sábado, 19 de maio de 2018

CRÔNICAS 58 : GOD OF WAR

Vinte e quatro

Kratos estava em uma sala circular com dois arcos exatamente de frente um para o outro, que se abriam em corredores. Ele virou-se para trás, esperando criaturas ou combatentes se derramarem através de um ou de ambos os arcos. Com as costas voltadas contra a parede, ele esperou a morte se aproximar. Nada aconteceu. Ele olhou em volta, confuso. Será que existia algum outro aposento nesse local, nesse complexo antigo, absolutamente vazio? Nenhuma armadilha. Nenhum monstro. Nenhum obstáculo intransponível. Duas saídas. Isso era tudo. Pela primeira vez, ele estava começando a se preocupar. Ele caminhou para um arco e espreitou. O piso se transformou em uma espiral descendente, reduzindo sua visão do que estivesse a mais do que alguns metros de distância. Ele pressionou seu ouvido contra a parede. Nada. Ele girou, espadas prontas... mas nada estava rastejando atrás dele. O outro arco se diferenciava do primeiro apenas pelo fato de ter o corredor em espiral para cima, em vez de para baixo. Uma escolha simples. Uma escolha direta. Para cima ou para baixo. Atena havia dito que a Caixa de Pandora descansava no cume, e que abaixo havia apenas a derrota e a morte. Ele supôs que tinha ido um pouco longe demais para começar a duvidar da deusa naquele momento. Ele se moveu com cuidado para a espiral ascendente, aproximando-se silenciosamente para cima com as lâminas nas mãos, pronto para qualquer coisa. Quase qualquer coisa. Qualquer coisa, exceto o que ele encontrou. O espaço que se abriu acima era enorme, aberto a um céu da meia-noite e o brilho frio de incontáveis estrelas. Havia luz ali, no entanto: a luz do fogo. Essa fogueira era da cor das cidades em chamas, e ela cintilou do cabelo e da barba no topo da figura montanhosa do deus equipado e blindado diante dele. Um choque gelado terrível varreu o seu corpo e sacudiu-o como uma folha morta em uma tempestade de inverno. Sua voz saiu num sussurro, uma crua respiração. – Ares...
Os deuses sempre ouviam os seus nomes quando chamados, mesmo que apenas no sonho de uma criatura do lado mais distante do mundo. O sussurro de
Kratos trouxe o Deus da Guerra tão rápido como uma tempestade com trovões girando em um tornado. – Kratos... – a voz de Ares rangia como um deslizamento de terra. – Eu sabia que você era demasiado estúpido para fugir de mim para sempre!
E agora que o fim havia chegado, Kratos descobriu que ele estava pronto para isso, afinal. – Fugir? De você? – Kratos gritou a plenos pulmões, jogando os braços largos para sacudir as Lâminas do Caos. – Você me treinou muito bem, eu aprendi demasiadamente bem para sequer pensar em fugir! Ares puxou sua lâmina do tamanho de um navio de guerra, com um som como o de gritos de crianças assassinadas. Seus cabelos flamejantes choveram fogo em cima de Kratos quando o Deus avançou. – Você fala como um homem, mas treme como uma mulher . A sua mulher tremia assim?
Toda a esperança de contenção incinerou-se no fogo branco da raiva de Kratos. Ele atirou-se contra o deus com todos os fragmentos de sua força sobrehumana, libertando as Lâminas do Caos e sacando a espada dada a ele por Ártemis por sobre o seu pescoço. Enquanto caía, ele conduzia a beirada irresistível da lâmina para baixo através do pé do deus. A Espada de Ártemis se converteu em carne olímpica até seu punho, e Ares riu. – Eu agradeço a você, espartano. As pulgas de areia estavam me dando uma coceira terrível.
– Eu vou lhe dar mais do que isso – rosnou Kratos, quando ele rolou através do peito do pé do deus. Ele pulou de cabeça em direção ao joelho de Ares, a espada de Ártemis levantada para cortar o tendão, mas a espada enorme do deus relampejou e esbofeteou Kratos no ar, como se o espartano não fosse mais do que uma vespa ou uma mosca a incomodá-lo. Kratos foi arremessado violentamente pelo ar até bater com força impressionante em uma parede. A pedra em suas costas se desintegrou, e ele escorregou para o chão, tentando sacudir o embaçamento em seus olhos e o assobio de suas orelhas. O deus o havia atacado. Bateu-lhe com a parte chata da lâmina, como um pai espartano disciplinando uma criança desobediente.
Ares não o respeitava o suficiente para usar a ponta da espada. – E por que eu deveria? – disse o deus, como se pudesse ouvir os pensamentos de Kratos. – Você não seria mais do que os ossos depenados e merda de corvo se eu não tivesse lhe salvado. Você se lembra, espartano? Você se lembra de cair de joelhos, com lágrimas no rosto, enquanto pedia, implorava como um cão vira-lata, como um escravo, para salvar sua vida inútil? Se um de seus homens implorasse assim, você o teria assassinado por envergonhar Esparta! – Você deveria ter me matado – Kratos rosnou. – Minha fraqueza desonrou Esparta, e todo o mundo estaria melhor hoje se eu tivesse morrido naquele campo. – Sua honra espartana não significa nada para mim. Você implorou. Eu respondi. Eu me levantei no Olimpo e desci sobre aquele campo para secar suas lágrimas. Para lutar a batalha por você. Para ganhar o que você havia perdido. Para triunfar naquilo que você tinha falhado.
O deus levantou seu pé do tamanho de uma casa para esmagar Kratos como uma formiga debaixo de sua sandália. Kratos tentou mergulhar para fora do caminho, mas o deus era tão rápido quanto era enorme. A sandália prendeu-o ao chão, seu rosto virado para baixo. Kratos sentia o gosto de sujeira e de sangue e, em um segundo, viu-se de novo, espancado na terra sangrenta pela marreta imensa do rei bárbaro. Ele ouviu a sua voz clamar a Ares e jurar servidão eterna. – Você se lembra do que você me disse naquele dia? O preço que você colocou na sua sobrevivência sem valor? Diga agora, Kratos. Diga as palavras.
A pressão do esmagamento da sandália nas costas aumentou. Kratos sentiu suas costelas quebrando, e ele já não podia respirar. E ele ouviu em sua memória as palavras que tinha proferido naquele dia. Minha vida é sua, Senhor Ares. Eu lhe juro.
Mas aqui e agora ele não conseguia fazer seus lábios formarem as mesmas palavras. Ele tentou, realmente tentou, dizer a si mesmo que nove pequenas palavras não significavam nada, que dar ao deus a sua vitória insignificante significava que Kratos tinha outra chance de encontrar a Caixa de Pandora e enfrentar o Olímpico louco por sangue de forma parelha, mas as palavras não saíram. Ele não podia nem pensar verdadeiramente nelas.
A sala e o peso esmagador do deus desapareceram atrás de suas visões, os pesadelos de vigília que transformaram sua vida em um mar de sangue e
sofrimento. Ele serviu Ares não só com sua espada, mas com todo seu coração, sua mente, e com cada pedaço de seu dom para a irreversível brutalidade. * * * O EXÉRCITO DE ESPARTA tornou-se invencível. Guerreiros oponentes tremiam de medo ao ver os espartanos de Kratos entrarem na arena de batalha; assim que a primeira lança fosse atirada, eles largavam as suas armas e corriam para casa para tremer atrás das saias de suas mães. O Punho de Ares não tinha piedade. Soldados que fugiam eram castrados. Pessoas que imploravam por paz eram brutalmente assassinadas. Todo mundo tremia diante do grito de guerra dos espartanos que Kratos encabeçava. Sem piedade. Sem prisioneiros. Sem clemência. Muitos foram os príncipes que imploravam que Kratos aceitasse as suas rendições, para salvar os remanescentes de seus exércitos e de suas cidades, mesmo que isso significasse a escravidão em uma cozinha espartana. Ele se recusava a ouvir esses pedidos. A rendição nunca foi concedida. A vitória ou a morte em combate eram os únicos resultados aceitáveis. Kratos não esperava menos de seus próprios soldados. Kratos dizia a seus soldados que ele matava porque Ares o comandava, mas na verdade matava para seu próprio deleite. Ele matava porque o massacre era o seu dom. Sua paixão. Porque ele amava nada mais do que o cheiro de sangue, os gritos dos moribundos, a visão de um exército de cadáveres apodrecendo no campo de batalha.
* * * – E SE ISSO FOSSE VERDADE – retumbou o deus que agora mantinha-o preso na arena – você ainda seria o Punho de Ares na terra, e o mundo ainda trepidaria ao mero rumor de que Esparta marchava para a guerra. Isto é porque você não me amou o suficiente, Kratos. Porque o seu coração ainda estava apegado à sua...
– Não... – Kratos resmungou com o que lhe restava de voz. – Não... As visões o tomaram completamente agora: ele se viu na última noite que serviu o Deus da Guerra. * * * – OS ALDEÕES OUSAM se ajoelhar a Atena! A Atena! Este lugar é uma afronta a Ares! Queimem-no até não restar nada!
Kratos pegou uma tocha e lançou-a, girando pela noite para aterrissar em cima de um telhado de palha. As faíscas pequenas tornaram-se um incêndio e, em seguida, todo o telhado desmoronou, devorando a cabana em minutos. Com um grito de guerra, Kratos levou sua horda de assassinos selvagens para a aldeia. Os poucos aldeões que saíam para defender seus lares estavam armados com pás e bastões de plantio, sem esperança de resistirem contra seus guerreiros endurecidos pelas batalhas. Kratos caminhou pela confusão, cortando e cutilando,5 matando sem esforço, sem nem ao menos notar quem ele estava assassinando... até que ele chegou ao templo da aldeia. O Templo de Atena. E a mirrada e velha bruxa rabugenta, o seu Oráculo, que ousou barrar sua passagem... Um nó se formou em sua barriga. O fedor de carne cozendo combinado com o da madeira e da palha, quando casa após casa eram reduzidas a cinzas. O templo parecia deserto. Mas um mau pressentimento fez Kratos pausar... Mas... Era um santuário dedicado a Atena. A sua existência era a razão para esse massacre. Como ele poderia deixá-lo em pé? – Todos para fora! – ele gritou, batendo duro na madeira grossa da porta com o punho da sua espada. Quando ninguém respondeu, ele recuou e usou as Lâminas do Caos para reduzir a porta a lascas. Um pequena e encurvada mulher nubiana colocou os pés para fora. Ela usava um vestido verde brilhante marcado com a letra ômega na parte da frente. – Sacrilégio – disse ela, colocando o dedo em riste. – Cuidado com as blasfêmias contra a deusa, Kratos! Não entre neste lugar! Kratos deu um tapa na velha com as costas da mão, golpeando-a para o chão. – Nunca tenha a pretensão de dar ordens a um espartano. Ele chutou a porta e correu para o templo. Dois sacerdotes vieram em direção a ele. As Lâminas do Caos brilharam e causaram uma morte ardente aos dois homens. Kratos rugiu de raiva quando outros suplicantes se agitaram no templo. Ele correu para a frente, não precisando nem mesmo ver a posição de suas vítimas enquanto cortava ritmicamente: esquerda, direita, esquerda; e mergulhou adiante. Não havia nenhum pensamento de contenção, não havia necessidade de cautela; havia apenas sangue e morte e triunfo, Kratos estava à vontade... E por isso ele não prestou atenção à última de suas vítimas, e não hesitou em
abater as últimas duas suplicantes no templo da aldeia: uma mulher e sua jovem filha...
* * * O CHOQUE TERRÍVEL com o que ele havia feito rompeu a visão e trouxe-o de volta para a arena do templo onde o deus esmagava a sua vida. Mas naquele instante, milagrosamente, o peso em suas costas desapareceu. Ares tinha levantado o pé e retornado ao centro da imensa arena. – Vamos lá, seu nada desprezível, seu assassino insano! Você queria lutar , vamos lutar!
Kratos se levantou do chão e sacudiu o nevoeiro de sua cabeça. O pé que o deus tinha baixado nas suas costas tinha sido o mesmo que o espartano havia esfaqueado com a espada de Ártemis. Ele viu claramente a goiva deixada na pedra pela lâmina mágica quando a tinha cravado na carne do deus... Mas a goiva no piso estava seca como o Deserto das Almas Perdidas lá fora. Não havia sangue. Kratos olhou a parede atrás dele, para a mancha de sombras que ele lançava à luz dos braseiros onipresentes. Ele visualizou a parede além de Ares, onde a forma colossal do deus não produzia nenhum tipo de sombra. Ares não era Ares. O deus não era real. – Eu sou real o suficiente para quebrá-lo, espartano. Você quer me matar? Venha e experimente, seu mortal desprezível!
As costelas de Kratos ainda doíam com a memória da sandália do deus esmagando-o contra o chão, o sangue ainda escorria de um corte em sua cabeça, causado pelo impacto da parte chata da lâmina de Ares. Embora parecesse que Kratos não podia prejudicar esse Ares, o inverso claramente não se aplicava. – Por que você espera? Você percebe agora como é impossível tentar matar um deus?
Kratos queria matar Ares. Sua sede pelo sangue do deus queimava como sol em suas veias. Mas esse não era Ares. Não era de se admirar que o deus parecia estar lendo sua mente, esse “deus” fantasmagórico era um produto da sua imaginação. Como o rei bárbaro em suas visões.
Como os pesadelos com sua esposa e filha. Para destruir esse fantasma Ares, Kratos teria que ser forte o suficiente para prevalecer contra a sua própria mente, mas se ele tivesse tal força, nunca teria tido necessidade de oferecer seu serviço a Atena, em primeiro lugar. Ele teria sido forte o suficiente para conquistar seus pesadelos, para banir sozinho as memórias do seu crime. Mas ele não tinha essa força. Ele sabia disso. Por dez anos ele se esforçou para silenciar as vozes em sua cabeça, para cegar o olho de sua memória. Esse Ares fantasmagórico era um inimigo que ele nunca poderia derrotar até que ele conquistasse a si mesmo. Kratos recuou. 5 A expressão original – hacking and slashing – se refere à mecânica de jogos que enfatiza o ataque próximo aos oponentes. (N. E.)

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