Oito
Kratos escalou uma pilha de cadáveres para observar o trabalho de reparação sendo concluído na muralha. Os engenheiros colocaram cruzes robustas contra a parede e pilares enfiados profundamente no chão para mantê-las no lugar. Era um trabalho rude, mas fornecia uma barreira para manter os asseclas de Ares longe da estrada. Enquanto ele não precisasse se preocupar com os esqueletos arqueiros vindo por trás dele, Kratos podia rumar com segurança para a cidade novamente. Sem dizer uma palavra aos defensores próximos a ele, Kratos saltou para a estrada e correu para a cidade. A noite caiu sobre Atenas. As vastas colunas de fumaça agora rodopiavam e giravam, iluminadas apenas pelo incêndio abaixo, e através da neblina Kratos ocasionalmente vislumbrava o próprio Ares, grande como uma montanha, elevando-se sobre a Acrópole. Era de suas mãos que o fogo grego voava, grandes bocados flamejantes que ele lançava aleatoriamente ao redor da cidade. A estrada começou a se encher de refugiados, civis agarrando o que lhes era mais precioso, fugindo da cidade enquanto eles ainda podiam, para permitir aos soldados a melhor oportunidade para fortalecê-la e defendê-la. A cada cem metros, a multidão se tornava densa o suficiente para impedir o seu progresso – mas o obstáculo era momentâneo, porque Kratos simplesmente abriu seu caminho com as Lâminas do Caos. Partes ensanguentadas dos corpos dos refugiados voaram de ambos os lados do espartano enquanto ele corria, e qualquer ateniense que testemunhou tal abate sabiamente se espremeu para fora do caminho de Kratos. Kratos não perdeu um instante sequer pensando nesses infelizes. Ele não estava ali para salvar os civis – e as Lâminas do Caos podiam beber vidas inocentes tão facilmente como as de oponentes. O aumento da sua força a cada assassinato permitiu-o correr mais rápido do que nunca, como se estivesse calçando as sandálias aladas de Hermes. A grossa fumaça preta assumiu um odor mais nocivo enquanto ele se aproximava do portão em ruínas da cidade. A memória dos corpos queimados nunca poderia ser apagada de sua mente. Depois de tantas batalhas, cavar sepulturas era impossível; havia sempre mais mortos do que pás e homens para usá-las. Kratos ordenava que os corpos fossem empilhados e incendiados. A pira funerária de um tornou-se a pira de centenas, e assim foi por muitos anos. Os portões da cidade estavam demolidos e despedaçados. Alguns poucos civis escolheram seu caminho através dos escombros, mas mais do fogo de Ares choveu sobre eles; seus gritos foram breves, e logo tornaram-se extensões da pira. Apenas a guarita permaneceu intacta, embora parecesse abandonada. Enquanto Kratos passava, no entanto, uma voz gritou da janela sombreada.
– Você aí! Pare! A voz era fina e ofegante, e, quando Kratos virou-se para olhar, encontrou um homem curvado e encarquilhado, quase sem força para ficar de pé em sua armadura. – Declare sua... condição... Hum, o que você está fazendo aqui? – Eu procuro o Oráculo de Atena, velho. O guarda ancião olhou para ele de forma míope. – O Oráculo? Para quê? – Onde ela está? – Kratos perguntou com tanta paciência quanto ele podia reunir. – Ela tem um quarto no Pártenon, na parte oriental da Acrópole, mas... – o velho balançou a cabeça tristemente. – Essa área está em chamas. O lugar inteiro está em chamas. O Oráculo pode estar morto. Ninguém o viu desde que os combates começaram. Uma vez ele me disse o meu próprio futuro, sabia disso? Isso foi há muito tempo. Eu tive que sacrificar... Kratos reprimiu com êxito um súbito desejo de remover a cabeça do velho tolo. Ele rosnou: – Como faço para chegar à Acrópole? – Bem... você não pode passar por aqui. – O quê? – Eu recebi as ordens do comandante da vigília, dadas pouco antes de o portão ser derrubado por uma daquelas bolas de fogo. Ninguém entra por esse portão, quer dizer, pelo que resta dele. O velho homem segurava um punhal com a mão trêmula. – Além disso, por que você quer ir até lá? O lugar está cheio de mortosvivos, tem um ciclope e, pior, eu vi até mesmo o Minotauro! Kratos balançou a cabeça, pensando na luta nas Longas Muralhas. Mais um esforço desperdiçado. O exército de Ares já estava dentro da cidade. Ele deixou o velho balbuciando consigo mesmo e correu pelas ruas escuras, iluminadas apenas por incêndios irreprimidos ao longe. * * *
CORRENDO PELA CIDADE ESCURA, Kratos amaldiçoou-se por ser um tolo, apesar de as Lâminas do Caos cantarem sua canção escarlate através de inúmeros corpos de asseclas de Ares. Legionários mortos-vivos voaram em pedaços rapidamente e ninguém diminuiu os passos largos de Kratos. Esqueletos arqueiros dispararam flechas flamejantes quando ele passou, mas ele não sofreu nenhum arranhão. Com agilidade, ele se esquivou de um imenso ciclope e dissipou espectros fantasmagóricos com pouco mais que um gesto. E tudo isso por nada. Assim como o massacre para reconstruir a brecha nas Longas Muralhas fora em vão. Os exércitos de Ares haviam atacado a muralha primeiro, não para ganhar acesso à cidade, mas porque era onde os soldados estavam. As legiões de Ares viviam apenas para matar. Se os soldados atenienses tivessem oferecido resistência em Pireu, seria onde as abominações teriam atacado. Eles nunca precisaram atravessar as paredes, no final das contas. Enquanto Kratos corria, mais inimigos saltaram da terra, como se um impossível submundo tivesse aberto os portais da realidade para vomitar sua desova nas ruas de Atenas. Kratos se amaldiçoou por combatê-los como se fossem humanos. Ele não pausava mais para matá-los. Por que se preocupar? Atenas e seu povo não podiam ser protegidos da destruição do exército de Ares – o exército do deus não podia ser destruído. Como dentes de dragão, cada besta que Kratos viesse a matar podia ser recriada em qualquer lugar, a qualquer instante. Matálos não fazia mais do que alimentar o poder das lâminas – poder de que ele não precisava. Para o Hades com essa luta. Ele iria procurar o Oráculo, aprender seu segredo e então seguir seu caminho. Como ele deveria ter feito desde o início. Em uma esquina à frente, ele ouviu urros e grunhidos e as vozes de homens gritando como crianças. Logo, dois soldados atenienses apareceram à vista, correndo a plena velocidade, suas armas e escudos esquecidos. Eles gritaram para Kratos que ele deveria fugir , eles estão bem atrás de nós! Um segundo depois, Kratos descobriu do que eles estavam fugindo: uma criatura gigantesca, com a cabeça e os cascos de um grande touro e o corpo de um homem. O Minotauro – o monstro de Creta, supostamente morto por Teseu. Kratos bufou. Por que ele deveria se surpreender ao encontrar a criatura viva? Teseu era um ateniense. O Minotauro trazia um enorme labris – o machado de duas faces de Creta, a lâmina sozinha tinha o tamanho de um homem e era duas vezes mais pesada. A grande besta levantou o labris para o alto e, com um poderoso impulso, atirou-o girando por meio do cenário turvo e obscuro. Um dos soldados, olhando com
medo por cima dos ombros, viu a lâmina que se aproximava e jogou-se para o lado. O outro nunca olhou para trás. Ele descobriu o machado no mesmo momento em que ele eliminou a sua cabeça em um corte limpo e saiu do outro lado, sem perder velocidade. O machado cantou no ar, girando direto para o rosto de Kratos. Kratos julgou a distância e o giro, então deu um passo para a frente, de modo que o punho do machado, e não sua lâmina, batesse em sua mão. A arma golpeou com força suficiente para matar um homem comum. Kratos sequer piscou. – Corra! – o soldado restante gritou quando ele passou por perto. – Você tem que correr! – Espartanos – Kratos respondeu com desprezo escaldante – correm para o inimigo. O Minotauro bufou, baixou seus amplos chifres e atacou. Kratos levantou o labris. – Você vai querer isso de volta – ele disse, e atirou-o contra o monstro, que parou sua corrida, rosnou e tentou reproduzir a proeza de Kratos. O Minotauro descobriu que isso era mais complicado do que parecia. O Minotauro calculou mal o giro do machado por um meio passo: a lâmina atravessou sua mão, seu nariz e seu crânio, antes de girar para desaparecer na escuridão enfumaçada. O cadáver de meia cabeça continuava oscilando. Kratos levantou a cabeça decepada do soldado ateniense e atirou-a como uma rocha. Ela bateu no peito do monstro e derrubou a grande besta. Kratos zombou do soldado morto. Ao passar pelo cadáver do Minotauro, ele sacudiu a cabeça e bufou com desprezo. Teseu. Que herói. Apenas os atenienses exaltariam um homem e fariam dele um herói por matar uma criaturinha tão insignificante. Que bom que Kratos não estava ali para salvar o povo, ele não conseguia nem olhar para eles. Antes de chegar à esquina, no entanto, ele descobriu que havia cometido um erro. Aquele não era o Minotauro; mas apenas um minotauro. A verdade lhe foi revelada pelo aparecimento de mais três imponentes homens-touro, trovejando em direção a ele com os machados em punho. Kratos empunhou as Lâminas do Caos sombriamente, sem diminuir seu ritmo. Outro atraso sem sentido. Ele usaria melhor o seu tempo fora das ruas.
Os três minotauros se espalharam para bloquear seu caminho, mas um impetuoso arranque, mais rápido que o galope de um cavalo de competição, deu a Kratos o impulso de que ele precisava. A uma dúzia de passos dos monstros, Kratos atirou uma das Lâminas do Caos para o alto, chicoteando a borda da varanda mais próxima. A corrente prendeu-se com firmeza e puxou-o para o ar, sobre as cabeças dos minotauros atônitos. Ele arremessou a outra lâmina em uma varanda superior e assim por diante, até se balançar por todo o caminho até os telhados. Dali, ele podia ver claramente o Pártenon e, além dele, a figura enorme do Deus da Guerra, que ainda atirava punhados de fogo na cidade abaixo. Mesmo aquela pausa momentânea havia sido suficiente para os asseclas de Ares localizarem-no novamente. Bandos de harpias voaram em direção ao telhado, espectros flutuaram através das paredes próximas, e o edifício tremia com os minotauros e ciclopes escalando suas paredes. – Ares! Kratos rugiu seu desafio, brandindo o fogo imortal das Lâminas do Caos. O montanhoso deus da guerra virou os olhos como luas sangrentas em sua direção. Por trás da barba de chamas, os lábios de Ares comprimiram-se em um sorriso cruel, quando ele levantou a mão ardente alta o bastante para queimar as nuvens. Ele atirou uma bola de fogo maior do que todo o edifício em que Kratos estava. Enquanto o míssil em chamas parecia se expandir a uma velocidade alarmante, Kratos teve um instante para se perguntar se o orgulho arrogante talvez o fizera precipitar-se em atrair a atenção do deus guerreiro. Ele deu um salto poderoso por entre a multidão de inimigos, alcançou a parede de um alto edifício nas proximidades e pulou mais uma vez, arremessando-se sobre a praça ampla. Ele atingiu um grande pilar partido e o escalou por um instante, olhando para o telhado de onde viera. O que ele viu causou-lhe certa hesitação. Todo o edifício era uma massa em chamas; harpias guinchavam, ciclopes uivavam e minotauros berravam, enquanto todos eram queimados. Então foi a sua vez de gritar, quando um pedaço de fogo gelatinoso correu pelas suas costas. Sua força diminuiu, e ele escorregou para baixo, caindo na rua, em agonia. Torceu-se de um lado para o outro, tentando rolar como se meras chamas devorassem sua carne, não adiantou. Mais chamas rugiram na sua direção e a praça abaixo se enchia com monstros. Com um esforço supremo, dentes cerrados pela interminável queimação nas costas, Kratos se jogou para a frente. Para o Pártenon. Em direção ao Templo de Atena. A dor nunca retardou o Fantasma de Esparta. Ele cambaleou em direção ao Oráculo – e em direção ao segredo de como matar
um deus.
* * * KRATOS CORRIA QUANDO PODIA, a dor em suas costas diminuiu um pouco, e matava quando precisava; ele tropeçou pelas ruas, sobre os telhados, e até prosseguiu com dificuldade nos esgotos labirínticos que ligavam catacumbas infinitas. Embora o esgoto queimasse mais do que pensara, ele pôde suportar sem morrer, no momento em que Kratos emergiu, o toque de Ares nas suas costas havia diminuído. Sua pele estava retesada. Mas ele ainda podia se mover, ainda podia lutar quando necessário. Finalmente, após o que pareceram dias, ele chegou à larga avenida que levava da Acrópole ao Pártenon – e lá ele enfrentou um novo desafio. A estrada era patrulhada por centauros. Selvagens e indomáveis, esses gigantescos e monstruosos homens-cavalo tinham uma reputação de ferocidade em batalha que Kratos sabia que era bem fundamentada. Ele havia enfrentado essas criaturas antes e sempre as considerou como oponentes formidáveis. Mas eles não viviam muito tempo. Ao menos, nenhum que tivesse enfrentado o Fantasma de Esparta. O mais próximo o viu através da fumaça. Vociferando o seu grito de guerra, ele se empinou e virou-se para enfrentá-lo e então, sem hesitação, atacou. Kratos ampliou sua postura e esperou. Com os cascos batendo no chão, o centauro correu diretamente para ele. Kratos percebeu que não poderia ultrapassar a criatura, não com a pele das suas costas rachando e dando-lhe novo tormento a cada movimento. Ele mediu a distância e esquivou-se no último instante. Como todos os animais de quatro patas, escapar para o lado durante o ataque era impossível, estando ferido. Kratos deixou o homem-cavalo passar. Ao contrário de outros animais de quatro patas, no entanto, o centauro possuía a capacidade de girar a parte superior do corpo. E este o fez. A lança penetrou, quase empalando Kratos. Apenas um rápido desvio com sua lâmina impediu uma ferida atroz no flanco de Kratos. O homem-cavalo tentou apoiar-se em seus cascos traseiros para parar, levantar-se e girar, mas centauros não podiam virar a cara na direção oposta tão rapidamente. Kratos usou isso em sua vantagem. Ele atacou enquanto o peso do centauro prendia seus cascos traseiros no chão. Se ele tivesse tentado chutá-lo como uma mula, o ataque de Kratos teria falhado. Ele arqueou-se sobre o dorso do homem-cavalo, as Lâminas do Caos girando em amplos círculos mortais. Qualquer uma das espadas teria matado o
centauro. Sua lâmina direita enterrou-se profundamente no pescoço, enquanto a esquerda rasgou a lateral do homem-cavalo e fez jorrarem tripas repartidas na praça da cidade. Kratos perdeu o equilíbrio, escorregou no sangue do centauro e caiu pesadamente sobre o cadáver. Por longos minutos, ele só pôde jazer na poça. Ele obrigou-se a se pôr de pé e esticou-se, após recuperar um pouco de seu poder costumeiro, embora seu movimento tenha sido restringido pela pele ferida de suas costas. Ele examinou a área. Era como ele temia: Ares havia infiltrado muitos de seus exércitos pela cidade. Mais dois centauros galopavam para atacálo. Um centauro segurava uma lança enorme empunhada como um arpão em seu braço musculoso, o outro girava um peso de ferro no fim de uma longa corrente. Enquanto eles se precipitavam sobre ele, Kratos deixou-se cair. A corrente e a bola balançaram inofensivamente sobre sua cabeça, mas a lança ferroou seu antebraço – apenas a corrente embutida na carne e ligada ao osso salvou-o de perder a mão. Mas até mesmo o forte impacto não atrasou seu contra-ataque. Se ele estivesse inteiro, se seus músculos e suas costas poderosas respondessem como deveriam, seu objetivo teria sido perfeito. Em vez disso, ele errou e os centauros passaram como um relâmpago, ilesos de suas lâminas. Ajoelhando como um penitente, ele levou as Lâminas do Caos para os lados, as lâminas voltadas para trás, e cortou a parte mas próxima da perna dianteira de cada centauro. Os animais caíram para a frente e derraparam, deixando manchas de sangue na calçada. Kratos levantou-se e, com mais um movimento das lâminas, cortou suas cabeças de seus corpos. Ele sacudiu o sangue de suas lâminas enquanto procurava por novos inimigos – novas vítimas –, mas encontrou apenas chamas e carnificina. Incêndios brotavam como profanas ervas daninhas, devorando a cidade. Ele voltou para estrada até o Pártenon, cada passo mais forte que o anterior. As Lâminas do Caos, ao tomar vidas, nutriam-no e permitiam sua regeneração. A rigidez permanecia em suas costas como um lembrete de sua imprudência ao insultar um deus. Kratos usou suas lâminas, por vezes, como bengalas, para ajudá-lo a subir a estrada cada vez mais íngreme. O soldado havia dito que o Oráculo de Atena estava em um templo perto de uma estrutura majestosa, que agora ficara escurecida com a fuligem e iluminada pelas chamas da cidade abaixo. Kratos ouviu o som crescente de um sibilo que ele conhecia muito bem. Em um piscar de olhos, ele se jogou, mergulhando de cabeça, escondendo-se perto de uma parede um instante antes de outra das bolas de fogo do deus espirrar chama líquida em toda a vizinhança. A onda de fogo quebrou em cima de Kratos, e ele correu mais rápido no pátio, buscando cobertura sob o telhado de azulejos. Um toque de tal angústia era tudo o que ele podia suportar. Ele
encontrou uma fonte meio cheia, sufocada por ervas daninhas. Ele saltou sobre ela e rolou na sujeira úmida e podre. A água turva cheirava a peixe morto, mas sufocou o resto do gel ardente que havia se agarrado à sua pele. – Pelos deuses – disse, rangendo os dentes, quando uma onda de dor passou por ele. Então ele se levantou e soube que podia continuar lutando. Pela honra, por Atena – e porque era tudo o que ele sabia. Voltar à rua pavimentada revelou apenas novos obstáculos. Bolas de fogo após bolas de fogo dinamitaram todas as vias que conduziam ao cume, fazendo delas rios de fogo. Como se tivesse adivinhado o destino de Kratos, Ares fechou todos os caminhos. Kratos o amaldiçoou e se atirou mais uma vez em uma arrancada. Ele se moveu para circundar a Acrópole – devia haver alguma lacuna no anel de fogo do deus guerreiro. Sua nova energia levou-o para uma zona calma de Atenas, uma que até então escapara do pior da destruição. Pessoas espreitavam com medo nas janelas, enquanto ele passava, mas ninguém estava morto na rua, embora isso fosse apenas temporário; no lado mais distante da Acrópole, ele encontrou uma patrulha de mortos-vivos. Os esqueletos repugnantes caçavam furtivamente nas estradas, balançando foices que pareciam poder cortar as colunas do próprio Pártenon. E essas criaturas especiais, Kratos observou, usavam armaduras – armaduras que estavam escurecidas com fuligem, mas que não mostravam nenhuma evidência de fogo. Armaduras que podiam proteger os mortos-vivos das chamas de Ares eram exatamente do que ele precisava. Ele caiu por atrás dos esqueletos blindados e aumentou a sua velocidade, aproximando-se rapidamente. Algum instinto profano deve ter alertado as criaturas de sua abordagem rápida. Eles giraram as longas, perniciosas e afiadas lâminas de suas foices letais, preparadas para sentir o gosto de sangue espartano. Ele bloqueou o movimento da mais próxima com sua lâmina esquerda. Faíscas e chamas explodiram como pinheiro verde em uma fogueira. Ele virou-se para flanquear a criatura, mantendo-a, e sua armadura, entre ele e seus companheiros. Legionários o rodearam, cortando de novo e de novo; Kratos estava muito ocupado bloqueando para contra-atacar, principalmente porque não queria prejudicar as armaduras, que eram, afinal, o único motivo pelo qual valia a pena enfrentá-los. O choque das armas soltava faíscas em todas as direções. A casa atrás de
Kratos pegou fogo. Ele ignorou; e viu uma abertura para o ataque. Em um movimento, lançou as Lâminas do Caos e saltou para a frente, para aproveitar o cabo da foice do morto-vivo mais próximo. As labaredas da casa em chamas começaram a fazer bolhas em suas costas expostas e torturadas. Ele precisava daquela armadura.
Em vez de arrancar a arma das mãos da criatura, Kratos usou o seu peso para alavancar o corpo do morto-vivo e lançá-lo contra os outros. Foices foram enfiadas profundamente através do torso da criatura e, no instante em que as armas se desligaram do corpo de seu camarada, Kratos pegou as Lâminas do Caos mais uma vez. Um floreio letal, e as cabeças dos mortos-vivos caíram como pedras catapultadas. Os corpos continuaram a sacudir e balançar suas armas convulsivamente, mas a perda de suas cabeças deixou-os cegos: presas fáceis. Kratos dissecou-os com eficiência enérgica, cortando os braços e pernas, deixando apenas os torsos. Esses mortos-vivos, porém, não eram espartanos – ele precisaria de pelo menos três dos seus corseletes para fazer uma armadura que cobrisse seu peito massivo. Chutando as partes decepadas, ele pegou o corselete menos danificado, desprendeu-o e amarrou-o em suas costas; o outro, apenas ligeiramente rasgado, ele atou sobre o peito. A cobertura era imperfeita, mas ele não ia usá-la para se defender das legiões monstruosas de Ares, apenas contra o calor de matar do fogo do deus guerreiro. Um encolher de ombros assentou a armadura no melhor ajuste que ele poderia alcançar, mas antes que pudesse mais uma vez partir em busca de um caminho para o cume, ele viu outro morto-vivo entrar em uma casa. Ele mal havia prendido a armadura quando dois legionários atacaram – e estes estendiam escudos mágicos. Kratos soltou um grito de raiva quando ele retaliou. As Lâminas do Caos ricochetearam nos escudos dos mortos-vivos e Kratos cambaleou para trás. Esse instante de desequilíbrio favoreceu uma abertura para ambos os legionários. Segurando seus escudos brilhantes de ouro para o alto, eles atacaram. Kratos lutou por sua vida. Mais do que fornecer proteção contra suas Lâminas do Caos, os escudos drenavam sua força. Cada golpe que ele acertava minava seu poder. Kratos recuou até que suas costas foram pressionadas contra um muro irregular de pedra. Os dois legionários se separaram um pouco para investir contra ele de ângulos diferentes. Com um grito alto de raiva, Kratos se lançou direto para a frente, entre o escudos. Com uma cambalhota, ele girou a seus pés e inverteu as posições. Ele agora tinha os mortos-vivos apoiados contra a parede.
Ele ainda tinha de enfrentar as espadas por trás de escudos impermeáveis – danosos! – às suas próprias lâminas mágicas. Kratos baixou as Lâminas do Caos e permitiu que elas se contorcessem como cobras atrás de suas costas enquanto ele mergulhou. Os mortos-vivos baixaram seus escudos mágicos, mas Kratos havia previsto isso e girou no último instante. Os escudos explodiram com fúria quando os esqueletos caíram no chão. Kratos segurou com as mãos os tornozelos dos mortos-vivos. Contra a parede, os legionários não podiam recuar. Kratos apertou tão forte quanto podia e esmagou as pernas dos mortos-vivos. Eles apunhalaram-no com suas lanças. Kratos ignorou a dor quando as pontas penetraram seu braço, mas apenas superficialmente. As correntes das Lâminas do Caos protegeram-no do dano real. Kratos resmungou, levantou-se e derrubou o morto-vivo antes que seu companheiro pudesse atacá-lo na retaguarda. Um pisão na cabeça acabou com a ameaça do legionário caído. Kratos se abaixou quando o outro se impulsionou contra ele. A lança cavou na parede de pedra, dando a Kratos uma outra oportunidade. Tentar atravessar o enervante escudo mágico era impossível, então ele pegou o que seu primeiro inimigo deixara no chão. Ele arremessou-o como um disco no legionário, que lutava para puxar sua lança da parede. O corte mágico destruiu as pernas do morto-vivo e ele desabou para se juntar ao seu companheiro. Os punhos de Kratos repetidamente esmagaram a parte de trás de sua cabeça até reduzi-la a pó. Kratos chutou os escudos mágicos para o lado. E continuou em seu caminho ou, quando gritos vindos de dentro de um prédio levaram-no a espiar pela brecha da porta. Um homem e uma mulher agarravam-se um ao outro enquanto um legionário morto-vivo sacava facas gêmeas e estalava-as, como se saboreando o terror que imprimia neles. Usando o punho da sua espada, Kratos bateu fortemente na moldura da porta. O morto-vivo olhou sobre seu ombro, depois para o homem e a mulher. Quando ele virou seu rosto uma vez mais para o Fantasma de Esparta, descobriu apenas as bordas das Lâminas do Caos em um último suspiro, antes de ser cortado em dois, da clavícula à virilha. Kratos recuou e deixou as peças do esqueleto caírem. As pernas chutaramno debilmente. Ele ignorou. – Fomos verdadeiramente abençoados pelos deuses! – disse o homem. – Você nos salvou! – Vocês não estão salvos. Eu só atrasei a sua morte um momento ou dois. Kratos virou-se para ir embora.
– Sua energia seria melhor gasta se fugissem. – Nós estávamos homenageando Afrodite – a mulher ofertou, mostrandolhe uma pequena caixa de madeira entalhada. Estava preenchida com frascos de óleos perfumados. – Vocês deveriam estar nas muralhas, defendendo sua cidade. – Sempre há tempo para o tributo – disse ela, olhando para seu homem, que era, obviamente, um artesão e não um soldado. – Talvez para você. – ele rosnou e se afastou, em direção à rua. Antes que sua sandália pudesse tocar as pedras da calçada, Atenas desapareceu diante de seus olhos. O mundo brilhava sobre ele, e ele sentiu como se estivesse ascendendo aos céus. O brilho floresceu em ofuscante glória celeste... e desse esplendor olímpico surgiu uma mulher de tal corpo e perfeição que a visão dela o atordoou mais do que qualquer inimigo. Kratos teve de limpar a garganta duas vezes, antes que pudesse falar. – Senhora Afrodite. – Saudações, espartano. Eu gostaria de oferecer-lhe os meus agradecimentos pelo resgate dos meus discípulos. – Deusa – Kratos conseguiu balbuciar, inclinando a cabeça. – É uma honra servi-la – ele tossiu e limpou a garganta novamente – da maneira que você desejar. – Kratos. Afrodite falou seu nome tão suavemente quanto a carícia de um amante. – Zora e Lora me falaram de seus talentos. – Zora e Lora? – Kratos piscou. – As gêmeas, elas falam com você?
– Não tão frequentemente como deveriam – a Deusa do Amor ronronou. – Mas então, toda mãe tem uma queixa semelhante, eu suponho. – Você é mãe delas?
Isso explicava tantos aspectos sobre as gêmeas que Kratos se viu sem ideia do que dizer em seguida.
Um dedo delgado de uma mão fina traçou a curva dos lábios de Kratos para silenciar qualquer comentário. – Atena pediu-me para contribuir com um presente meu, para ajudá-lo em sua demanda. – O único presente de que eu preciso é a liberdade para completar a minha tarefa. Sua risada era como o repique de sinos de prata. – O que você precisa, espartano, é ser grato por qualquer coisa que um deus escolher doar a você . Ela acariciou sua bochecha suavemente. Os dedos ficaram frios enquanto acariciavam. – Você vai executar uma tarefa para mim também. – Eu já estou envolvido... – Você vai matar a Rainha das Górgonas. Kratos franziu a testa. – Mas por que ela? Por que agora? – Você é tão adorável – a deusa ronronou – que eu não vou eviscerá-lo por se atrever a questionar-me, desta vez. Você deve matar a Medusa e trazer-me a sua cabeça. O presente que eu vou lhe conceder é o poder das Górgonas: transformar homens em pedra! A deusa fez um gesto e, com uma onda, foi-se placidamente para o Olimpo. * * * KRATOS TENTOU FALAR, mas não tinha fôlego, tentou ver, mas não havia luz. Ele tentou se movimentar e não sabia se o selvagem caos rodopiante que ele experimentou aconteceu em torno dele ou dentro de sua cabeça. Ou os dois. Ele agachou-se em um lugar frio e escuro e ouviu o silvo suave das cobras. Ele se levantou. Quanto antes ele satisfizesse a sede de Afrodite pelo sangue da Górgona, antes ele poderia voltar a Atenas e encontrar o Oráculo. A escuridão em torno dele escondia as serpentes escorregadias. Ele deu
alguns passos cegos para um lado, movendo-se por uma lamaçal. Sua mão encontrou uma parede de rocha viscosa. Pressionando o ouvido contra a parede, ele esperou, entre respirações lentas e medidas, em uma tentativa de detectar quaisquer vibrações. Nada. Ele suspirou. O que ele esperava? Que Afrodite apontasse e fizesse a Medusa aparecer na frente dele? Quando seus olhos se adaptaram à escuridão, ele começou a perceber o que estava em seu entorno. A deusa o havia transportado para a junção de três túneis baixos, escavados em rocha viva. Nenhuma luz iluminava qualquer um dos túneis; a luz com a qual ele agora via era o produto de um musgo fracamente luminescente, preso às fissuras nas rochas. O túnel em frente provou ser um beco sem saída. Kratos empurrou com força a parede que bloqueava seu progresso. Sua raiva aumentava. Mais tempo perdido. O Oráculo estaria em perigo de morte, ou pior, se Ares o capturasse. Kratos não se importava se o Oráculo vivesse ou morresse, desde que ele aprendesse o seu segredo. Kratos lembrou das discussões entre seus oficiais antes da batalha, em volta da fogueira do acampamento; alguns tipos ímpios especulavam que os deuses tinham necessidade do culto humano como uma árvore precisa do sol. Poderia existir um deus sem adoradores? Pelo jeito que as coisas estavam em Atenas, Kratos supôs que ele iria descobrir. O poder de Atena decairia? Será que ela simplesmente desapareceria? Zeus pode ter proibido um deus de matar outro, mas Ares pode ter encontrado uma maneira de burlar a proibição. No passado, Ares sempre escolhera força bruta em vez de sutileza, mas talvez ele tenha aprendido a lição. Enquanto o cerco de Atenas mostrava a raiva antiga de Ares, ele podia ter uma nova estratégia em mente. Mate os atenienses e Atenas perde seguidores. Mate o suficiente e seus adoradores a abandonarão em favor de outros deuses – e quem melhor para adorar do que o Deus da Guerra, que derrotou sua deusa? Espetáculos de força nesse mundo incerto traziam as pessoas para os templos de Ares. Kratos havia, em tempos mais remotos, sido o autor de muitas dessas apresentações e fora ele próprio o símbolo terreno do poder de Ares. Os oficiais de Kratos acreditavam que um deus sem adoradores simplesmente murchava como névoa ao sol da manhã. Se tal destino se abatesse sobre Atena, a única chance de Kratos se vingar de seu antigo mestre iria evaporar com ela. E os pesadelos continuariam, sem pausas, a despedaçar sua sanidade.
Mais alguns golpes sobre o muro provaram que ele suportaria até mesmo a sua força prodigiosa. Kratos virou-se e refez seu caminho. A água à frente começou a ondular ameaçadoramente antes que ele atingisse a junção onde Afrodite o havia deixado. Kratos teve de se inclinar quase totalmente para sacar as Lâminas do Caos de suas costas e trazê-las a sua frente. No tempo certo. Das águas escuras surgiu uma serpente cuja cabeça era maior do que o punho de Kratos. Suas presas brilhavam quando ela golpeava. O veneno que escorria delas esfumaçava a escuridão e fazia a água onde caía ferver. Kratos bloqueou o ataque com uma lâmina enquanto contra-atacava com a outra. A cabeça da cobra e uma parte de seu pescoço sacudiram no ar. Seu corpo se debatia loucamente enquanto ela morria, mas a cabeça continuou tentando mordê-lo, seu olhos pretos brilhando com malícia. Kratos pressionou ambas as lâminas contra a cabeça e esperou a maldade desaparecer e morrer. Finalmente, ela o fez. Ele olhou para cima a tempo de ver mais ondas se aproximando: cobras nadando sob a superfície escura, em número grande para ele evitar. Uma o agarrou, suas presas se dirigindo rigidamente à sua greva, mastigando como se pudesse fincar suas presas através do bronze pesado. Kratos não esperou para descobrir se ela podia. O punho de uma lâmina esmagou o crânio frágil. As presas e os ossos do maxilar mantiveram-se presos à sua armadura. A água ferveu à frente e mais cobras cercaram-no, muitas para contar. Kratos apunhalou repetidamente para dentro da água a sua frente, um cego floreio que transformou as lâminas em um escudo de morte. Ele seguiu para a frente com severidade, até chegar à junção novamente. A água se tingiu de vermelho com o sangue das cobras. E então a água acalmou-se. O gotejamento de umidade das paredes era tudo que ele podia ouvir. Kratos olhou para a água e notou movimento, mas não de serpentes. Ele levantou o pé e trouxe-o para baixo, tentando esmagar qualquer criatura abaixo da superfície. Ele sentiu seu pé deslizar no contorno de uma bota entalhada na pedra. Curioso, ele deslizou o outro pé pela bota e encontrou uma reentrância correspondente. Por um momento, ele ficou com os dois pés nas marcas subaquáticas. Quando ele começou a avançar, ele sentiu uma pequena vibração, que se intensificou até balançar as correntes incorporadas em seus pulsos. Kratos viu o musgo fosforescente contorcendo-se nas paredes. Ele levantou um pé da reentrância e o musgo parou de brilhar. Recolocar o pé fez o musgo brilhar mais uma vez. Curioso, ele estendeu a mão para tocar o musgo. Como uma cobra, ele retorceu-se sinuosamente em seus dedos. Ele rosnou do fundo de sua garganta. Este era o único som, salvo o lento gotejar da umidade.
Pressionando-o, ele forçou o musgo animado a se dirigir para a ponta de seu dedo. O musgo girou, circundando o local na parede de pedra onde Kratos apertou, como se mostrasse uma saída de um túnel que parecia uniforme. Inclinando-se um pouco, ele aplicou pressão. Nada aconteceu. Ele saiu dos contornos sob seus pés, e o musgo cessou sua iluminação. Kratos andou com passos pesados até o fim do túnel e encontrou apenas outra parede vazia. A investigação extensiva demonstrou que não havia nenhuma saída dos túneis subterrâneos – nenhuma que ele pudesse encontrar. Ele alcançou as Lâminas do Caos e parou. – Duas mãos. Pode haver algo, se eu usar as duas mãos. Ele voltou para as reentrâncias, enfiou os pés nelas e moveu seu dedo pela parede da direita até que o musgo novamente circulou um local específico. Ele apertou. Nada. Alcançando a outra parede e repetindo o movimento, produziu outro rabisco de verde-musgo brilhante. Dessa vez, ele moveu seu dedo em um círculo mais extenso, e encontrou um local muito mais alto na parede antes que o musgo parasse de se contorcer e lhe presenteasse com um ponto específico. Kratos pressionou, com os dedos sondando cada um dos pontos marcados. – Poderoso Zeus – ele sussurrou. Seus olhos se arregalaram quando uma parte do teto começou a descer. Em vez de saltar para trás para se defender, ele se manteve firme até que o alçapão se abriu, mostrando-lhe uma escada que levava para cima. Retirando os dedos dos pontos e pisando rapidamente, ele chegou até a escada quando ela começava a recuar para o alto. Pendurado, ele deixou o alçapão levá-lo para cima até uma sala cujo chão estava cerca de trinta centímetros acima de uma corrente que fluía lentamente. Um canal de pedras hermeticamente depositadas continha o fluxo em seu local. Ele se sacudiu para se secar. A cobra com suas presas enterradas em sua greva se libertou, quando ele raspou sua armadura até a canela com a ponta de sua lâmina. Ele nem havia percebido que ela ainda se agarrava a ele com tal tenacidade. Essas cobras-d’água venenosas não eram nada comparadas com a presa que ele procurava. Não só ele teria de enfrentar um monstro capaz de transformá-lo em pedra, se ele apenas olhasse para seu rosto, como apenas tinha de encontrar uma Górgona em particular. A Rainha Medusa governava suas irmãs, mas, a menos que ela usasse uma coroa e um cetro, Kratos não tinha como discerni-la do resto. Suas sandálias rasparam contra a pedra quando alguém se aproximou, ao longo do túnel seco à frente. Ele levantou as lâminas, mas algum instinto
primitivo alertou-o para não lutar. Sagacidade, mais uma vez, poderia trazer a vitória, exatamente como ele havia descoberto o caminho secreto para esse covil. Kratos recuou e colocou-se do tornozelo até o pescoço em um raso nicho de pedra, forrado com estantes vazias. Outros nichos cobriam as paredes da câmara, mas a maior dessas estantes estava abastecida com objetos. Parecia um palpite certeiro que quem se aproximava vinha buscar os itens do armazenamento e, portanto, não se preocuparia em olhar para um nicho vazio. E, se ele estivesse errado, ainda tinha as lâminas. Eles encontrariam esse gabinete particular estocado com morte rápida e sangrenta. Dois homens entraram. Um deles, um corcunda, conduzia o outro, um velho que usava um trapo imundo amarrado em seus olhos. Eles começaram a selecionar os itens em cantos e fendas. O corcunda entregava ao cego duas caixas para cada uma que apanhava para si. – Minhas costas estão quebrando com a carga – disse o corcunda, reclamando. – Carrega outra para mim, vai? – Eu mal consigo ficar de pé, Jurr, mas vá empilhando. Nós não deveríamos ousar fazer duas viagens. Nós não podemos nos atrasar, ou a Rainha Medusa vai nos punir. – Mais uma vez – disse Jurr. – Uma vez por dia é mais do que posso suportar. Minhas costas ficam cheias de chagas das surras que ela me dá. Ele empilhou várias caixas mais pesadas na carga já considerável do outro, mantendo apenas um par de carregamentos leves para si mesmo. Kratos observou enquanto saíam, o homem cego esmagado por sua carga enquanto o corcunda mostrava um passo mais vivaz. Kratos não se importava com isso. Claramente, havia dois tipos de pessoas nesse labirinto subterrâneo: aqueles que faziam todo o trabalho e aqueles que podiam ver. Sendo um dos últimos, Kratos não estava propenso a atrapalhar o arranjo. O único som que Kratos fez quando os seguiu foi o som fraco de água espremendo-se em suas sandálias. Enquanto ele andava, riscava marcações de trilha no musgo luminescente. Se ele tivesse sucesso, poderia ter de encontrar seu próprio caminho para sair dali. Talvez Afrodite o arrebatasse de volta para Atenas, mas talvez ele fosse obrigado a voltar para onde ela o havia deixado originalmente. Ele nunca havia perdido por se preparar contra a traição. Especialmente dos deuses. * * * – TRAGA MINHA REFEIÇÃO, seu verme nojento!
Essa era uma nova voz, vinda de uma câmara à frente, onde uma lâmpada afastava a escuridão. Kratos parou e comprimiu-se nas sombras fora do arco. Embora a voz fosse baixa e áspera, como rochas sacudidas em um jarro de bronze, ele distinguiu um traço de entonação que lhe disse que o orador talvez fosse do sexo feminino. Se ele estivesse certo, um olhar descuidado o condenaria pela eternidade como uma estátua de pedra, sendo insultado por Górgonas nessa perdição crepuscular. O homem com visão, Jurr, respondeu: – Imediatamente, Senhora Medusa. Eu trouxe as guarnições. – Você? – o cego começou. – Eu trouxe as...
– Shh. – Calem suas vis bocas, humanos, e comecem a trabalhar! Minhas irmãs e eu ficamos mais famintas a cada momento. E com mais raiva.
Sua voz assumiu uma aspereza perigosa. – Isso me coloca em um clima de punição. – Ohhh – o cego gemia baixinho. – Oh, Zeus, mate-me antes que ela me toque mais uma vez! – Pelo menos você não pode ver, seu bastardo sortudo – Jurr rosnou suavemente. – Os espelhos, aqueles malditos espelhos em seu quarto! Para todo lado que ela se vira, ela pode ver seu horrível reflexo. Um tinir de potes e os sons do fogo sendo alimentado atraiu o olhar de Kratos. Ele lançou um olhar mais rápido que um piscar de olhos, mas que captou toda a cozinha. O cego decantava algum tipo de carne em um caldeirão de barro do tamanho de uma banheira, enquanto Jurr acendia o fogo abaixo. Aparentemente, a Rainha das Górgonas preferia carne de cordeiro... Não, aqueles não eram cordeiros, Kratos percebeu, e um nó frio se formou em sua barriga. Eram crianças humanas. Kratos cerrou os punhos, querendo atacar, depois de ver tão horrível ceia. Crianças. Crianças humanas como sua própria filha, sua querida filha, que... Ele deu um passo à frente, mas forçou-se a voltar para esconder-se até o
momento adequado. Sua raiva crescia por conta da refeição canibal, alimentando sua necessidade de destruir as Górgonas. Tomar a cabeça da Medusa fora decreto de Afrodite – e ele teria um prazer sombrio no serviço, comandado por uma deusa ou não! Logo, o cego carregou um cepo enorme, cheio de vapor do ensopado de bebê, e o arrastou na direção de uma arcada escura através da pequena cozinha. Jurr observou-o e andou, com passos leves como os de um gato, até a chaleira grande, pegou uma concha e mergulhou-a, segurando-a até o nariz para captar o aroma. – Aquele velho cego desgraçado está finalmente aprendendo a cozinhar – Jurr murmurou, trazendo a concha para seus lábios. Mas antes que ele pudesse provar o ensopado de bebê, uma mão enorme o agarrou pelo pescoço e puxou-o para o ar. Ele deixou cair a colher na sopeira e tentou gritar, mas a mão ao redor de seu pescoço reduziu sua voz a um guincho. Ele lutou, balançando suas pernas e arranhando a mão, mas a pele cinzenta parecia mais dura do que o bronze. Ele encontrou-se, um momento depois, cara a cara com o Fantasma de Esparta. Seus olhos se arregalaram, e um grasnido estrangulado passou por entre os dedos de Kratos. – A Medusa – Kratos sussurrou. – Onde? Apenas aponte. Aponte e eu o deixo ir. Por meio de um aceno frenético de suas mãos, Jurr conseguiu indicar que o quarto de dormir da Rainha das Górgonas ficava atrás da primeira porta à direita, ao longo do corredor escuro. Kratos assentiu. Um aperto rápido esmagou o aparelho fonador de Jurr, de modo que ele não pudesse gritar e para que Kratos não tivesse de ouvir qualquer súplica patética. Kratos levantou o cozinheiro de bebês acima do caldeirão de sopa fervente e, em seguida, fiel à sua palavra, deixou-o ir. Kratos sabia que ele estaria em perigo real no primeiro instante que adentrasse a câmara da Rainha Medusa. Se ele confundisse a Medusa real com um de seus reflexos e olhasse em seu rosto, ele não teria uma segunda chance. “A sorte favorece os audazes”, pensou ele, e atacou. Com um salto de pantera, Kratos surgiu através do arco oposto, alcançando a porta para a câmara da Medusa um instante após o homem cego. O cego equilibrou o cepo cambaleando com uma mão, enquanto abria a porta com a outra. Ouvindo Kratos atrás dele, o cego deu meia-volta.
– Jurr... – foi tudo o que ele teve tempo de dizer, antes de Kratos arrebatar o cepo e, com um chute poderoso, enviar o cego voando no meio da câmara à frente. Kratos teve o cuidado de olhar apenas para o teto. Jurr não havia mentido – mas ele não havia sequer chegado perto de contar toda a história. Espelhos cobriam as paredes. E ainda mais espelhos estendiam-se lado a lado na amplitude do teto. Os espelhos ali mostravam o cego avançando diretamente para o monstro horrível. Antes que qualquer um deles tivesse a chance de reagir, as cobras do cabelo da Medusa instantaneamente se destrançaram e golpearam o homem cego, enrolando-se por todo o seu corpo e mastigando-o, como a cobrad’água havia mastigado a armadura de Kratos. As cobras se contorceram quando o cego começou a ter convulsões e o seguraram perto da face da Medusa. Tripas misturadas se refletiam no espelho, e Kratos decidiu que não precisava mais do resto do plano. Três passos rápidos o trouxeram para perto do moribundo e da Górgona, que gritava de raiva enquanto tentava unhar o escravo infeliz para longe de seu rosto. Assim que ela, finalmente, conseguiu afastá-lo, levantou a cabeça e, na parede espelhada, viu sua morte de pé às suas costas. Kratos saltou no ar, golpeando para baixo com os dois pés e dirigindo a cara do monstro para o assoalho da câmara. No mesmo instante, as Lâminas do Caos brilharam em um golpe convergente para cortar as clavículas e a parte de trás de suas costelas superiores. Kratos liberou as lâminas e enfiou as mãos na ferida. Conduzindo os dedos na desordem viscosa do tecido da Górgona, ele agarrou sua coluna e, com um poderoso puxão, arrancou a cabeça de seu corpo. As serpentes na cabeça atacaram seu braço, mas fracamente; seu veneno havia sido gasto com o cego. Ele parou por um momento, em respeito ao reflexo do seu olhar mortal no espelho: aqueles olhos assustadores, as presas compridas, os cabelos de cobras vivas. * * * KRATOS ARQUEOU AS COSTAS como se um movimento o tivesse puxado mais uma vez. Do escuro, iluminado por musgos das câmaras subterrâneas, ele foi transportado para um lugar de brancura deslumbrante e resplandecente. – Você fez bem, meu espartano. “Eu não sou seu espartano”, ele pensou, mas disse apenas: – Senhora Afrodite?
Ele usou a mão livre para proteger seus olhos contra o brilho e então pôde decifrar parcamente as sedas diáfanas que se aderiam convidativamente ao corpo da deusa. Ela pegou a cabeça decepada em suas mãos, segurando-a pelas cobras, agora mortas, que lhe serviam de cabelo. – Senhora Afrodite, terminei minha missão consigo? – Ah, sim – uma última coisa, agora que eu tenho a certeza de que você concluiu a sua missão. Aqui – disse ela, segurando a cabeça decepada da Medusa, seu rosto cuidadosamente afastado. – Tome-a pelas cobras. Isso mesmo. Cuidado para não olhar em seus olhos. Agora, atire-a de volta sobre seu ombro, como se estivesse guardando uma dessas espadas impressionantemente grandes que você usa. Kratos o fez e sentiu as cobras evaporarem de suas mãos. – O que aconteceu? Para onde ela foi? – Ela vai estar aí quando você quiser. Basta buscá-la de volta, e ela estará em sua mão; vire-a do lado certo quando estiver pronto para petrificar. – Como é que isso funciona?
– É mágica. Só mais uma coisa que você deve saber: Estar morta diminui o poder da Medusa. – As pessoas não vão virar pedra? – Ah, elas vão. Elas só não vão ficar assim por muito tempo.
Kratos olhou diretamente para Afrodite, esperando a explicação completa. – Dez segundos de um raio completo dos olhos. E o que quer que você faça, não a perca.
Afrodite estendeu as mãos e olhou-o com estima. – Atena a quer de volta quando você tiver acabado sua demanda. Ela tem alguns usos para isso. Algo sobre um escudo... talvez uma capa? Bem, não importa. Você destruiu a Rainha das Górgonas, e agora o poder dela é seu! Em um instante, ela se elevou sobre ele como uma montanha, como se seu cabelo roçasse a lua, sua voz soou como um grande sino de bronze. – Congele e destrua todos eles com o Olhar da Medusa! – a deusa trovejou. – Vá com os deuses, Kratos. Vá em frente, em nome do Olimpo!
Antes que ele pudesse respirar para responder, ele estava em Atenas mais uma vez. Ares ainda se erguia sobre a Acrópole, lançando bolas de fogo grego do tamanho de casas para todos os lados. Quando Kratos recuperou sua orientação, encontrou-se mais uma vez na zona tranquila da qual a deusa o havia levado. Ele ainda estava no outro lado da Acrópole, do Templo de Atena – e de seu Oráculo. Ele abaixou a cabeça e correu. Correu como um leão em busca de um cordeiro, rápido como um falcão, incansável como o vento. Ele tinha de correr. Tanto tempo foi desperdiçado, e para quê? Um poder de que ele não precisava. Um poder que não tinha nada a ver com encontrar o Oráculo, nem com derrotar o Deus da Guerra. Se Afrodite quisesse realmente o ajudar, deveria tê-lo colocado na porta do Templo de Atena e enfiado o Oráculo em seu colo. Deuses e seus jogos. Ele estava cansado de todos eles. Uma vez que ele matasse Ares, ele teria acabado com seu tempo de servidão e com suas exigências insanas. E os pesadelos seriam banidos de seu sono, de cada instante de vigília. Para sempre.
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