sábado, 19 de maio de 2018
CRÔNICAS 38 : GOD OF WAR
Três
Por horas, Kratos lutou através do Túmulo dos Navios. As Lâminas do Caos inflamadas em constante movimento, subindo e descendo, flagelando extensões extremas com suas inquebráveis correntes, cortando a carne podre e os ossos quebradiços e amarelados dos legionários mortos-vivos, destruindo as escamas das cabeças da Hidra, perfurando globos oculares, decepando línguas e rasgando gargantas. Elas partiam e retalhavam, apunhalavam e perfuravam, e todo o tempo elas queimavam com uma chama sobrenatural, como se os fogos infernais da forja do Hades se libertassem de suas bordas para carbonizar as vidas de todos que tocassem. Kratos queimava com o mesmo fogo. Cada pedaço de vida de qualquer criatura que as Lâminas retalhavam corria de volta para as correntes fundidas com os ossos de seus pulsos. As vidas roubadas carregavam o seu corpo e inundavam a sua mente com inesgotável fúria. Se ele não estava matando, era só porque estava procurando por mais vítimas. Ele nunca parou. Ele sequer se abrandou. As lâminas não podiam ser quebradas, não podiam ser cortadas ou embotadas. Mesmo o sangue preto e a carne putrefata que poderiam ter coagulado e se encrostado nas lâminas e nas suas correntes simplesmente desapareciam, consumidos pelo fogo sobrenatural. Kratos correu de navio a navio, equilibrando-se pelas vigas flutuantes sobre o mar turbulento com o frenesi de tubarões abaixo, que lutavam por migalhas das suas vítimas. Os barcos turvaram-se em um pesadelo sem fim de labirintos de plataformas e mastros, velas e redes de carga, e sempre havia o fluxo interminável de mortos-vivos estúpidos atacando com a mesma sede maníaca de sangue, e mais harpias arremetendo e mergulhando e se lançando sobre ele com suas garras sujas de excrementos. Ele já não sabia se estava se movendo em direção ao navio mercante que havia seguido até esse inferno aquoso ou se corria para o lado oposto. Ele não se importava. Ele não pensava sobre isso, ou sobre qualquer outra coisa. Ele se atirou em seu trabalho com o abandono alegre de uma bacante e perdeu-se na pureza do abate incontrolável. Ele matava. Ele estava contente. Ele continuou lutando até que o seu caminho foi novamente bloqueado por outra cabeça emersa de Hidra. Cada uma que ele enfrentava era ainda maior do que a anterior. Quando essa grande besta abriu sua mandíbula larga para urrar, Kratos poderia ter sido tragado para um túnel escuro e úmido de saliva. Tudo o que ele podia ver era a boca enorme, escancarada e duas vezes maior do que seu corpo, e seus dentes amarelados e afiados em sua frente. Ele levou as mãos atrás
de seus ombros e agarrou os punhos das Lâminas do Caos. A Hidra avançou, em uma onda sinuosa de seu aparentemente interminável pescoço. Kratos se esquivou, driblou os dentes afiados, e chicoteou as correntes que prenderam as Lâminas do Caos em torno do pescoço grosso. Músculos saltados com o esforço, ele apertou seu controle da arma, torcendo os laços cada vez mais estreitos, estrangulando a criatura com suas correntes. O monstro urrou em fúria e o chicote rasgou seu pescoço, para então soltá-lo, ainda sacudindo. As correntes derraparam, e as escamas da besta rasparam seus braços, que se transformaram em um pântano sangrento. Kratos chutou forte, se contorceu e virou-se, usando suas correntes como um cinto de alpinista para forçar seu caminho de volta até o pescoço. Mas seu próximo passo veio no instante errado. Como o monstro teve um novo espasmo, a força de seu próprio pontapé fez Kratos ser lançado para longe, girando livre das correntes – e a Hidra o abocanhou no ar como um sapo capturaria uma mosca descuidada. As mandíbulas da Hidra o seguraram, os dentes como espadas cortando os antebraços de Kratos. Um outro herói teria tido ambas as mãos decepadas, mas as correntes fundidas com seus ossos não poderiam ser quebradas seria pelo próprio Deus da Guerra. Cerrar a mandíbula em uma mordida mais apertada só lascou os dentes da criatura, mas a Hidra não deu sinal de que iria relaxar. Enquanto lutava, Kratos percebeu que esse monstro podia enviá-lo para o abraço do Senhor Hades. Esforçando-se, ele tentou livrar os braços do esmagamento das mandíbulas da Hidra; em seguida, parou e olhou freneticamente para o redemoinho do mar. Tubarões mordiam-se uns aos outros – e aos pés de Kratos. A dor aguda de ser mordido nas pernas por um enorme tubarão obrigou-o a lutar em duas frentes. Decidir qual era a ameaça mais imediata fez com que um nó se formasse em sua barriga. A morte acenava através dos tubarões sedentos de sangue e da Hidra. Incapaz de libertar seus braços, Kratos levantou as pernas, deixando-as longe do alcance dos vorazes tubarões, e tentou encontrar um apoio para alavancar-se. A dor irradiava ao longo de seus braços, onde as mandíbulas da Hidra apertavam com força o bastante para quebrar os seus ossos até os ombros. Grunhindo com o empenho, ele tentou extrair os dentes – mas conseguiu apenas afundá-los mais profundamente em sua carne. Quando a Hidra começou a revirar a cabeça, balançando Kratos como um rato preso nas mandíbulas de um cão de caça, ele viu sua oportunidade. Um chute de Kratos poderia balançar um navio de guerra para longe de sua doca. Ele se dobrou, trazendo os joelhos sob seus braços imobilizados. Quando suas grevas
e sandálias começaram a rasgar a face da Hidra, a criatura só pôde rosnar de dor e raiva. Kratos chutou mais forte, mais rápido. O desespero o conduzia agora. Seus braços se tornaram frios, insensíveis, sem sangue. Ambos os pés trabalhando como se ele estivesse golpeando a besta com os punhos. Um chute oportuno atingiu o olho da Hidra, fazendo com que o bramido da criatura se tornasse um urro de dor, que liberou os braços de Kratos e o jogou para cima, alto no ar. Enquanto Kratos atingia o topo de seu arco, a Hidra tensionou-se em direção a ele, abrindo sua bocarra larga para pegá-lo como uma guloseima casualmente atirada. Em um único instante, Kratos tanto temeu quanto exultou. Enquanto caía, ele retornou as Lâminas do Caos com um suave movimento, repousando-as nas suas costas. Ele se enrolou como uma bola apertada e permitiu que a boca da criatura se fechasse em torno dele – mas, antes que ela pudesse engoli-lo, plantou os pés contra a mandíbula da Hidra, apoiando as costas contra os sulcos viscosos do vasto palato duro, e empurrou. O maxilar da criatura começou a se abrir. Kratos estendeu-se como Hércules, quando este levantou o céu dos ombros de Atlas. A Hidra empenhou-se com toda a sua força monstruosa para morder de novo, mas, quando o Fantasma de Esparta estava empenhado, não havia poder na terra que pudesse esmagá-lo. Forçando as pernas à máxima extensão, Kratos comprimiu suas mãos acima de seus ombros e continuou a forçar a abertura da boca da Hidra somente com a força dos seus braços poderosos. Um estalo como da quebra de um mastro principal veio da dobradiça do maxilar do monstro, mas Kratos não cedeu. O medo se foi, substituído por um triunfo frio. Com um grande impulso, ele esticou os braços acima da cabeça, e agora o som não era de um estalo, mas de um esmagar, um rugido e um r-r-rasgar de couro molhado quando a mandíbula da Hidra se despedaçou e suas bochechas racharam em pedaços. A Hidra estremeceu e Kratos chutou para a liberdade, pulando no convés do navio mais próximo. O interminável pescoço e a gigante e destruída cabeça deslizaram de volta para baixo das águas escuras do mar Egeu, que agora se agitava e borbulhava ainda mais, enquanto os tubarões vorazes que circulavam experimentavam o gosto do sangue da Hidra. Da última vez que Kratos olhou, os tubarões lançavam-se como corvos na boca da Hidra, arrancando pedaços sangrentos de sua língua oscilante. Para eles, não importava se a carne que jantavam era humana ou de um monstro. Vorazmente, eles rasgaram o rosto da Hidra, arrastando-o abaixo da turva superfície. No entanto, mesmo a cabeça imensa não era suficiente para todos os tubarões. Centenas – milhares! – circulavam sem parar, batendo o mar com suas
caudas, cada um esperando a sua refeição. Kratos ficaria feliz em prover comida para seus aliados involuntários. Aos seus pés, seu sangue coloria a água que escorria de suas pernas. Capturar um tubarão ou dois sobre as rebarbas das Lâminas do Caos roubaria vida o suficiente para fechar esses cortes menores. Ele agarrou o parapeito e se levantou no remanescente deque inclinado – mas quando ele puxou as lâminas, os tubarões se apressaram. Eles descobriram um novo banquete. Literalmente. Onde quer que olhasse, tubarões flutuavam, seus olhos negros fixos, encarando. Alguns começavam a inchar e outros tiveram suas tripas estouradas, e os tubarões que enxameavam os mortos para atacar a carne envenenada logo foram mostrando as suas próprias barrigas para o céu. Comer uma Hidra era tão fatal como ser comido por uma. Ele levou um momento para examinar o casco de navio estilhaçado em que estava, buscando por um barril, um balde, qualquer coisa que pudesse ser impermeável. Mesmo uma cesta virada poderia ter capturado água da chuva suficiente para saciar sua sede ardente, mas não havia nenhuma gota a ser encontrada, nem no convés nem na cabine mais baixa que ele podia alcançar. Então ele viu o barril perto do leme, com água para o timoneiro. Kratos caminhou até ele e meteu a cabeça na água para beber profundamente. Ele deu um solavanco para trás e cuspiu, a bile subindo em sua garganta. A água salgada queimou sua boca. Ele cuspiu novamente, desta vez adicionando uma maldição. – Que os oceanos virem pó! Eles não poderiam ter um gosto pior do que esse! Mas, enquanto essas palavras deixavam os seus lábios, uma luz sobrenatural brilhou das profundezas invisíveis do porão afogado no qual ele estava. Onde antes só havia um anteparo manchado e apodrecido, agora havia um arco de alabastro e pérola, maior que o dobro da altura de Kratos e mais largo do que ele poderia medir com os braços. Esse arco emoldurava um rosto grande, brilhante como o sol refletido em um mar calmo, o rosto de um homem cuja barba era feita de espuma do mar e cujo cabelo era um trançado de brilhantes algas pretas. – Você tem tão pouca consideração com o meu domínio, Kratos? – a voz brandamente repreensiva retumbou como maré quebrando em uma caverna crivada no penhasco. – Há dez anos você navega meus mares em suas buscas, sem naufrágio ou tempestade – isso não é evidência de minha consideração por você?
– Senhor Poseidon – o tom de Kratos era respeitoso, mas ele não abaixou a cabeça. – Como posso servir o Rei do Oceano? – Essa Hidra que assola meu lindo Egeu é uma criatura de seu antigo mestre, Ares. Sua existência é um insulto. Eu gostaria que você a destruísse.
– É o que eu planejo. – Saiba que, até agora, você apenas arranhou essa monstruosidade – suas cabeças secundárias, tais como aquelas que você destruiu, são numerosas. A Hidra mal percebe a sua perda.
– Então, como posso matá-la? – Você deve destruir a cabeça-mestra – aquela que detém o cérebro da criatura. A cabeça-mestra é dez vezes o tamanho das outras, e seu poder é quase ilimitado.
Kratos não se preocupou com seu poder. – Como faço para encontrá-la? – Eu vou levá-lo até lá. E para ajudá-lo em sua tarefa, vou lhe emprestar uma pequena fração do meu próprio poder.
Kratos tinha a sensação de que o deus do mar não veria uma recusa com bons olhos. – Que tipo de poder? – Você sabe como minha raiva faz com que a terra trema, e minha fúria gera tempestades em que nenhum navio pode sobreviver . Passe pelo arco onde você vê a imagem do meu rosto, e eu vou lhe conceder um poder além de qualquer outro que você já conheceu, você vai comandar um fragmento da minha cólera.
Seja qual for a Cólera de Poseidon, não poderia ferir mais do que as correntes das Lâminas do Caos queimadas em seus braços. – Tudo bem – disse ele. – Vamos matar essa besta. * * * ENTRAR NO ARCO TROUXE um clarão ofuscante e a sensação de seus ossos estarem queimando, de dentro para fora. Sair pelo outro lado deixou Kratos em uma penumbra úmida que cheirava a suor e urina. O lento rolar do chão lhe avisou que ele ainda estava a bordo de um navio. Quando seus olhos se ajustaram
à escuridão, ele pôde visualizar as formas do que parecia ser uma carga sendo amarrada em ambos os lados da embarcação. À frente, ele ouviu uma voz soluçante – um homem, chorando como uma criança, pedindo para ser posto em liberdade. Kratos se moveu em direção à entrada do corredor em que um batalhão se agachava. Gritos vinham de cima, e ele suspeitava que o deus do mar havia mantido a sua palavra. Luzes se reuniam em um arco à frente, e, quando ele se aproximou, descobriu que o que, na escuridão, parecia ser carga eram, na verdade, pessoas – pessoas doentes ou famintas ou sedentas demais para até mesmo se mover. Na nova luz, Kratos viu o brilho esverdeado dos grilhões de bronze que estavam nos tornozelos dessas pessoas e reavaliou sua própria avaliação. Essas pessoas eram a carga. Era um navio de escravos. Kratos assentiu consigo mesmo. A existência dos escravos significava definitivamente que haveria água doce nas proximidades – escravos eram demasiado valiosos para ser autorizados a morrer de sede. Alguns deles conseguiram se levantar o suficiente para pedir-lhe misericórdia enquanto ele passava. Kratos os ignorou. Perto do arco, um escravo estava atado a algum tipo de posição punitiva – seus pulsos estavam algemados e pendurados em uma corrente curta afixada no teto. A corrente era longa o suficiente apenas para que seus dedos roçassem no convés, enquanto o navio balançava. Ele soluçou com voz fraca e entrecortada: – Por favor... por favor, não me deixe aqui... por favor... Enquanto Kratos se movia em direção a ele, o soluçar do escravo se transformou em gritos. – Por todos os deuses, eu imploro... por favor! Kratos parou ao lado dele. – Se eu ajudar, você vai ficar quieto? – Oh, abençoado seja... que todos os deuses abençoem esse homem bom e gentil... A voz do escravo foi sumindo, quando ele finalmente conseguiu focalizar os olhos em seu presumido salvador. – Você! – sua voz estava engasgada de de medo. – O Fantasma de Esparta... eu sei quem você é! Eu sei o que você fez! Eu prefiro morrer aqui do que ser
salvo por você! Kratos empunhou uma das Lâminas do Caos e, com um metódico movimento do pulso, cortou a cabeça do escravo. – Suas preces foram atendidas. O escravo já estava tão perto da morte que a lâmina só canalizou a menor centelha de vida. Kratos olhou para trás, para o porão de escravos, pesando a possibilidade de ganhar mais força e se curar por abater todos – mas eles estavam tão fracos que os matar daria mais trabalho do que suas vidas valeriam a pena. Kratos seguiu em frente. Para além da câmara com os escravos estendia-se uma ampla escada de escotilha revestida com portas. Os gritos de cima foram se esvaindo, e um coro de urros ensurdecedores que fizeram todo o navio tremer advertiam que havia mais do que uma Hidra lá em cima. Quem quer que estivesse lutando contra parecia estar perdendo. Kratos olhou em volta para tentar encontrar alguém para matar em seu caminho; ele precisava de toda a energia que pudesse obter. O par de portas perto do fim da escada eram diferentes das outras. A madeira maciça e reforçadas com ferro preto, elas pareciam fortes o suficiente para que até Kratos tivesse dificuldade de rompê-las – enquanto ele considerava isso, as correntes da lâmina começaram a aquecer, produzindo fagulhas com picadas desagradáveis. Ele sacou uma das lâminas e empurrou-a contra a porta a sua frente. Uma chuva brilhante de energia espirrou por cima dela, e a lâmina não atingiu as madeiras. A energia piscou por mais tempo em torno de uma ranhura profunda da madeira – um bloqueio. Um bloqueio mágico. Kratos assentiu consigo mesmo. Então: um par de portas não só fortes como uma fortaleza, mas seladas com ligações mágicas e fechaduras místicas e sabese lá mais o quê. Que tipo de “tesouros” pode um comandante de navio de escravos manter dentro de tal cofre? Algo além de ouro espalhafatoso deve estar protegido por trás dessa porta. O que quer que fosse, poderia ser útil. * * * O CONVÉS PRINCIPAL PARECIA um matadouro, onde o extermínio ainda estava acontecendo. Para onde quer que Kratos olhasse, marinheiros lutavam com legionários mortos-vivos ou tentavam afastar as cabeças da Hidra com longas lanças. Toda madeira a bordo do navio estava escorregadia de sangue, ou untada com carne podre de mortos-vivos, ou ambos. Esse abatedouro fedorento de gritos, pânico e desespero levou Kratos de volta aos seus dias de juventude, para os ataques em que ele comandou seus companheiros espartanos, em um tempo muito distante, antes que ele jurasse seu serviço a Ares.
Claro, não havia tantos soldados mortos-vivos naquela época. E a Hidra era apenas uma história de ninar espartana – porque mesmo que Hércules fosse, por conta de um acidente de nascimento, apenas um tebano, ele também fez-se um herói de Esparta, restaurando o poder ao seu legítimo rei, Tíndaro. Kratos dirigiu-se ao convés, as Lâminas do Caos em prontidão. Os mortosvivos, ele simplesmente ignorou; os marinheiros ou lidariam com eles ou proporcionariam diversão suficiente para mantê-los ocupados. Kratos só tinha olhos para as três cabeças da Hidra que atacavam o navio como um time. As cabeças menores de ambos os lados eram ainda maiores, com o dobro tamanho de qualquer uma que ele tivesse enfrentado até então – e elas eram anãs perto da inconcebível majestade da cabeça-mestra. Erguendo-se sobre um pescoço sinuoso, maior que o mastro principal, a cabeça-mestra era larga o suficiente para engolir todo o navio em um único gole, e seus olhos queimavam com uma lúgubre luz amarela interior. As cabeças secundárias trançavam e golpeavam como víboras, mantendo os marinheiros armados com lanças na baía. – Você é um deus? – a voz veio de trás dele. – Você parece um bocado com um deus. Nós podíamos usar um deus. Kratos se virou. Agachado atrás de uma roda enrolada nas correntes de uma âncora, um marinheiro o espreitava através de seu olho bom; seu outro era um soquete vazio dividido ao meio com uma cicatriz que lembrava a da sobrancelha de Kratos. O olho remanescente do marinheiro balançava como a maré, como se ele não pudesse decidir para onde olhar. – Seu capitão – Kratos disse. – Onde ele está? – O que cê quer com ele? – Sua rendição. Kratos lançou um olhar desdenhoso para o massacre no convés. – Esta é a minha embarcação agora. Como vocês a chamam? – Lamento dos Deuses – veio a resposta. – Você acha que pode tomá-la? – Eu já a tenho – disse Kratos. – Ela será chamada Vingança, e é minha.
– Que os deuses sorriam para isso, se não acabarem contigo por arrogância! Kratos estreitou os olhos para o marinheiro. O homem era louco? Quem se atreveria a questionar o Fantasma de Esparta em sua frente? Então ele tomou a túnica imunda do marinheiro e o odre manchado de vinho do convés e percebeu
que o homem estava bêbado demais para realmente vê-lo. – Seu capitão – Kratos repetiu. – Eu não vou perguntar de novo. O marinheiro bêbado acenou com a mão trêmula. – Lá. No mastro. O cara com a chavona em volta do pescoço. Tá vendo? – O que está de joelhos? – Um-hum. De joelhos. É ele. Os lábios de Kratos frisaram-se em desprezo. – Implorando por misericórdia? – Rrrrrezando – o marinheiro o corrigiu. – Rezando pra Poseidon... pra salvar o navio da Hidra... – Sua oração foi respondida. O marinheiro arregalou os olhos para ele. – Cê vai salvar a gente? – Não, eu vou salvar o navio. Kratos virou-se para a luta, a vasta cabeça-mestra mergulhava em direção à base do mastro principal e fechou-se sobre o capitão ajoelhado. Em um instante, o capitão se foi – engolido vivo –, e sua chave com ele. A cabeçamestra levantou-se, soltando um rugido de triunfo que reduziu as velas do navio a trapos. Kratos estava impávido. Com uma garganta longa como a da Hidra, a deglutição poderia tomar um período de tempo considerável. As três cabeças estavam muito próximas umas das outras para ele atacá-las individualmente. Se ele fosse direto para a cabeça-mestra, ele teria de se defender dos ataques das cabeças secundárias. Ir atrás de uma das cabeças secundárias exporia sua retaguarda para as mandíbulas titânicas da mestra. Se ele não podia exterminá-las uma por vez, ele mataria todas de uma vez. Ele lançou-se pelo convés como se tivesse sido atirado de uma catapulta. A cabeça mais próxima avançou contra ele como se para expulsá-lo para fora do convés. Kratos saltou sobre o pescoço do monstro, cortando-o de cima para baixo com uma das lâminas. Ela talhou o osso e encravou-se na junção entre o crânio e um chifre; a corrente agarrou apertado como um cabo de
reboque e puxou Kratos lateralmente, em um giro. Ele deixou a cabeça balançar até que a corrente envolvesse toda a volta do seu pescoço, deixando-o em pé no topo do crânio. Mais rápida do que o pensamento, a outra lâmina encontrou sua mão; então, juntos, eles furavam profundamente os olhos do monstro. Cortes precisos pintaram as lâminas com a massa gosmenta do humor vítreo e deixaram a cabeça cambaleando às cegas. Uma sombra ameaçadora reuniu uma negra escuridão ao seu redor. A cabeça-mestra atirou-se para baixo como um falcão do tamanho de uma casa. Kratos levantou-se e esperou. As enormes mandíbulas da cabeça-mestra ficaram abertas demais para arrancá-lo da cabeça secundária com alguma precisão – especialmente porque a cabeça secundária ainda estava chicoteando de lado a lado, cada vez mais rápido, tentando tirar Kratos dela – e assim a cabeça-mestra fez exatamente o que Kratos havia antecipado. Aquelas gigantescas mandíbulas se fecharam por completo em torno da cabeça secundária, e os dentes cravaram-se como uma galé de guerra, cortando as escamas blindadas do pescoço, tentando deslocar a cabeça secundária e engoli-la – e a Kratos – por inteiro. Mas Kratos sabia muito bem o quão dura a pele escamosa da Hidra era. Houve tempo suficiente para ele escorregar entre os grandes dentes enquanto a cabeça-mestra começava a morder e sacudir a outra cabeça, como um lobo que arranca as ancas de um cervo. Kratos cravou uma das lâminas na gengiva inferior da mestra e usou a corrente para balançar-se sob o queixo da criatura. Lá, ele investiu contra as escamas com a segunda lâmina, enquanto rasgava a carne com a primeira, para soltá-la. A cabeça-mestra rugiu em uma dor súbita, deixando a cabeça secundária mastigada cair no mar. Kratos começou a cortar o pescoço sob o queixo, onde a criatura não podia alcançá-lo. A cabeça secundária restante serpenteava para tentar chegar às costas de Kratos – mas, ao receber uma das Lâminas do Caos no nariz, optou por repensar essa estratégia. Com a lâmina dentada firmemente alojada na cavidade sinusal, puxá-la fez com que a criatura soltasse um grito de dor inteiramente diferente de tudo que Kratos já ouvira. Com isso, a cabeça-mestra, em vez de tentar rasgar Kratos ao meio com os dentes, bateu o pescoço contra o mastro principal, esmagando Kratos entre as suas escamas e a vara gigantesca. A visão de Kratos escureceu. A cabeça-mestra segurou-o lá, inclinando-se para ele. O mastro rangeu de forma alarmante, assim como a coluna vertebral de Kratos – contudo, o mastro cedeu primeiro, rasgando-se e estilhaçando-se com um bramido. A cabeça-mestra levantou-se novamente, e a cabeça secundária tentou desesperadamente se afastar, mas a lâmina no nariz estava alojada como um anzol – as tentativas de se afastar apenas faziam com que a lâmina penetrasse
mais profundamente. A outra lâmina estava igualmente ajustada na garganta da cabeça-mestra. As lâminas não se soltariam e não podiam ser quebradas assim como as correntes, nenhuma vinculadas aos braços de Kratos não podiam ser violadas por qualquer força terrena. Assim, quando a cabeça-mestra puxou para um lado e a cabeça secundária puxou para o outro, só havia uma coisa que ligava as duas que poderia ser quebrada. Kratos. Ele gritava em agonia, enquanto permanecia suspenso entre as duas cabeças que tentavam cortá-lo ao meio. Músculos amontoavam-se em seus maciços ombros, mas mesmo a sua força sobrenatural não era páreo para o poder titânico da Hidra. Em qualquer outro dia, Kratos teria morrido ali – mas a Hidra era uma criatura de Ares. E a perspectiva de ser morto por um servo de seu inimigo alimentava a ira de Kratos. Mais do que raiva. Mais do que fúria. Isso o encheu com a cólera de um deus. E, tal como quando entrou no arco onde se encontrou com Poseidon, ele sentiu como se seus ossos estivessem em chamas, queimando-o de dentro para fora. Relâmpagos brilharam em volta dele, fazendo o mundo desvanecer-se em uma imagem turva de um azul-escuro desbotado, e explodiram ao longo das correntes e para as lâminas. A carne em torno da lâmina incorporada ao pescoço da cabeça-mestra explodiu como uma panela de pressão deixada no fogo por muito tempo, espalhando talhos imensos de restos queimados. A lâmina alojada na cavidade nasal da cabeça secundária teve um efeito ainda mais espetacular: quando as membranas internas detonaram, explodiram cacos de osso para fora dos olhos da Hidra, o que estourou os olhos cindidos da criatura. Fragmentos penetraram no que quer que a cabeça secundária usasse como cérebro; o pescoço entrou em colapso, e Kratos caiu para a plataforma lá embaixo. Quando ele caiu, refletiu que a Cólera de Poseidon era mais útil do que havia imaginado. Ele caiu ao lado do estilhaço destruído do mastro principal. Um movimento leve com o pulso enviou uma lâmina para cortar o mastro, apanhá-lo e reverter sua direção em um impulso muito suave. A grande besta percebeu sua chegada e arqueou o pescoço, abrindo uma boca que poderia partir o navio ao meio. Tendo determinado, para sua própria satisfação, que a gigante cabeçamestra não era preenchida com um cérebro igualmente gigante, Kratos rotacionou para o que era agora o topo do mastro principal – uma ponta inclinada cheia de lascas afiadas, como um ouriço –, então girou as lâminas em torno de sua cabeça para capturar a atenção do monstro. Ele esperou até que a cabeça-mestra atacasse em sua direção como uma
lua em queda, engolfando-o junto com vários metros de mastro. Mesmo antes de ser danificada, a madeira do mastro principal não era de modo algum tão dura como o pescoço da cabeça secundária da Hidra. Kratos sabia que a Hidra poderia cortá-la em uma rápida abocanhada. Então, mais uma vez no interior cavernoso cheio de gotejamento e lodoso da boca do monstro, Kratos liberou novamente a fornalha de fúria que queimava dentro dele. A cabeça-mestra convulsionou quando a Cólera de Poseidon explodiu a parte posterior de sua boca em pedaços sangrentos. Kratos lançou uma lâmina para cima, para o fundo da cavidade nasal da Hidra; então lançou-se através de um volume incalculável de limo salgado, até alcançar a parte de baixo do crânio do monstro. Antes de a criatura parar de se debater, Kratos havia aberto o seu caminho para dentro do crânio. Três ou quatro hábeis chicotadas com as lâminas partiram o cérebro da Hidra em um mingau malcheiroso. Ele voltou para dentro da garganta da Hidra. Ela ainda se retorcia e convulsionava um pouco, conforme o resto do vasto corpo que recebia gradualmente a mensagem de que seu cérebro estava morto. Kratos abriu caminho para baixo ao longo dos sulcos de cartilagem, até que a luz que emanava da boca aberta do animal começou a desvanecer – e ele ouviu uma voz fina, soluçando de modo fraco. – Por favor... por favor, alguém... Poseidon, por favor... Kratos cravou uma das lâminas em um feixe longo e estriado de músculo e usou a corrente para descer na obscuridade escorregadia. Lá, bem abaixo da última das luzes, Kratos enxergou uma forma escura. Ele empunhou a outra lâmina e a girou para acender um pouco de seu fogo, e à luz da lâmina ele viu o capitão. – Oh, Deus o abençoe! Poseidon abençoe você e todas as suas jornadas – o capitão engasgou. – Que todos os deuses do Olimpo sorriam para você para sempre... O capitão se agarrou desesperadamente a um anel de cartilagem. Seus pés pendiam sobre o que parecia ser uma queda abismal para o estômago da Hidra. E a tira fina de couro em volta do pescoço continha uma chave de ouro reluzente. Kratos soltou um pouco mais a corrente, esticando-se para baixo com sua mão enorme. As lágrimas escorriam dos olhos do capitão. – Abençoado seja você – ele repetia. – Abençoado seja por voltar para me resgatar! A mão de Kratos fechou-se na tira de couro. – Eu não voltei por você – disse ele, e deu um puxão rápido na tira de couro,
que se partiu em duas e rompeu a aderência do capitão à cartilagem. Seus gritos, quando ele escorregou, terminaram abruptamente, no momento em que ele caiu no estômago agitado da Hidra. Quando Kratos voltou com a chave na mão para fora da boca da Hidra morta, ainda podia ouvir o capitão sendo digerido. Kratos pausou pela base do mastro em que a cabeça-mestra fora empalada; algumas pancadas das Lâminas do Caos quebraram o mastro em sua raiz, e a grande besta deslizou para o mar e afundou para sempre da vista dos homens. Kratos pesou a chave em sua mão. Esse havia sido um trabalho árduo para apenas abrir uma porta. Era bom que a luta tenha valido a recompensa.
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