sábado, 19 de maio de 2018

CRÔNICAS 39 : GOD OF WAR

Quatro

ocê deu a Kratos um pedaço de sua própria cólera! O punho de Ares agarrou o punho de sua espada. Os músculos se retesaram em seu antebraço enquanto ele lutava para controlar sua raiva elevada. – Para ajudar um mortal, contra sua própria família?
– Se uma outra vez você pensar em sujar meu reino com qualquer um dos seus monstros gerados por Tifão, eles serão destruídos. A voz de Poseidon era tão fria e escura como as profundezas de seus mares mais remotos. – E você, meu sobrinho, não é imune à minha retribuição. Meu irmão proíbe o assassinato entre os deuses, sim – mas não tente minha raiva, ou irá desejar ter sido assassinado por mim. Você entendeu?
Ares afrouxou a lâmina em sua bainha. – As palavras não são armadura contra a lâmina de uma espada. – Lembre-se disso, Deus da Guerra: eu sou o soberano dos mares. Qualquer um que entrar no meu domínio deve prestar honras a mim. Até mesmo os deuses. Os dois deuses se encaravam com raiva acima da costa mediterrânea do Egito. Invisível aos olhos mortais, ambos estavam em altura suficiente para usarem o Farol dos Faraós como se fosse uma bengala. Ares finalmente quebrou a silenciosa batalha de vontades. – Nós não precisamos deste tipo de contenda. – Sua Hidra... – Minha Hidra, sim – disse Ares. – Mas perturbando os seus mares? Eu não enviei a Hidra para o seu reino. Poseidon piscou. – É essa a verdade? – Diga-me, meu tio e senhor. Quem trouxe notícias dessa Hidra a você? Intrigas daquela cadela Atena, eu aposto.
– Bem... sim – Poseidon admitiu. – Mas... – E você sabia da presença da Hidra antes que ela corresse até aqui para induzi-lo a dar o seu poder para seu animal de estimação? – Induzir-me...
– Você sabe que eu não frequento mais o Olimpo, não enquanto o meu pai continuar a ceder a cada fantasia mesquinha de minha irmã. Estando tão longe, eu às vezes não posso contestar suas mentiras antes que caiam em ouvidos crédulos. O Deus da Guerra se inclinou para seu tio, tão perto que as chamas do seu cabelo extraiam vapor da barba do deus do mar. – Pergunte a si mesmo, meu tio e senhor, pergunte a si mesmo somente isso. Por quê? O deus do mar não respondeu, mas uma nuvem pensativa se reuniu em sua testa. – Por que eu iria ofender a sua soberania? Por que eu iria sujar seus mares? O que eu poderia ganhar com isso? – Para matar esse Kratos. Isso foi o que disse Atena. – E se eu houvesse ordenado essa Hidra para fazer isso, por que eu a direcionaria para se esconder furtivamente no Túmulo dos Navios? Teria eu mera esperança de que Kratos encontrasse seu caminho para lá? – Ares bufou. – Eu não preciso convocar uma Hidra para eliminar Kratos. Ele é menos do que um verme. Quando eu quiser Kratos morto, eu vou esmagá-lo tão facilmente quanto um mortal pode apagar uma vela. Ele ainda vive apenas porque seu sofrimento me diverte. – Mas... se não foi você, quem infligiu a Hidra no meu reino...
– Eu não pretendo acusar – disse Ares. – Mas quem ganhou com esse encontro? Quem fez você virar seu rosto majestoso de mim? Quem o defraudou de poder simplesmente para bajular algum verme mortal? Poseidon recuou um pouco e olhou para seu sobrinho bélico. – Eu não posso tomar de volta a cólera dada a Kratos. – Isso eu sei muito bem – disse o Deus da Guerra. – Um deus com senso de honra nunca tiraria o que foi dado. Mas eu não estou pedindo. Eu estou aqui, meu tio e senhor, só por respeito a você. Eu sei que você ainda tem uma certa...
afeição pela cidade de Atenas.
– Aquele lugar – o deus do mar bufou. – Zeus proíbe a batalha direta entre os deuses – mas, como você tão recentemente preveniu-me, há outras formas de retribuição. Meus exércitos marcham em direção a Atenas neste exato momento. – Por que vem a mim? – Como cortesia, tio. Eu sei que uma vez você pensou ter essa cidade como sua. Caso seja sua vontade, vou deixar Atenas em pé, sem sequer um arranhão. Se, de fato, você decidir que Atena falou somente verdade, e eu somente mentira, eu não protestarei. Eu não sou, como todos os Olimpianos sabem, nem de longe tão bom mentiroso como a minha irmã. Poseidon respirou fundo, tão profundamente que mudou as correntes do Mediterrâneo para o norte até Creta. Finalmente, ele disse: – Eu não sei qual de vocês está me enganando ou se ambos estão. Mas... aquela cidade não é problema meu. Queime-a até o chão e salgue a terra, eu não me importo. E com o rugido de um vendaval, ele se foi. Os lábios cruéis de Ares se retorceram para formar um sorriso por trás de sua barba de chamas. – Eu irei, tio. Farei exatamente isso – disse o Deus da Guerra, e seguiu os ventos em direção a Atenas. * * * EM SEUS APOSENTOS SOBRE o Olimpo distante, Atena tracejava a mão na piscina de vidência que usava para espionar seu irmão. Ela deu um tapa no líquido tingido de ambrosia como se pudesse alcançar através dele e atacar Ares e Poseidon. E quando ela parou e fez uma pausa para ouvir, ela podia escutar os gritos fracos de seus adoradores, muito abaixo, em Atenas, suplicando por sua misericórdia e apoio enquanto as legiões monstruosas de Ares adiantavam-se ao longo do horizonte; e o Deus da Guerra em pessoa cavalgava entre eles, ordenando-os para a batalha. E com Ares em campo, a palavra de Zeus a impedia de responder a esse perigo pessoalmente. Seus lábios diluíram-se em uma linha enquanto sua raiva aumentava. Poseidon não tinha motivos para virar-se contra ela dessa maneira. Pelo menos o seu tio não apoiava Ares ativamente. Talvez...
Sim. Ela ainda podia usar isso em sua vantagem. Sem a interferência de Poseidon, Kratos poderia navegar até a sua cidade sitiada em questão de dias. Colocar Kratos novamente na posição de frustrar os planos de Ares pareceu uma solução equitativa, contudo, os dias que sua viagem exigiria poderiam muito bem ser os dias em que a sua cidade cairia. Como Ares faria seus adoradores sofrer! Atena saiu apressadamente de suas câmaras para o Átrio da Eternidade, no qual ela caminhou sincopadamente até atingir a ramificação que buscava. Ao longo desse corredor, ela caminhava com mais cautela, pisando suavemente enquanto o mármore dava lugar a gramíneas finamente cortadas. Cervos mordiscavam hera na periferia de sua visão, e logo ela chegou a uma clareira arejada, trancada em verão perpétuo. Atena ficou perfeitamente imóvel, esperando para ser reconhecida. Ártemis não gostava de ser assustada, e seu arco nunca errava. Logo, um farfalhar de folhas veio de um arbusto de murta nas proximidades. A deusa Ártemis adiantou-se, repentinamente visível, como se tivesse se materializado no espaço. Com seu arco pendurado sobre o ombro e uma aljava em sua cintura, ela indubitavelmente se parecia com uma Caçadora dos Deuses. Atena baixou a cabeça formalmente. – Saudações, Ártemis, minha irmã. A caçadora apenas a observou com curiosidade. Ela nunca teve muito apego à formalidade. – Eu esperava pelo meu irmão gêmeo. – Apolo está por perto? Eu gostaria de lhe dar as boas-vindas. Os assuntos são graves, e a sabedoria do Deus da Luz seria bem-vinda. Ártemis manteve o olhar curiosamente inexpressivo, como se Atena fosse um cervo que a deusa julgasse na linha de tiro. – Mesmo minhas criaturas sabem da guerra de nosso irmão contra a sua cidade. – Ares traz um exército de criaturas do submundo para a luta. Legionários mortos-vivos e arqueiros têm seu preço, mas os cidadãos de Atenas podem resistir aos seus ataques. As outras criaturas – os verdadeiros monstros – estão além dos poderes de meros mortais.
Ártemis deu uma volta em torno da outra deusa, estudando-a minuciosamente. – Na caça – disse ela lentamente –, nós sabemos quem é o caçador e quem é a presa. Nessa simplicidade repousa a verdade. Entre você e Ares, nada é simples. – Eu não estou pedindo para você escolher entre mim e o meu irmão. Eu não estou pedindo nada, minha irmã. Estou aqui apenas para entregar notícias melancólicas. – Você se importa com algo naquela cidade além do nome que carrega? O rosto de Atena esfriou como pedra. Ela havia esquecido de que as palavras de Ártemis assolavam com tanta severidade quanto suas flechas. – Claro que eu me importo com meus mortais – disse ela. – Devo encontrar o que a concerne. – Ares não é amigo. Suas legiões devastam minhas florestas, mas eu não posso opô-lo no campo de batalha. Zeus proíbe isso. A mão de Ártemis agarrou seu arco, postou-o, encaixou uma flecha e disparou. A flecha cantou através do ar e encaixou-se no tronco de uma árvore. – Ah, se eu pudesse mirar minhas flechas de caçador nele! – Suas florestas – Atena disse suavemente. – Seus animais – todos serão presas para a legião de nosso irmão. – Moradores de sua cidade – Ártemis disse, com um tom cortante em sua voz. – Aqueles que vivem em Atenas varrem minhas florestas também. – Eles usufruem das florestas e dos animais – rebateu Atena. – Ares destrói. Seus mortos-vivos não comem para sobreviver ou para nos adorar. Eles deixam apenas extermínio em seu rastro. – Uma abominação – Ártemis concordou. – Minha cidade pode celebrar a vida selvagem – se sobreviver – Atena disse. – Meus adoradores admiram e respeitam você. No ano passado, por exemplo – Atena preparou o caminho –, o prêmio no Festival de Dionísio foi recebido por uma peça exaltando-lhe: A Tragédia de Actéon, o Caçador.
– Tragédia? – Ártemis disse. – Eu busco celebrar a vida. Atena sempre pensou que transformar Actéon em um cervo e destruí-lo
com seus próprios cães de caça era um pouco excessivo para apenas um vislumbre da deusa enquanto ela se banhava – mas esse pensamento privado permaneceria privado; Atena não via nenhum lucro em partilhar isso.
– É uma pena – Atena disse cuidadosamente – que minha briga com Ares não possa ser resolvida com, uh, uma solução semelhantemente elegante. – E por que trazer esse assunto a mim? Ares é tão imune às minhas flechas como à sua lâmina. – Zeus nunca permitiria mesmo um tiro de raiva – Atena concordou. – No entanto, o exército de Ares marcha através de seus sagrados pomares, fora de Atenas. As criaturas imundas que ele comanda devastarão até mesmo o mais inofensivo de seus animais. Atena levantou suas mãos na frente dela, as palmas juntas. Ela separou-as levemente e levou-as para cima, enquanto uma cena vívida formava-se no ar, entre ela e Ártemis. – Tal morticínio... Uma lágrima escorreu pela face de Ártemis ao avistar a destruição arbitrária. Atena separou as mãos mais amplamente, e a cena flutuante cresceu em tamanho. – O fluxo é conspurcado com sangue – sangue de seus animais. Ares não caça, não por comida ou por prazer. A morte é apenas uma satisfação passageira para ele. Não há habilidade nem graça, apenas abate interminável. Esse fluxo se tinge de vermelho com o sangue de suas crias, alces, coelhos, mesmo os pássaros do ar. A cena se expandiu para abranger uma grande parte das florestas a poucos quilômetros das Longas Muralhas, que protegem Atenas. As carcaças de cervos mutilados e raposas se estendiam até o limite da visão. Um ciclope movia-se pesadamente para a frente, balançando sua maça pesada descuidadamente. À esquerda e à direita, ele batia os crânios dos animais mortos uns nos outros, embora eles já estivessem mortos. Na trilha do ciclope vinham centenas de legionários amaldiçoados, e atrás deles marchavam arqueiros mortos-vivos. – Nenhum mostra respeito pela floresta ou seus habitantes. Atena fez uma pausa dramática. – Seus antigos habitantes. Deixam para trás somente a morte, enquanto marcham para Atenas, uma cidade que honra a você e a mim.
– O exército de Ares fará o mesmo com os mortais – Atena continuou. – A próxima luta será entre os servos de Ares e os meus – mas você vê o resultado desse conflito. Eu iria preservar suas florestas e assegurar a sua santidade. – Ares nunca faria isso. Ele não pediu permissão para atravessar meus prados e florestas. – Ele está focado apenas em matar – Atena disse. – Não importa para ele o que seu exército destrói. Ela deixou a cena expandir-se mais uma vez, para mostrar outros elementos da marcha do exército de Ares através de outros bosques, que Ártemis reivindicava como seu domínio silvestre. Somente quando viu uma mudança sutil de expressão no rosto de Ártemis, que alterava entre desespero e fúria, Atena continuou. – Nenhuma de nós pode lutar contra Ares, por decreto de nosso pai. Isso não impede nosso irmão de destruir aqueles que nos adoram. – Você jura que minhas florestas serão sacrossantas? – Faça com que suas criaturas da floresta se voltem contra os servos de Ares e meu juramento está feito. Vou me certificar de que toda Atenas honre seu templo bucólico – Atena disse, a paixão tingindo suas palavras. – Nós não devemos permitir que ele atropele o relicário que você mantém como o mais sagrado: os bosques repletos de criaturas de cascos e asas. Ártemis se virou, removeu outra flecha de sua aljava e colocou-a na corda. Puxou o arco para trás até ele estremecer com a tensão. Ela soltou a flecha, que zuniu longe, arqueando para o alto onde explodiu com a fúria de um novo sol, rivalizando com qualquer coisa que seu irmão gêmeo pudesse colocar no céu. O segundo sol choveu faíscas cintilantes. Ártemis disse solenemente: – O exército de Ares vai descobrir ser impossível passar por qualquer floresta onde aqueles sob minha proteção vagam. Com isso, a Deusa da Caça girou e desapareceu no bosque. Em segundos, as folhas haviam parado de se agitar por conta de sua passagem. Ela havia se tornado una com o seu domínio novamente. Atena contou isso como uma vitória parcial. Ela ganhou uma potente aliada, mas Atenas – e mesmo o Olimpo – nunca estaria segura enquanto Ares vivesse. Era hora de começar a próxima fase de seu plano. Kratos deve ser treinado. Ele deve ser testado. E, acima de tudo, deve ser devidamente armado.


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