Vinte e nove
Na cova aberta, a pele de Kratos formigou como se ele sentisse um calafrio repentino. Ele se virou e olhou para cima, e, sim, estava no lugar onde achava que estava: o túmulo que tinha sido escavado ao lado do Templo de Atena. Kratos saltou sobre a cova e olhou para a cidade em chamas. À distância, ele viu a forma imensa de Ares caminhando pela cidade, pisando nos edifícios de forma aleatória. – Ah, Kratos, bem a tempo. Terminei de cavar apenas um instante atrás. A voz inesperada assustou Kratos e o fez virar-se. Ele agachou-se, pronto para lutar por sua vida recém-recuperada, mas não havia nenhum perigo ali. Atrás dele estava apenas o velho coveiro. Agora, no entanto, o coveiro não parecia tão velho ou tão decrépito, e sua voz não tinha nada de seu antigo tremor senil. A inteligência inflamou em seus olhos uma vez turvos. – Quem é você?
– Uma pergunta interessante, mas não temos tempo para respondê-la, meu filho. Você deve se apressar. Atenas precisa de você. – Mas... mas... – Krato gesticulava em uma perplexidade impotente para o túmulo vazio. – Mas como é que você sabia... como poderia saber que eu... – Atena não é a única divindade que está tomando conta de você, Espartano. Você chegou longe para provar o seu valor, mas a sua tarefa final está diante de você. Kratos se virou assim que um estrondo irrompeu da direção de Atenas. Ares elevou-se, distribuindo destruição e rindo em triunfo. Kratos sentiu sua raiva inflamar. Sem voltar-se para o coveiro, ele perguntou: – Quem é você? Kratos falou com o vazio. O coveiro tinha desaparecido como fumaça ao vento. Veio uma resposta sussurrada, um zéfiro soprando em seu ouvido. – Complete sua tarefa, Kratos... e os deuses perdoarão os seus pecados...
O Espartano balançou a cabeça sombriamente. – Como posso fazer isso sem a Caixa de Pandora?
De todas as armas que ele ainda carregava, Kratos sabia que nenhuma sequer colocaria em desordem o cabelo ornado de chamas de Ares. Ele fitou através da ruína inflamada de Atenas, onde o Deus da Guerra permanecia gritando seu triunfo para os céus. Kratos endureceu quando ele se lembrou de um velho ditado: espartanos lutam com as armas que têm, e não com as armas que desejam.
O momento da decisão finalmente tinha chegado. Hora de matar. Hora de morrer. Kratos começou a caminhar. Um abafado e ofegante gemido chegou aos ouvidos de Kratos enquanto ele se dirigia para o abismo que tinha há pouco cruzado, antes da ponte solitária ser destruída. Ele vinha de dentro do Templo de Atena. Parecia um gemido de uma mulher em agonia, ofegando seus últimos suspiros. Ouvindo isso, Kratos descobriu-se contente por saber que, ao menos, sua esposa e filha não tinham sofrido. Ele tinha dado a elas uma morte rápida, quase indolor. Mais limpa do que a mulher lá dentro. Provavelmente o Oráculo, pensou ele, e parou. Se fosse o Oráculo, ele tinha uma última pergunta para ela.
Ele trotou até os degraus da frente do templo. O andar inteiro estava manchado com sangue seco. Ele foi até a estátua imensa de Atena e ficou em pé diante dela, olhando para os seus olhos de mármore branco. – Nenhuma caixa. Somente as armas que eu tinha antes – disse ele, girando as Lâminas do Caos ao redor. – Algum conselho? O rosto de mármore da estátua permaneceu teimosamente vazio. Kratos virou-se e andou por de trás do altar, em direção ao corredor que levava aos aposentos do Oráculo. Uma dúzia de passos longos levaram-no para a sala vazia. Não havia nada lá, a não ser algumas folhas mortas. De volta ao templo, ele olhou em volta para encontrar a fonte do gemido suave. Ele virou-se lentamente, ouvindo com atenção. Acima. Em algum lugar acima. O teto do templo havia sido explodido em pedaços. Ele correu rapidamente e saltou sobre o altar, caindo novamente ao lado da cabeça da estátua de Atena, e, em seguida, um salto prodigioso impulsionou-o para a borda do telhado rompido. Ele quase não conseguiu; sua mão esquerda fechou-se em um caco de uma viga e pendurou-se, balançando.
Mais uma vez as visões capturaram a sua mente. Sua esposa e filha em seus braços, cruelmente abatidas no chão do templo da vila. A maldição do Oráculo que o transformou no Fantasma de Esparta. O redemoinho de cinzas de sua família aderindo à sua pele, para sempre manchando tanto a sua carne quanto a sua alma. Kratos grunhiu e subiu no telhado. Esparramado a poucos passos de distância estava o Oráculo de Atena, sua contorcida posição avisava que sua espinha havia sido quebrada. Várias vezes, em batalha, Kratos tinha visto guerreiros em posições semelhantes. Levava horas, às vezes dias, para que eles morressem. Ele se ajoelhou ao lado do Oráculo. Ela tinha parecido diminuta antes. Agora ela era frágil e velha além de seus anos. Seus olhos palpitaram e abriramse quando sentiu os dedos em sua bochecha, e ela apertou os olhos contra a claridade das chamas devorando a distante Atenas. – Você voltou – disse ela em um sussurro. – Você conquistou a Caixa e a perdeu. Minhas visões... Eu vi. – Então você sabe o que aconteceu comigo. Ela fechou os olhos. Sua pele estava pálida, transparente como um pergaminho, revelando o emaranhado de veias logo abaixo da superfície. Kratos pressionou os dedos com mais força em sua bochecha. Ela se mexeu. – Diga-me o que você vê – disse ele. – Diga-me como posso matar o Deus da Guerra. – A Caixa... – O Oráculo se contraiu espasmodicamente. Ela balançou a cabeça. – Por que você foi escolhido por Atena? Você é um homem terrível. Um monstro... – Um monstro para matar um monstro. Não veio nenhuma resposta, ele falava com uma mulher morta. Ele se levantou e olhou para o seu corpo, pouco maior que o tamanho de uma criança, não importando os poderes que possuía em vida. Agora sua sombra tinha sido despachada para o abraço do Senhor Hades. Ele olhou para baixo, sobre a cidade, e então para o abismo. Como que ele iria descer daqui? Ele notou que um edifício em chamas perto da base da falésia estava se movendo, como se, de alguma forma, atravessasse a cidade; mas então o fogo
virou o rosto para o céu, e Kratos percebeu que o que ele achou que fosse uma construção era, de fato, a chama do cabelo de Ares, visto de cima. O deus parecia estar contemplando a vista. Num piscar de olhos, Ares foi varrido da existência. Mais uma vez, Kratos sentiu uma pontada fria se espalhar pela sua pele. Isso tinha sido muito parecido com o Ares fantasmagórico na Arena da Memória. Se o Ares real fosse tão invulnerável quanto a sua imitação... Ele não se permitiu pensar sobre isso. Então a voz que assombrava cada pesadelo de Kratos rugiu logo atrás dele. – Zeus! Você vê o que seu filho pode fazer?
Kratos se virou e deixou o seu coração voltar a bater. Ares não tinha ideia de que o espartano estava lá. Ele só dirigiu-se ao topo da montanha por que ela continha o templo mais sagrado de Atena. Ares se vangloriou para o céu. – Você optou por favorecer Atena, mas a cidade dela está em ruínas diante de mim!
Os ecos da voz colossal derrubaram mais destroços da alvenaria ao redor do templo. O deus levantou o punho, ameaçando o céu. – E agora, até mesmo a Caixa de Pandora é minha. Gostaria que eu a utilizasse contra o próprio Olimpo?
Kratos, do seu ponto de vista vantajoso sobre o telhado do templo, viu que o deus estava dizendo a verdade. Embora a massa da arca estivesse ofuscada pelo punho do qual pendia, não havia dúvida de que aquele era o estranho brilho de ouro de suas joias. A Caixa de Pandora rotacionava no final de uma corrente longa e delgada, como se fosse um medalhão, um amuleto que o deus usava para dar sorte. Ares continuou com seu falatório extravagante, mas Kratos já não o escutava. Toda a sua atenção estava focada na fina corrente que ligava a caixa ao punho do deus. Ele olhou da corrente para a cicatriz branca na palma da mão, em seguida, de volta para a corrente. – Não posso golpear o deus? – Ele mostrou os dentes para a noite como um lobo raivoso. – Justo.
Ele disse suavemente: – Ares. Ouvindo seu nome, o deus se virou para olhar por cima do ombro. Ele cheirou o ar, como se para capturar um sabor agradável. – Kratos. Regressado do submundo. – Ares não parecia surpreso, estar parecia satisfeito. Ele ergueu o rosto para o céu de novo e jogou os braços largos na direção do Olimpo. – Isso é o melhor que você pode fazer, Pai? Você envia um mortal alquebrado para me derrotar, o Deus da Guerra?
Kratos não se sentia alquebrado. Ele ergueu a mão direita, sentiu o poder do raio de Zeus surgindo de dentro dele enquanto dava um passo para a frente, e desencadeou a guerra sobre um deus.

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