Catorze
Tão pouco sobrou. Gostaria de apostar em quanto tempo a sua cidade será reconstruída em honra a Ares? Hermes agitou-se acima do espelho d’água, com a brisa de suas sandálias aladas ondulando a água e desfocando a visão da destruição de Atenas. Ele abaixou-se e enfiou um dedo no líquido, perturbando a imagem bem abaixo da superfície. O até então intacto edifício caiu em escombros ao seu toque. – Pare com isso – Atena disse rispidamente. – Por quê? Eu diria que Ares é claramente o vencedor aqui – o Mensageiro dos Deuses disse, sorrindo amplamente. – Você acha que aquela construção teria sobrevivido a seu ataque? Ele não lhe deixou nada e agora reduz esse nada a... menos ainda... Zeus apareceu, trovões estrondearam com sua entrada repentina. Com as mãos enfiadas em sua toga, ele franziu a testa para Hermes, aparentando estar indignado. – Ele se saiu melhor do que eu esperava. Ares geralmente comete tolices como um minotauro em uma loja de cerâmica. – Melhor do que você esperava? – Atena disse formalmente. – Você escolheu apoiar o meu irmão? – Não – Zeus disse, parecendo ainda mais indignado. – Ele destrói muitos dos meus santuários. É quase como se ele os escolhesse a dedo, mas eu devo estar errado. É a seus adoradores que ele mata, Atena. Atena só podia franzir a testa. – Ah, senhor e pai – disse Hermes alegremente. – Você lucrou generosamente com esse negócio, até agora, não é? Atena olhou atentamente para Hermes. – O que você quer dizer com isso? A voz de Zeus trovejou e um relâmpago crepitou em sua barba. – Não é Kratos sua criatura? – Hermes perguntou, voando para longe, parecendo um pouco assustado. Ele olhou para Atena, procurando por apoio, mas ela não tinha nenhum para dar. Ela temia que Hermes tivesse entendido a verdadeira busca de Kratos no Deserto das Almas Perdidas e que ele dissesse isso a Ares, simplesmente para aliviar-se do tédio ao criar mais problemas.
– Ele é animal de estimação de Atena, não meu – Zeus disse. – Sim, é claro. Eu me equivoquei em assumir que o estava ajudando, mesmo que alguém em Atenas use um raio semelhante ao seu contra as criaturas de Ares. – Você sabe disso ou é apenas mais uma de suas calúnias sussurradas para colocar um deus contra o outro? – Atena perguntou. – Você me acusa, a mim, de incitar a guerra civil no Olimpo. Nunca!
Hermes voltou sua atenção a Zeus. – Eu sou seu súdito leal e filho, Pai dos Céus! Eu não procuro prejudicar ninguém, mas apenas manter todos informados. – E entretidos – Zeus disse. – Você não mediria esforços para evitar o tédio. Hermes concordou, sorriu, depois se conteve. Ele voou mais alto para que pudesse se curvar profundamente, enquanto pairava acima da piscina de vidência. Mais sombrio, ele abaixou a cabeça e fez um gesto com o braço, enquanto dizia: – Minha lealdade é sem limites, meu rei. Você só precisa me comandar. – Muito bem – disse Zeus, rangendo os dentes. – Vá a Ares e diga a ele que eu ordeno que pare com a destruição de meus templos e suplicantes. – Ares? Hermes parecia tão perturbado que Atena lutou para conter o riso. Então ela percebeu a gravidade da situação. Ares nunca aquiesceria aos desejos de Zeus e, pelo contrário, ele dobraria seus esforços para extinguir não só os seguidores de Atena, mas os do Pai do Céus também. – Meu pai, não há necessidade de Hermes interromper Ares. O Deus da Guerra está apenas seguindo sua verdadeira natureza. Os olhos cinzentos de Atena encontraram os olhos tempestuosos de Zeus. Ela não vacilou. Se Zeus enviasse essa mensagem, Hermes ficaria curioso e sem dúvida descobriria que Kratos procura pela Caixa de Pandora. Ela conhecia o Mensageiro dos Deuses muito bem. Ele nunca seria capaz de conter-se e iria maliciosamente insinuar a Ares que sabia algo que o Deus da Guerra não sabia, e Ares levaria poucos momentos para saber de tudo o que ela queria manter em segredo dele. “A Caixa de Pandora”, Atena pensou em assombro. “Kratos deve encontrá
la antes que Ares perceba que há perigo na missão.” As palavras de Zeus surpreenderam Atena e aliviaram Hermes. – Você não precisa entregar a mensagem para Ares – Zeus disse. – De que outra maneira posso ser útil, meu pai? – Hermes quase balbuciou, aliviado por não ter de entregar tal desafio. O Mensageiro dos Deuses geralmente apreciava tais discórdias, sendo nada mais do que o veículo das notícias. Com Ares disposto a assassinar qualquer um, porém, mesmo o mensageiro estaria em risco, em violação ao decreto de Zeus, que era contrário a que um deus matasse outro. – Pai – Atena disse, escolhendo as palavras com cuidado –, os mortais suportam o peso da raiva do meu irmão. Se Hermes pudesse alertar os nossos sacerdotes e sacerdotisas, mostrando-lhes as melhores vias de fuga, eles poderiam se salvar. – Bem, comece a trabalhar nisso, então – Zeus disse. – Gostaria de ver esse conflito chegar ao fim – Zeus resmungou mais um pouco, acariciando sua barba, então olhou diretamente nos olhos de Atena. – Você não está incitando o seu irmão a destruir meus santuários como uma forma de me humilhar, não é, filha? – Pai, não! Eu nunca contribuiria para a destruição da minha cidade! – Nem mesmo para salvar seu mortal de estimação? – Kratos não é nada para mim – disse Atena, obrigando-se a se manter o mais calma possível. Se ela não se atreveu a incitar Ares a caçar Kratos, menos ainda queria que Zeus o espionasse. Ela não tinha ideia de como o Rei dos Deuses iria reagir a um mortal matando não somente um deus, mas Ares, seu filho. – Vá – Zeus disse para Hermes, com voz potente. Hermes deu um único passo veloz em torno da câmara e, em seguida, suas sandálias aladas levaram-no para as nuvens sobre o Olimpo. – Pensei que ele nunca iria embora – Zeus disse, sentando-se grato em seu trono. Quando ele fitou a Deusa da Sabedoria, uma nobre gravidade de autoridade sombreou seus olhos. – Eu não diria isso na frente de Hermes, você sabe como ele é fofoqueiro; mas tenho uma crescente preocupação por você, Atena. Ares perpetrou uma
destruição surpreendentemente avassaladora. Dentro de uma semana ou duas, você pode não ter nenhum adorador. – Tem sido difícil – admitiu ela. – Ele ganhou a batalha, mas eu sempre soube que o faria. Eu ainda posso ganhar a guerra. Ela observou seu pai para procurar por qualquer indício de que ele iria ajudá-la. – Você pode? – Zeus perguntou, um pouco triste. – Eu tenho muita fé em seus poderes, minha filha, mas até agora você não contra-atacou. Se ela admitisse não fazer nada, Zeus suspeitaria, uma vez que esta não seria uma atitude própria dela. Sua preocupação por ela soou verdadeira e levoua a uma confissão audaciosa. Ela temia que seu pai impedisse Kratos quando descobrisse que havia um meio pelo qual um mortal poderia destruir um deus. Mas talvez ele permanecesse neutro, ou então ajudasse seu herói valente. Era um risco, mas um que ela tinha de correr para evitar interferências indesejadas. – Isso está prestes a mudar – Atena apertou os olhos contra o Carro de Hélios, que pairava no meio-dia de verão eterno do Olimpo. – Se tudo correr como planejado, meu Oráculo em Atenas acabou de abrir o portal para o Deserto das Almas Perdidas e enviou Kratos para lá. – O que Kratos busca? Atena parou novamente, cautelosa do poder de seu pai e de sua possível oposição. Então a convicção assentou-se nela como um manto. Ela disse a ele sobre o objeto da busca de Kratos, revelado por meio da visão do Oráculo. Zeus endireitou-se no trono. Sua voz travou. – A Caixa...
– Sim, pai – ela disse com satisfação sombria. – A Caixa de Pandora.

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