sábado, 19 de maio de 2018

CRÔNICAS 44 : GOD OF WAR

Nove

A fumaça aplainou do alto da Acrópole, um denso negrume que sufocou o Pártenon na montanha e aproximou-se para estrangular Kratos. A armadura resistente que ele havia tirado dos legionários mortos-vivos o blindou contra o calor mortal das chamas e protegeu as suas costas queimadas por Ares, mas ela não poderia ajudá-lo a respirar. Asfixia, falta de ar, ele tinha de voltar e encontrar um caminho mais eficiente em direção ao cume. Nenhuma das bolas de fogo do deus guerreiro havia ainda tocado esse lugar em particular, mas a área não escapou das atenções das legiões de Ares. Havia bandos de monstros errantes de todos os tipos: combinações de minotauros e centauros na cavalaria, ciclopes na infantaria pesada, esqueletos arqueiros, legionários, harpias, espectros... e o que era aquilo?
As criaturas pareciam mulheres horrorosas, com uma única e longa cauda de serpente no lugar das pernas. Serpentes se contorcendo ornavam suas cabeças e crepitantes feixes verdes de poder se derramavam de seus olhos... Parecia que a morte de sua rainha trouxe o resto das Górgonas para a luta. Mas... toda a Grécia sabia que havia apenas três Górgonas: Ésteno, Euríale e, claro, a recentemente falecida Medusa. Ainda assim, Kratos viu uma dúzia das criaturas repulsivas e não teve nenhuma dúvida de que outras estavam se espalhando pela cidade nesse mesmo instante. Matá-las alimentaria a sua ira e daria a ele uma distração momentânea do pesadelo sempre presente, tremulando na superfície de sua mente, mas seria apenas um desperdício de tempo, que ele e o Oráculo não tinham de sobra. Uma solução permanente para as suas visões aguardava. Ele procurou por um caminho livre para o Oráculo de Atena. Kratos se abaixou em um beco e subiu em um barril, a partir do qual ele poderia saltar para uma varanda e escalar rumo ao telhado. Atenas queimava. Salvo apenas a vizinhança em torno dele, toda a cidade estava em chamas. Às vezes, ele via as Longas Muralhas através da fumaça. As faíscas produzidas pelo choque das armas lhe disse que os soldados ainda desperdiçavam suas vidas em uma fútil tentativa de manter um muro que já não defendia a cidade. Todo mundo tinha de morrer em algum lugar; se defender sua parede inútil lhes dava a ilusão de morrer por uma causa nobre, quem era ele para negar seu heroísmo vão? Homens haviam morrido sob suas lâminas afiadas por menos. Kratos avançou lentamente pelo telhado, procurando um caminho para subir a colina. Movimentava-se com cautela, para evitar atrair a atenção das harpias que mergulhavam cá e lá através da fumaça. O velho ao portão havia dito que a câmara do Oráculo estava no lado leste do Pártenon. Em toda a face
da Acrópole, ele conseguia distinguir fracas manchas marrons que poderiam ser trilhas, mas a fumaça as tornou brumosas e escondeu totalmente outras estradas. Quando se moveu para a borda do telhado para ter uma visão melhor, uma flecha zuniu por seu ouvido. Kratos caiu de bruços e deixou mais flechas passarem sobre ele. Ele arriscou um rápido olhar sobre a beirada e localizou um punhado de arqueiros mortos-vivos que haviam tomado uma varanda nas proximidades. Kratos viu um homem se aventurar na rua, apenas para tomar uma flechada na barriga e, quando ela detonou, a explosão de chamas esparramou as vísceras do homem por toda a fachada de sua própria casa. Os arqueiros só cessaram fogo quando não conseguiram encontrar outros alvos. Kratos se abaixou quando uma nova bola de fogo grego denotou a quatrocentos metros de distância, mais ou menos onde ele acreditava que estaria a estrada que levava ao cume da Acrópole. Um quadro sombrio pintou-se dentro de sua mente. Os adoradores de Atena iriam naturalmente correr para o Pártenon, quando encontrassem sua cidade sob ataque do Deus da Guerra. Ares semeou fogo em toda a cidade, poupando apenas esse quarteirão, no qual corria a estrada até a Acrópole – o que, naturalmente, atrairia os adoradores como moscas ao estrume. E o deus tinha seus monstros patrulhando as ruas, impedindo movimento mais adiante. Kratos entendeu: o Deus da Guerra estava deliberadamente canalizando os mais devotos e dedicados do rebanho de Atena em uma pequena área da cidade – fazendo parecer que essa seria a área mais segura, bem como a única rota para o templo de sua deusa. Em vez de fugir para o campo, onde localizá-los e abatê-los seria uma tarefa difícil até mesmo para o asseclas de Ares, eles estavam se acumulando na segurança ilusória dessa única região. Concentrando-se onde eles poderiam facilmente ser destruídos. Todos de uma só vez. Sem confusão. Sem sujeira. Sem perseguir o povo pela floresta ou desencavá-lo das cavernas nas montanhas. Os cidadãos de Atenas haviam feito de si nada mais que gado correndo para o matadouro. Era brutal, e ele sabia que seria muito eficaz. Ele próprio fizera esse tipo de coisa. Kratos segurou suas têmporas para impedir a cabeça de explodir quando uma imagem queimou mais quente do que o sol através de seu cérebro. Não! Não podia ser... Os mortos, aqueles que ele havia abatido no Templo de Atena... Culpado! Ele havia assassinado... Ofegante, Kratos forçou a visão horrível para fora. Elas se agarravam a ele cada vez com mais força, mas entregar-se ao horror não o faria chegar ao Pártenon mais facilmente. Ele podia subjugar seus próprios pesadelos – por um
curto período –, mas parecia que os monstros estavam se reunindo nas ruas abaixo para bloquear seu caminho. E ele sabia que aqueles arqueiros mortosvivos não se esqueceram de que ele estava ali. Ele tinha de agir. Rápido. Por outro lado, ele não viu razão para entregar a posição de terreno elevado. Três passos largos para um impulso o levaram para a borda do telhado, e um salto poderoso o atirou violentamente sobre a rua para o telhado oposto. Os esqueletos arqueiros ficaram tão surpresos que nenhum deles tentou atirar. Enquanto ele corria, ouviu um minotauro berrar um comando, e sabia que fora visto pelo exército abaixo. Seu próximo salto atraiu uma saraivada de flechas de fogo, embora nenhuma tivesse chegado perto – e ele pôde ver legionários mortos-vivos montados nas costas dos centauros, correndo em paralelo ao seu caminho nas ruas abaixo. Outro telhado e outro salto, e harpias começaram a mergulhar em sua direção. Ele se esquivou e se abaixou, telhado após telhado, sem abrandar, utilizando as lâminas como ganchos para se balançar sobre as lacunas muito grandes e girando-as sobre a cabeça enquanto corria, para manter as harpias recuadas. Ele pulou de telhado em telhado, correndo mais rápido do que as harpias conseguiam acompanhar – mas os gritos e berros dos monstros abaixo vieram ainda mais velozes. Nem mesmo Kratos podia ultrapassar a velocidade do som. Mais das criaturas de Ares jorravam em sua direção, e ele saltou da última casa e mergulhou mais uma vez no fogo e na fumaça do que restou da cidade. Um minotauro teve a brilhante ideia de clamar a todos os ciclopes, centauros e outros minotauros para esquecerem de tentar apanhar o espartano e disse que, em vez disso, eles deviam espancar as paredes dos prédios em chamas, enfraquecendo toda a estrutura no caminho de Kratos. Lutando contra a fumaça sufocante e as chamas calcinantes, Kratos saltou para um telhado que desabou sob seu peso. Um frenético arranhão na estrutura abaixo das telhas lascadas e um golpe rápido com uma das lâminas, que se encaixou em um telhado mais sólido, a frente, fizeram-no ganhar apoio suficiente para manter-se no ar. Um rápido olhar sobre os inúmeros inimigos de todos os tipos que se aglomeravam convenceu-o de que, em termos inequívocos, o resultado de uma queda seria agourento. Inflexível, ele correu, sabendo que cada telhado se provaria mais frágil do que o último – e, mesmo que pudesse ficar lá em cima por todo o caminho até a Acrópole, ele teria de descer às ruas e lidar com seus perseguidores ou ser massacrado, juntamente com todos esses atenienses inúteis. Melhor ter uma morte sem nome, como ser engolido pela Hidra no Túmulo dos Navios, do que ter seu corpo queimado no mesmo fogo que os inimigos mais
amargos do seu povo. Ao longo da base dos penhascos abaixo da Acrópole, Kratos correu paralelo à rocha para chegar à estrada. Esses monumentos eram mais resistentes, pois tinham o apoio da muralha de rocha à sua volta, e manter-se perto da face do penhasco enquanto contornava a curva fez com que ele ganhasse terreno sobre os seus perseguidores. Ali! Uma lacuna na densa fumaça mostrou-lhe amplas lajes da estrada à frente. Com redobrada energia, Kratos se jogou em direção a ela – mas, a apenas três casas da lacuna por que ele ansiava, as telhas se desintegraram e as paredes enfraquecidas do edifício ruíram em seu redor. Pior ainda, suas costas carbonizadas, cheias de bolhas, o traíram. Sua força costumeira enfraqueceu, e ele se contorceu quando o ferimento enviou dores agudas a seus ombros, o que o impediu de se salvar da queda. No momento em que ele se levantou e sacudiu os escombros, eles estavam sobre ele. Legionários mortos-vivos se adiantaram, espadas desembainhadas. As Lâminas do Caos encontraram primeiro as suas mãos, em seguida, os pescoços dos monstros. Ameaçado pelas costas, Kratos se inclinou em direção a eles. Ele abriu caminho para a frente como um mineiro escavando a terra, e as lâminas eram suas picaretas e pás. Desdenhoso, ele passou por cima de seus corpos partidos em dois. Kratos encontrou mais legionários no pátio amplo. Esses demandaram um pouco mais de esforço para serem despachados, mas ele o fez, lamentando cada segundo que perdia no massacre sem sentido. Ele avançou para a rua, apenas para encontrar mais monstros no portão. Três ciclopes resmungaram e balançaram as prodigiosas maças de guerra; qualquer pancada teria espalhado seu cérebro pela rua, mas não era isso que preocupava Kratos. Mesmo quando desviava deles, as maças criavam enormes buracos nas paredes. As estruturas já frágeis estremeciam com cada golpe. Nos telhados acima do pátio, esqueletos arqueiros se reuniram no mesmo lugar, começando uma chuva de flechas em chamas que acabaram com qualquer esperança de recuar. Um breve olhar sobre o ombro foi o suficiente para aumentar o seu senso de perigo: agora, chegando para apoiar os ciclopes, havia seis minotauros, espalhando-se para preencher todas as lacunas. Eles o atacaram. Todos de uma vez. Preso entre os arqueiros e a combinação das forças dos minotauros e ciclopes, ele não via saída.
Mas ele não estava pronto para morrer. Não ainda. – Venham, então! – Ele rugiu. – Venham e morram! Kratos bloqueou uma machadada de um minotauro e avançou, cortando o tendão de um ciclope. A ferida deixou o monstro coxo, mas, enquanto ele mancava de volta, os outros dois se aproximavam para se juntar à batalha. Kratos saiu do alcance de outro golpe do ciclope, capaz de tremer a terra, e começou uma constante evasão. Os minotauros haviam desistido de usar seus machados em favor de lanças, com as quais eles poderiam atacar sem ficar no caminho dos ciclopes; um deslize iria deixá-lo tão cheio de buracos quanto um ralador de queijo. Eles coordenaram seus ataques como uma unidade bem treinada e experiente. Kratos era apenas um mortal contra míriades de criaturas oriundas do Hades, mas foi ele quem partiu para o ataque. – Saiam do meu caminho ou morram onde estão! – trovejou e, em seguida, assumiu o compromisso de tornar real sua ameaça presunçosa. Kratos deslizou entre os ciclopes e desferiu um poderoso golpe de lâmina dupla no peito do minotauro mais próximo. Numa nova força e novo poder fluíram das correntes para seu corpo, quando as lâminas beberam a vida do homem-touro. Ele rodopiou para imobilizar outro ciclope, mas o enorme monstro era mais rápido do que parecia. A criatura de um olho só aparou o ataque com sua maça, protegendo-se das lâminas entre eles; em seguida, deixou cair sua maça e envolveu o tórax de Kratos com seus braços. O ciclope espremeu até que as costelas do espartano começassem a rachar e nuvens de trevas cobriram sua visão. O ciclope rugiu em triunfo, até que seu olho solitário focou no rosto do espartano. Kratos estava sorrindo. As lâminas desceram na junção do pescoço e dos ombros do ciclope, esculpindo um “V” sangrento até encontrarem o coração da criatura monstruosa. Kratos liberou as lâminas para atingir a cabeça do ciclope, que ainda piscou o olho em espanto, depois atirou-a, juntamente com grande parte da coluna da criatura, na direção das lanças pontudas dos minotauros. Quando o resto do corpo do ciclope estremeceu e desmoronou, Kratos chutou-o para um pequeno espaço entre o cadáver e a parede de pedra. Sua vitória teve curta duração. Sua batalha com o ciclope, ainda que tivesse sido rápida, havia permitido que os minotauros o cercassem. Kratos deu uma
volta completa e viu uma dúzia de monstros com cabeça de touro avançando. Mesmo as Lâminas do Caos não matariam tantos assim. Se ele se ocupasse com um ou dois, muitos outros atacariam por trás. Ele agachou-se atrás do corpo maciço do ciclope, usando-o como uma muralha, enquanto estendia suas mãos sobre o seu ombro, e suas mãos se encheram de serpentes retorcidas. Os minotauros avançaram de todas as direções. Ele balançou a cabeça morta da Medusa diante deles. Uma energia cor esmeralda crepitou dos olhos mortos da Górgona, e cada inimigo que tocou instantaneamente endureceu em calcário cinza e frio. Um minotauro, capturado em meio a um golpe, tombou de lado, batendo em outro, que caiu no chão e se quebrou como uma panela de barro. Kratos procedeu com a ação. Dez segundos era tudo o que ele tinha. As lâminas faiscaram, e onde elas golpearam, as estátuas foram despedaçadas. Kratos saltou para os ombros do ciclope remanescente e impulsionou a si mesmo para cima novamente, derrubando a criatura congelada, cujo peso esmagou seu irmão de tendões cortados e os dois últimos minotauros. E quando o poder da Medusa enfraqueceu-se, pedaços e fragmentos de monstros petrificados se tornaram carne e osso e sangue, e uma propagação de carnificina encheu a rua. – Senhora Afrodite – Kratos murmurou –, eu nunca deveria ter duvidado. Um sussurro, pouco mais que um zéfiro no tumulto, soou sedutoramente ao seu ouvido: – Talvez algum dia eu permita que você peça desculpas. Pessoalmente.
Ele lançou a cabeça da Medusa por cima do ombro, guardou as lâminas e correu como se todas as forças do Hades estivessem em seu encalço. E elas estavam. Esquivando-se, ele subiu a colina, embora não encontrasse um caminho fácil em direção ao Pártenon. Parecia que toda a montanha queimava. A área no topo da Acrópole inflamou-se com a fúria de um novo sol. – Hélio... – Kratos perguntou em voz alta. – Você se juntou aos meus inimigos? Atena contava com a ajuda de poderosos aliados, mas Ares podia ter ajuda olímpica também. As intrigas políticas do Monte Olimpo eram misteriosas e fatais para qualquer mortal enredado nelas. Ele não estava muito preocupado. Kratos havia jurado há dez anos que tudo o que se atrevesse a se interpor entre
ele e sua vingança seria destruído, fosse homem, besta ou deus. Qualquer um que quisesse viver deveria ficar fora de seu caminho. Ele começou a subir uma rua estreita que parecia promissora, mas então uma névoa surgiu do nada na frente dele. Ele golpeou-a com a lâmina direita, mas a névoa formava uma espessa nuvem além de seu alcance. Kratos empunhou as lâminas em posição de combate. O que quer que fosse essa nova ameaça, ele iria destruí-la, como fizera com todas as outras. Quando a névoa dispersou e tomou a forma de uma coluna fina, ele girou tão rápido quanto podia. A lâmina passou através da névoa, sem deixar nada além de um redemoinho para marcar sua passagem. Ele estava ponderando se deveria usar a Cólera de Poseidon ou se o Olhar da Medusa poderia dar a essa névoa forma suficiente para que ele pudesse atacar. Antes que ele pudesse decidir, a névoa se solidificou em uma alta e bela mulher usando pouco mais do que flâmulas finas de nuvem como saia e uma blusa embrulhada em torno de seu corpete. O material era tão transparente como a névoa, mas, enquanto ele observava, ela se tornou mais substancial. Algum tipo de súcubo? Uma sereia? Não importava, ela parecia sólida o suficiente agora. Ele cortou a mulher com um ataque que dividiria um mortal ao meio. Ela não pareceu notar. – Não tema, Kratos. Eu sou o Oráculo de Atenas, estou aqui para ajudá-lo a derrotar Ares. Reveladas nas minhas adivinhações estão segredos desconhecidos até mesmo dos deuses. Encontre o meu templo a leste e eu vou mostrar-lhe como matar um deus.
– Oráculo! Espere! – Kratos deixou cair as lâminas e fitou através do espaço mais uma vez vazio. Ele olhou acima da colina para onde o Oráculo havia apontado. Um gesto nebuloso, correntes de ar errantes. Como ele poderia saber? O caminho se estreitou rapidamente, mas ele continuou a subir. Quando chegou na metade da subida, ele olhou para trás, para Atenas, e balançou a cabeça com desânimo. A luta estava quase no fim. Ares rugiu com um júbilo maléfico, urrando chamas como um vulcão, enquanto seu exército se derramava como o mar, pelas ruas de Atenas. – Deus da Guerra – Kratos disse entredentes –, eu não me esqueci de você. Pelo que você fez essa noite, esta cidade será a sua sepultura! Um terremoto abalou o centro da cidade. Kratos teve de parar e ampliar a sua postura, a fim de se manter em pé. A fumaça dos edifícios em chamas
clareou por um momento para dar-lhe uma visão direta de Ares. O enorme deus passou por cima das Longas Muralhas e caminhou até a calçada, pisando nos atenienses lentos demais para escapar de seu avanço. O deus guerreiro rugiu, tremendo os céus e a terra. Ele se abaixou, pegou um soldado e jogou-o longe, como se fosse um inseto chato. Os gritos ecoaram, agudos e altos, e morreram com o homem caindo no telhado de um templo dedicado a Zeus. Em seguida, Ares começou a pisotear qualquer um que chamasse sua atenção; sua fúria era palpável. Ares invadiu a cidade, esmagando construções e chutando as pessoas na praça. A cidade ficou inteiramente à mercê do Deus da Guerra, e misericórdia estava em falta. Ares não tinha mais clemência do que compaixão ou autocontrole. Essa era uma noite ruim para ser ateniense. Kratos era um espartano. Já houve alguma boa noite para ser ateniense?
Ele virou as costas para Ares e seguiu a estrada a caminho da Acrópole. Outro terremoto fez com que ele levantasse os pés do chão, forçando-o a rolar, quando uma parede de pedra desmoronou ao seu lado. Kratos ergueu-se novamente e olhou para a cidade. Ares havia sacado uma espada do tamanho de dez navios de guerra e levantou-a acima de sua cabeça. O Deus da Guerra a trouxe desabando com tal força que blocos de casas ao redor desmoronavam, enquanto a onda de choque se espalhava por toda a cidade. Ares deu outro golpe, mas dessa vez Kratos estava preparado para ele. Ele se voltou para o seu caminho e partiu para o Pártenon. – Eles vêm, eles estão vindo! – Uma mulher no telhado de um templo próximo gritou a advertência, em seguida, desceu uma escada bamba para a porta da sacristia. Um arqueiro morto-vivo disparou entre os perseguidores de Kratos. A flecha prendeu a mulher à estrutura de madeira, que pegou fogo quando a flecha explodiu. Kratos se abaixou e se esquivou quando ouviu um bater de asas furioso que conhecia muito bem, mas ele não era o alvo da harpia. A besta imunda mergulhou para arrancar do chão uma mulher correndo com um bebê nos braços. A harpia agarrou a criança e levou-a pelo ar. A mulher gritou e jogou pedras, mas a harpia levantou voo a centenas de pés. Então deixou cair o infante. – Nããão! – Kratos se enfureceu. Ele deu um passo e estendeu a mão, como se pudesse manter a criança segura. Ele não podia. A miragem de sua amada filha encheu seus olhos, e, em seguida, sangue substituiu a visão. Mais uma vez. A mulher tentou freneticamente pegar seu filho, correndo na direção dele com os braços estendidos, só para ver o seu cérebro escorrer sobre os escombros
de outro templo. A harpia voou rasante novamente, dessa vez agarrando a mulher. Ela lutou contra o monstro voador, mas tropeçou em uma laje quebrada. Kratos correu e saltou com toda a sua prodigiosa força. Seus dedos passaram longe da asa da harpia, mas pegaram um pé pelas garras. A harpia gritou de raiva e lutou para se libertar. A raiva pela morte da criança emprestou a Kratos a determinação crua para agarrar a harpia com força suficiente para arrastá-la. A criatura horrenda caiu no chão, a alguns metros de onde a criança havia morrido. Uma torção, uma rotação, e Kratos alcançou o local onde poderia esmagar seu punho no rosto da harpia. Ele continuou a golpear o monstro até que restasse somente uma massa. Ofegante, ele segurou o pescoço magricela em um aperto e lançou o cadáver para longe, para que seu sangue sujo não se misturasse com o da criança morta. – Ajude-me, ajude-me! – A mulher destituída clamou por Kratos. – Tem um alçapão dentro. Segurança. O santuário é seu, se você me ajudar! – As harpias haviam visto o destino de sua companheira e convergiram, pensando que a mulher era a vítima mais fácil para matar. Kratos deixou que sua repulsa pelos crimes que as harpias cometeram decidisse o assunto. Brandindo as Lâminas do Caos, ele atacou. O primeiro golpe amputou a asa. O segundo cortou um pé. Um golpe duplo de suas lâminas removeu a cabeça de uma harpia de seus ombros caídos de pássaro. – Vá – disse ele à mulher. – Encontre o seu refúgio. A mulher não suplicou para se juntar a ela. Outra harpia gritou enquanto mergulhava como um falcão. Kratos saltou no ar, lançando a si mesmo e suas lâminas contra a criatura, mas ele estava muito longe para alcançá-la. A mulher tomou o golpe em suas costas. Garras ferozes abriram cortes sangrentos, e então a harpia bateu suas asas em declive e arrancou do corpo a coluna da mulher. O que restou caiu sem vida no chão. Kratos correu, pulou em um engradado derrubado, e lançou-se no ar em uma explosão de ataque furioso. Uma lâmina talhou o rosto da harpia, da boca até a orelha. A segunda lâmina cortou seu peito quase sem resistência, abrindo seu coração monstruoso para vomitar sangue negro nas ruas abaixo. O homem e a harpia caíram pesadamente no chão. Kratos rolou livre, sacudindo as correntes em torno de seus braços, e assobiou para as Lâminas do Caos voltarem às suas mãos. – Lá! Lá está ele! Matem-no! Matem-no pelo Senhor Ares!
Investindo contra ele estava uma dúzia de minotauros, seguidos por seis ciclopes e meia centena de legionários mortos-vivos, e atrás deles havia ainda mais. Eles obstruíram a estrada; ele nunca poderia lutar contra tantos para liberar seu caminho. Parecia que sua missão estava para acabar em um súbito e sangrento fracasso. Ele sacou suas lâminas. Ele era espartano. Não poder vencer não era motivo para desistir.



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