Vinte e oito
Kratos caiu, caiu e caiu, ao lado de centenas de outros homens e mulheres caindo ao lado dele. Ele mergulhou através do nevoeiro de sangue sombrio e melancólico do Hades, descendo em direção às margens do rio Estige. Ele conhecia esse lugar. Ele tinha estado aqui antes. Mas sua permanência anterior tinha sido como homem vivo, um mortal invasor entre as sombras dos mortos. Agora, ele era uma sombra ele mesmo. E nenhuma sombra, não importava a grandeza do herói que ele tinha sido em vida, jamais escapou do reino de Hades. Ele olhou para si mesmo enquanto caia sem parar. Sua pele parecia tão branca como tinha sido em vida; suas tatuagens, tão vermelhas. Sua carne, sentia-a tão sólida quanto antes; seus braços, tão fortes. Nenhuma marca permaneceu da arma gigante que tinha lhe arrancado a vida mortal. Ele se sentiu surpreendentemente, completamente, bem. Ele pensou em sua esposa e filha já no submundo à frente dele. Sua punição poderia ser a de matá-las repetidamente por toda a eternidade, incapaz de se conter, da mesma forma como frutas frescas e água pura eram eternamente inalcançáveis a Tântalo6. O vento batia em seu rosto; a resolução se solidificou em seu peito. Ele era um guerreiro de Esparta. Até que se encontrasse o barco de Caronte, remando através do rio Estige, ele não estaria morto. Não verdadeiramente. Que estado ele residia de fato era uma pergunta melhor respondida por um filósofo, uma vez que Kratos nunca tinha se interessado por abstrações. Ele não se importava de morrer. Ele só queria ter certeza de que a sombra lacrimosa de Ares atingiria primeiro o Estige. Ele havia caído tão profundamente que agora começava a ver a paisagem do submundo. Embora ainda estivesse muito alto para ver o rio, ele começou a discernir estruturas sólidas que pareciam ser da cor de ossos, que sustentavam, cruzavam ou pairavam na penumbra cor de sangue abaixo. Caindo mais ainda, ele descobriu que essas estruturas tinham cor de osso por uma razão muito boa. Eram ossos.
Ossos grandes demais para pertencer mesmo aos deuses. Kratos passou por uma gaiola de costelas, em que cada costela era maior do que a cabeça-mestra da Hidra. Abaixo das costelas, ele avistou uma coluna em que cada vértebra era do tamanho do Pártenon.
Ele dobrou os braços firmemente em volta do seu corpo e doboru as pernas o suficiente para inclinar-se de cabeça para baixo. Enquanto caia, ele realizou pequenos ajustes na extensão das pernas, ou no ângulo de uma ou de ambas as mãos, manteve-o em direção às grandes protuberâncias ósseas. Ele não se preocupou com a força com que ia aterrissar. Ele já estava morto, quão mal isso poderia lhe fazer? Ele despencou para a coluna a uma velocidade espantosa. Enquanto ele caia mais e mais perto, discernia pequenas figuras de outras sombras que haviam tido a mesma inspiração, eles se chocavam ou repousavam ou se agarravam desesperadamente aos ossos, parecendo querer atrasar a sua queda final para o Estige. Seus últimos metros passaram em velocidade vertiginosa, e o impacto veio com um brilho branco, mas sem nenhuma dor, que era o que ele esperava. O que ele não esperava era que quicaria.
Ele se viu cair de novo, descontrolado. Ele atingiu outra vértebra, mas derrapou sobre a borda antes que pudesse pegá-la. Lutando desesperadamente agora, Kratos se agarrou a tudo o que passou perto dele, porque estava prestes a passar por cima da borda do cóccix e não via mais nada entre ele e o rio preto moroso que marcava a fronteira do Hades. No último instante, sua mão pegou algo. Ele ouviu um grito de pânico e, enquanto pendia por uma mão acima da queda final, descobriu que tinha agarrado um ósseo e seco tornozelo. – Solte, idiota! – O homem que ele tinha agarrado gritou. – Eu não posso segurar nós dois! – Aguente firme – Kratos disse entre dentes. – Segure firme e eu vou tirarnos daqui. – Inflexivelmente, ele se ergueu para onde poderia segurar o joelho do homem com a outra mão. – Meus braços – lamentou o homem. – Você está deslocando meus braços do meu cotovelo! Solte! Kratos considerou-se um homem de sorte: o homem estava tão seco que o espartano poderia fechar a mão em torno da coxa do sujeito. O homem tentou chutá-lo. – Você não vai me arrastar para aquele maldito rio! – Há uma tarefa deixada para mim, acima – Kratos rosnou – e eu vou concluí-la. – Eu não me importo! Solte!
O homem gritou enquanto Kratos erguia-se mais alto e enfiou a sua mão
como uma lança profundamente na lateral do homem; ele enganchou seus dedos sobre o ilíaco do sujeito e continuou subindo. Seu apoio seguinte foi o ombro do homem, em seguida, o outro ombro, e, finalmente, Kratos pôde segurar a mesma protuberância que o outro agarrava. Agora era uma questão de trepar por cima da vértebra. Ele se voltou para o sujeito que tinha usado como escada. Ele era o capitão do navio mercante do Túmulo dos Navios. O capitão reconheceu Kratos no mesmo instante. Um olhar de puro horror torceu seu rosto. – Ah, não. Você de novo não! Kratos pisou perto da borda e chutou a mão do capitão para fora do osso. O capitão tinha uma voz penetrante, e Kratos ouviu-o gritar maldições à medida em que sua sombra rodopiava para baixo, para desaparecer na névoa sangrenta acima do Estige. Kratos virou-se e examinou a paisagem esquelética. Ele começou a subir. Escalando vértebra após vértebra, ele labutou em seu caminho por um desconhecido intervalo de tempo. A luz aqui nunca mudava, e Kratos nunca se cansava. Ele continuou subindo. Quando ele chegou às costelas, quilômetros acima de onde havia começado, descobriu uma nova característica desse reino peculiar: mortos-vivos. Esqueletos. Legionários. Mas esses não eram sombras nuas, eram blindados, equipados com todo tipo de armas, e sedentos por sangue, como haviam sido no mundo acima. Eles se espalharam para interceptar a sua passagem. Conforme eles entravam em posição, Kratos viu que não estavam sozinhos. Dois minotauros carregavam machados de batalha e um centauro enorme brandia uma espada tão longa quanto Kratos. O centauro parecia familiar. – Eu sei quem é você, espartano! – O centauro rosnou. – Você me mandou para cá apenas alguns dias atrás, em uma rua de Atenas. – E é assim com todos, não é? Eu matei todos vocês. O centauro enorme sorriu, abrindo os braços como se estivesse dando boasvindas. – E todos nós estamos aqui para retribuir o favor! Kratos olhou mais para cima e descobriu que poderia mapear seu caminho
observando onde criaturas esperavam por ele. Todos os ossos que levavam para cima estavam cheios de inimigos que haviam morrido por suas mãos. Ele começou a subir o osso até o primeiro grupo. O centauro gritou, girando sua espada enorme em torno de sua cabeça. * * * – KRATOS PASSOU EM BATALHA. Horas, dias, meses, décadas. Não havia como saber. Ainda assim ele nunca se cansava, e a luz nunca mudou, e ele nunca ficou sem inimigos. Ele subia e depois lutava. Ele saltou em seguida, viu-se diante de uma coluna imensa altamente ornamentada com segmentos rotativos de lâminas imperfeitamente afiadas. Kratos recuou e tentou ver o topo da coluna. Ela desaparecia nas névoas vermelho-sangue acima. O sibilar das lâminas rotativas cortava o ar, mas não conseguia abafar os gritos de homens e mulheres que o Senhor Hades abraçava abaixo. Kratos tinha percorrido uma distância considerável para chegar a esse ponto, e havia mais a percorrer, se quisesse matar um deus. Respirando fundo, Kratos viu as lâminas giratórias e decidiu pelos anéis “seguros”, mesmo que ele soubesse que não podiam ser consideradas ilhas de refúgio. Os anéis não giravam em velocidades uniformes. Alguns acima giravam mais rápido, enquanto aqueles em ambos os lados giravam mais devagar. Depois que ele começasse a subir, não haveria como voltar atrás, nem descanso, nem um instante de hesitação. Dois passos rápidos e um salto o conduziram para cima do primeiro anel de lâminas curvas. Kratos quase teve mal êxito em sua fuga da prisão do Senhor Hades quando uma lâmina sob seu pé esquerdo cortou parte de sua sandália. Ele deu um solavanco para cima e olhou estupidamente para baixo. Sem descanso. Sem parar. As lâminas acima vieram rápidas ao nível dos olhos. Escalando, encontrando apoio contra os anéis em constante movimento, uma pequena cavidade onde seus pés cabiam e um impulso rijo permitiram-lhe escapar da decapitação. Ele diminuiu o passo, em seguida, disparou para cima, com os dedos encontrando os locais certos para agarrar e evitar o próximo anel de lâminas, e o próximo, e o próximo. Então ele viu que o anel superior rotacionava em oposição os outros, obrigando a recuar. Kratos deixou-se cair, mas agitou-se quando viu uma pausa no anel mortal. Ele encontrou um ritmo para a subida, uma certa lógica para o aparentemente aleatório turbilhão de morte à sua volta. Mas um grito advertiu-o de que uma harpia estava vindo às suas costas. Não ousando tirar sua atenção da torre segmentada de lâminas, ele manteve-se escalando.
O sangue respingado de suas costas correu em rios grossos para escorrer até o local onde ele havia começado a escalada. A harpia imprudentemente atacouo e ignorou um conjunto de lâminas vindas no sentido oposto; ela pagou o preço por isso. Um olhar rápido mostrou o seu corpo decapitado caindo. Ele não viu a cabeça. Ele estava muito ocupado em prevenir que tal destino acontecesse a ele. Por duas vezes, as lâminas cintilantes quase deceparam peças vitais de sua anatomia. Uma ferida era menor, mas um constante jorro de sangue veio de um corte profundo nas costelas, na parte superior da coluna mortal. O santuário a vista o estimulou, e o vento que assobiava das lâminas refrigerou seu corpo, assim como o suor que evaporava de seus esforços. Perto do cume, com apenas um anel de lâminas para passar, Kratos subiu, deixando uma borda afiada esfolar sua perna, e deu uma cambalhota para o topo da coluna. Ele imediatamente encontrou-se com um alto legionário blindado em chamas. Kratos deu um salto mortal, aterrissando de pés, e sacou as Lâminas do Caos em suas mãos. A subida tinha deixado o seu pulso acelerado, e cada sentido agora estava aguçado. O legionário não tinha chance contra seus ataques rápidos e seus súbitos saltos altos no ar. Ele foi arremessado para baixo, para as lâminas que o precediam. O legionário explodiu em uma bola de fogo quando a ponta de uma faca dirigiu-se duramente para a parte de trás do crânio do morto-vivo. Kratos ficou de pé, olhando para o monte de cinzas que marcava o local de descanso final do legionário. Ele chutou as cinzas sobre a borda, levando-as a flutuar, à deriva do rio Estige. Olhando em volta, ele viu que não tinha para onde ir a partir do ápice da coluna. Kratos olhou para baixo, por sobre o borrão de facas giratórias. Se tivesse que recuar e encontrar outro caminho, ele o faria. Quando ele deu um passo para a borda para iniciar sua descida, um novo som encheu o ar, abafando os gritos dos infelizes caindo no submundo. Ele pulou de volta, a tempo de evitar ser esmagado por um bloco pesado. Um sorriso desgostoso curvou os lábios de Kratos. Ligada ao bloco estava uma corda que desaparecia, acima. Ele talvez tivesse que enfrentar algumas harpias, mas as lâminas da coluna sob seus pés eram um perigo passado. Reunindo suas forças, ele dobrou as pernas e explodiu para cima, agarrando a corda tão acima quanto possível. Mão após mão, ele continuou sua fuga, enquanto passava por dezenas, ou milhares, de armas depostas dos cadáveres de seus inimigos. Apesar de ser uma sombra, ele podia ser ferido por esses inimigos, como ele descobriu, mas a vitória curava as suas feridas. O submundo atrás dele desaparecia quanto mais ele subia para, finalmente, ver um teto. Kratos se admirou com o que pareciam ser raízes penduradas. Ao se aproximar, ele viu que realmente eram raízes de plantas vivas do mundo acima. O mundo dos vivos acima!
Kratos escalou mais rápido e seguiu a corda através de um buraco que bloqueava todos os sentidos. Seus ombros roçaram a terra e, em seguida, o orifício estreitou ainda mais, mas mantinha a corda esticada acima dele. Ascendendo mais devagar, ele sentiu-se esmagado e sufocado, e ele conhecia o cheiro em suas narinas e o gosto em sua boca. Lodo. Lama. Terra. Ele cuspiu a boca cheia de pedregulhos e selou os lábios. Com um esforço maior do que ele já tinha acreditado que poderia invocar, Kratos forçou as mãos e depois os braços a moverem-se. Ele pressionou seus membros para cima, usando a sua grande força para enviar a asfixiante terra para longe dele, abrindo um pouco mais de espaço para trabalhar. Ele começou a mover as pernas também, lutando para dobrar os joelhos ou ampliar sua posição. Seu coração batia, e seus pulmões clamavam por ar... Ele pensou consigo mesmo repetidamente: sombras não precisam respirar.
Sem parar para se maravilhar com esse milagre ou refletir sobre a sua fonte, Kratos arranhou seu caminho para cima, rosnando e ofegando e forçando seus membros enfraquecidos a se moverem, a subirem, para rasgar a terra acima dele e irromper para a luz e ar. Somente quando o seu coração palpitante pareceu estar sufocando-o para a morte, sua mão violou o último amontoado de terra para o mundo dos vivos. O ar fresco soprou em seu rosto. Sua fadiga desapareceu. Furiosamente, ele combateu a aprisionadora terra até que pudesse ver uma noite encoberta por nuvens vermelho-sangue brilhando e refletindo a luz dos incêndios abaixo. – Atenas. – Ele resmungou. – Estou em Atenas... Ele se ergueu da boca do buraco que ele cavou e descobriu que ainda havia cerca de sete palmos acima dele. Ele estava em uma cova aberta. 6 Na mitologia grega, o rei Tândalo roubou os manjares dos deuses e serviu a eles a carne do seu próprio filho. Ele foi condenado a viver em um vale rico de vegetação e lagos no Tártaro, mas não podia saciar sua fome ou sede. A água escoava perto dele, e os galhos retiravam as frutas de seu alcance.

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