaram-no com uma fúria diferente daquela que ele conhecia. Toda sua força voltou para ele, e mais. Ares veio em sua direção. Kratos esmagou uma das facas do membro com tanta força que a lâmina atingiu um membro vizinho. E rachou sua armadura. Kratos demonstrou surpresa quando um líquido de obsidiana vazou da rachadura. Uma fraqueza?
Ares recuou, sua confiança foi abalada por um momento, mas, em seguida, se preparou para outro ataque. Vamos acabar com isso, Kratos pensou. Ele deixou seus joelhos se dobrarem, para que eles balançassem oscilantes, e deixassem que a espada se inclinasse para fora da posição de ataque. Quando a ponta raspou no pátio de pedra, os dedos se abriram calmamente, e a espada tiniu no chão. Vendo tal fraqueza, Ares saltou no ar, caindo sobre Kratos para empalá-lo com duas lâminas de uma só vez. Mas, quando o Deus da Guerra saltou, a fragilidade de Kratos desapareceu e ele se levantou em um pulo para encontrar Ares no ar. Suas mãos se fecharam em torno da junta de um membro de lâmina, e ele torceu e se inclinou com irresistível força, emperrando a ponta de agulha através da couraça de Ares,
para dentro do peito do deus. Ares contraiu-se, e eles caíram. E Kratos puxou violentamente o seu peso para cair em cima do deus, deixando que seu peso conduzisse a lâmina totalmente no peito de Ares e saísse em suas costas. Com um rugido que era mais de indignação do que de dor, Ares arremessou Kratos para longe e caiu com os pés no chão, olhando para a imensa lâmina encravada em seu peito com uma espécie de perplexidade. Kratos lembrava-se muito bem dessa expressão, era exatamente a maneira como ele olhou para a coluna com que Ares o tinha lanceado ao Templo de Pandora. Ares caiu de joelhos. Kratos levantou-se e recuperou a espada do deus. Ares olhou para ele, em seus olhos havia medo e súplica. – Kratos... Kratos, lembre-se... fui eu quem o salvou em sua hora de maior necessidade!
Kratos levantou a espada. – Naquela noite... Kratos, por favor ... Naquela noite eu estava tentando apenas torná-lo um grande guerreiro!
Kratos empurrou própria espada de Ares no peito do deus. Enquanto ele mancava para longe do cadáver do deus, o corpo sem vida começou a piscar com luzes miríades. As luzes se transformaram em partículas de dança que afastaram-se do cadáver e rodopiaram para cima, para o céu, até que, com um clarão ofuscante e um trovão como o fim do mundo, nada de Ares permaneceu. Kratos estava exaurido e sangrando, e era, mais uma vez, apenas um homem. Ele olhou maravilhado para a enorme lâmina que alguns momentos atrás empunhou de forma tão leve. Agora, ele não era a metade da altura que o ponto mais estreito da lâmina. Ele mancou de volta para as paredes quebradas do templo em ruínas, ficando diante da estátua da deusa. – Atena – disse ele –, a cidade está salva. Ares está morto. – Ele olhou atento para os olhos de mármore branco. – Eu já fiz a minha parte. Agora, faça a sua. Limpe esses pesadelos para sempre. O brilho cintilante de divindade imanente tocou o mármore. Os olhos se ascenderam, e os lábios se moveriam quando Atena falou.
– Você fez bem, Kratos – a estátua disse. – Embora lamentemos a morte de nosso irmão, os deuses estão em dívida com você.
Kratos ficou um pouco mais reto. Um calafrio escuro escoava em suas veias. – Prometemos que seus pecados seriam perdoados, e assim será. Mas nós nunca prometemos apagar seus pesadelos. Nenhum homem, nenhum deus, jamais poderia esquecer os atos terríveis que você cometeu. – Você não pode Atena, eu fiz tudo que você pediu! Você não pode! – Adeus, Kratos. Seu serviço aos deuses chegou ao fim. Vá adiante em sua nova vida, e saiba que você ganhou a gratidão do Olimpo!
O brilho da deusa desapareceu. Kratos estava sozinho no templo em ruínas, acima do despedaçado remanescente da cidade. Ele ficou lá por um longo, longo tempo. Então ele começou a andar.

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