sábado, 19 de maio de 2018

CRÔNICAS 59 : GOD OF WAR

Vinte e cinco

Quando o amanhecer acariciou o deserto oriental com seus dedos avermelhados, Kratos estava no telhado de um prédio enorme, em cima de uma montanha que se erguia a partir do centro do Templo de Pandora, ele próprio construído sobre a montanha acorrentada às costas do Titã laborioso, que a suportava em seu rastejar eterno através do Deserto das Almas Perdidas. Com o primeiro raiar da Carruagem de Hélios no horizonte distante, três figuras enormes brilharam e cintilaram em torno dele: estátuas, de centenas de metros de altura, dos Reis Irmãos. Zeus, Poseidon e Hades estavam de frente um para o outro, e as mãos dos três estavam estendidas para suportar um disco do tamanho de um campo de batalha, com um buraco no meio, como uma roda de carroça, feita do mesmo material que as estátuas. Esse material, alguma substância mística mais transparente que o vidro, refletia o resplendor e os pontos mais luminosos das curvas das estátuas. Abaixo de onde a carruagem de ouro ainda iria tocar, os Reis Irmãos estavam totalmente invisíveis. Kratos correu em direção a eles. Atena tinha dito que a Caixa descansava na cúpula do templo, e, obviamente, nada seria maior do que eles. Mas quando chegou, suas bases sobre o telhado banhado pelas sombras do amanhecer não eram apenas visíveis, eram insubstanciais, como se as estátuas não existissem, exceto à luz da aurora. Kratos fez uma careta para cima, em direção às imagens dos deuses. Sua oportunidade para alcançar o tesouro que eles apoiavam duraria tanto quanto o alvorecer em si. Zeus ficava a leste, e, assim, mais de sua estátua estava exposta à luz do amanhecer. Kratos aproximou-se da figura do Rei do Olimpo e pulou alto para ver se ele poderia tocar na ponte da estátua onde o amanhecer batia. No topo de seu salto, ele sentiu uma superfície quente e sólida, mas mais escorregadia do que vidro oleado. Ele sacou uma das lâminas e saltou novamente para atingir a estátua. O único efeito que sua espada produziu foi fazer a enorme estátua soar como um sino grande de cristal. Nada além de um arranhão manchou a superfície quase invisível. Mas, em vez de diminuir gradualmente como o toque de um sino, o som aprofundou-se e ampliou-se, ficando cada vez mais alto, até que Kratos teve que colocar as palmas das mãos sobre os ouvidos para protegê-los da dor crescente. A estátua de Poseidon era a mais próxima da borda leste do telhado. Kratos correu em sua direção, preparando-se para a explosão de som que ele sabia que ouviria quando tirasse as mãos de seus ouvidos, em seguida, saltou para a luz do amanhecer e bateu em Poseidon, também, com um poderoso golpe das Lâminas do Caos.
O soar gerado foi mais profundo, mais ressonante, e cresceu em poder mais rapidamente do que o som que Zeus tinha emanado. Mais distante da ascensão do amanhecer, apropriadamente, pensou Kratos, estava Hades, o Rei do Submundo. E a nota provocada pelo golpe de Kratos foi mais sombria e ainda mais profunda. O volume de seus acordes juntos elevou-se até parecer a Kratos que não havia nada no mundo, exceto o som. As mãos sobre os ouvidos não faziam mais nenhuma diferença. Ele cambaleou no ponto central entre as três estátuas e caiu de joelhos. Quando o nascer do sol finalmente atingiu o local onde ele estava agachado, o que tinha sido pedra inexpressiva tornou-se uma janela magicamente transparente. Logo abaixo dele, ele viu a câmara do Arquiteto, com seu trono, em que a figura blindada sentava-se, como se estivesse alheia à explosão sônica cósmica que vinha de cima. O disco parecia ser do mesmo tipo de substância que as estátuas, ele não podia arranhá-lo mesmo com seus melhores esforços. Mas agora que ele pensou sobre isso, lembrou-se do conto do grande gongo de latão de Rodes; dizia a lenda que ele soava tão poderosamente que despedaçava vidros a cinco quilômetros de distância, ou mais. Já que parecia que o ruído faria o mesmo com seu crânio, Kratos decidiu que não haveria mal em tentar. Ele estendeu a mão para o disco transparente e bateu nele duramente, com os nós dos dedos. O disco quebrou imediatamente com agudos ruídos, espalhando cacos tão pequenos que se tornaram partículas de pó dançantes. O terrível som caiu em silêncio instantâneo. Kratos caiu pelo buraco como uma pedra em um poço. Um puxão convulsivo de seu corpo o torceu o suficiente no ar para que ele pudesse cair em pé sobre o trono do Arquiteto com um pé em cada braço. O trono começou a girar, liberando muitos ruídos e o tinir das engrenagens. Kratos saltou dos braços para o estrado em que o trono descansava. A rotação parou. – Então, Arquiteto – Kratos disse. – Você previu a minha morte, mas aqui eu estou. O capacete do coríntio virou o suficiente para que Kratos pudesse ver um fogo verde e frio através das fendas dos olhos. – Nenhum homem jamais sobreviveu à Arena da Memória.
– Até agora. – Mas a Caixa de Pandora nunca será sua.
O Arquiteto levantou um dedo blindado, e a tampa da caixa em seu colo se abriu. Kratos apreendeu o pulso do Arquiteto em um aperto do qual nenhum
mortal consegueria se livrar. A armadura era surpreendente quente. – Chega de truques – Kratos disse. – Diga-me como chegar à Caixa, e eu o deixarei viver. – Você não irá, porque não estou vivo.
Kratos apertou o pulso do Arquiteto até que a armadura cedeu sob seus dedos. – Você está vivo o suficiente para falar, então está vivo o suficiente para sofrer. – Faça como queira.
Kratos rosnou e cerrou o punho. A armadura enrugou como uma folha seca, mas de seu aperto esmagador, nenhum sangue fluiu, somente vapor, quente o suficiente para queimar a mão de Kratos. Com uma maldição, Kratos arrancou o braço e atirou-o no ombro. Da articulação cortada, assobiou outra explosão de vapor, que desapareceu quando uma placa de metal dentro da armadura deslizou para fechar o furo. Kratos franziu a testa ao olhar dentro da armadura vazia, sem carne ou osso, contendo tubos de latão apenas e engrenagens de esboço desconhecido. – Que tipo de criatura é você? – Eu sou – disse a voz, que Kratos agora notou vir de debaixo do estrado em vez do capacete – o que resta do Arquiteto. Eu sou a sua invenção final.
Os olhos de Kratos se arregalaram. – A Anticítera... – Eu controlo o templo. Eu sou o guardião do seu último desafio. Olhe dentro da caixa em meu colo.
Kratos se aproximou e espreitou dentro do dispositivo preenchido com uma multidão de pequenas hastes fixadas sucessivamente e amontoadas. Agulhas, Kratos percebeu. Aqui e ali, algumas dessas agulhas eram rebaixadas a uma ou outra altura, as depressões tinham exatamente o diâmetro dos dedos das luvas blindadas vazias que estavam nas mãos de Kratos. Ele supôs que suas alturas e configurações controlavam de alguma forma os vários mecanismos em todo o templo. Havia também agulhas pregadas horizontalmente em todas as quatro paredes. – Pressione-as. Em qualquer lugar.
Kratos ponderou. Poderia facilmente haver algo a mais na caixa do que apenas agulhas, e elas estavam descoloridas nas pontas. Veneno? Que tipo de veneno ainda poderia matar depois de mil anos? Somente uma pessoa saberia a resposta para essa pergunta: o Arquiteto. Em vez de usar o próprio dedo, Kratos utilizou o dedo blindado das luvas que ele segurava. Imediatamente, as agulhas horizontais saltaram das paredes e apunhalaram o dedo da luva. Depois de bater no bronze, as agulhas retornaram aos seus lugares. – Se você tivesse pressionado com o seu próprio dedo, a sua mão teria sido presa pelas agulhas, e você estaria morrendo, em uma dor tremenda, por conta do sangue da Hidra de Lerna, que tinge cada ponta.
– Então? Eu devo adivinhar o formato que irá revelar a Caixa de Pandora? – Não – o arquiteto, ou melhor, a Anticítera respondeu. – Eu lhe direi: é do formato do rosto de um homem, prensado dentro das agulhas.
Kratos pensou nas muitas estátuas e relevos em todo o templo, certamente ele encontraria a cabeça de um homem de estátua... – O rosto deve ser de carne. As agulhas devem se fincar totalmente e permanecer no local – a voz sem emoção, disse. – Para chegar à Caixa de Pandora, um homem deve morrer.
Kratos pensou no homem na gaiola; por um breve momento, ele se arrependeu de ter matado o velho idiota. – E essa é a sua única chance. Essa configuração das agulhas irá funcionar por um curto período depois de a janela acima ter sido abalada. Uma vez que a Carruagem de Hélios dominar os céus, as estátuas, e as caixas nos discos que elas carregam, desaparecerão à luz do meio-dia. Só você chegou até aqui. Ninguém que o seguir terá qualquer chance.
Kratos assentiu. Ele apreciava a complexidade elegante dessa armadilha final. Ele disse: – Mas você, isto é, o Arquiteto, o seu criador, sempre deixou uma forma de vencer. – Até agora.
Kratos apertou os olhos sobre o disco suportado pelas mãos dos Reis Irmãos, muito acima, ao sol brilhante. Ele agora via uma mancha sobre ele, e seu
coração se encheu de raiva. Ele não tinha chegado tão longe para ser negado. Aqui, onde ele podia ver a Caixa, não se permitiria falhar.
– Atena me contou que não há nenhuma maneira de sair deste templo sem a Caixa de Pandora – disse ele. – Então, eu vou morrer aqui, em sucesso, ou morrer mais tarde pelo meu fracasso. – Você está prestes a morrer.
– Já que eu estou prestes a morrer, não há mais necessidade de segredos, não é? – Kratos disse. – Diga-me por que este templo foi projetado dessa forma, diga-me por que cada armadilha, labirinto e quebra-cabeça tem uma solução? Por que projetar defesas fantásticas ao redor da mais poderosa arma da criação, mas deliberadamente projetar cada uma delas com a possibilidade de serem superadas? – Porque Zeus ordenou que fosse assim. – Zeus? – Kratos franziu a testa. – Mas por quê? – Eu sou um servo fiel dos deuses. Eu não questiono. Eu obedeço. A lógica era óbvia: Zeus ordenou que todos os quebra-cabeças tivessem uma resposta; cada armadilha, uma fuga, e o arquiteto foi fanaticamente leal. O que só podia significar que esse último quebra-cabeça mortal não seria diferente dos outros. O Arquiteto tinha colocado seus filhos em caixões. A pedido de Zeus? Suas cabeças provaram ser a chave para entrada por desafios progressivamente perigosos. Por duas vezes isso tinha acontecido. Duas vezes. Será que o Arquiteto faria mau uso de suas crianças? A menos que... – Uma última pergunta. – Seu tempo está se esgotando. – Eu sei – Kratos disse, pensando – O seu também.
– A minha pergunta final: como um dispositivo simples, um mecanismo movido a vapor, não importa o quão inteligentemente projetado, pode compreender e responder a tudo o que eu digo? Sem esperar por uma resposta, Kratos lançou-se para a traseira do trono com a agilidade de uma pantera e apreendeu com as duas mãos o capacete do corinto que repousava sobre os ombros blindados. Ele parecia estar mais firmemente ancorado do que o braço. Kratos teve de torcê-lo ferozmente e puxá-lo para cima com toda a sua força para arrancá-lo dos ombros. Em
seguida, ele colocou o capacete debaixo do braço e procurou dentro com a outra mão, pegando o que encontrou como se fosse um caracol em uma concha. Era uma cabeça humana. O cabelo que uma vez a tinha adornado séculos atrás havia se desfeito em pó, mas essa cabeça claramente ainda tinha um sopro de vida. Lágrimas jorraram de seus olhos, sua boca se moveu em silêncio, e a voz vinda do estrado finalmente exibiu alguma emoção. Terror. – Pare! O que você está fazendo! Você não pode!
– Eu posso. Kratos pensou que realmente deveria contar ao morto-vivo ancião que supervisionava os fogos na frente do templo, que ele estava certo o tempo todo e que o Arquiteto insano do Templo de Pandora ainda vivia, assombrando sua obra-prima milenar. Em suas mãos estava a chave para a fechadura final. Kratos não viu nenhuma razão para hesitar. – Não! Não, não, não! POR FAVOR!
Kratos comprimiu a cabeça imortal do Arquiteto dentro da caixa. A voz musical de órgão vinda do estrado gritou em pânico e desespero, enquanto as agulhas envenenadas esfaqueavam a cabeça a partir de todas as quatro paredes da caixa e de cima abaixo. Elas se alojaram em seu rosto, em seu pescoço, atravessaram as têmporas e furaram seus olhos em uma ebulição de lancetas poderosas. Com os lábios imobilizados aos seus dentes, até mesmo a voz artificial do Arquiteto só podia gemer e choramingar sem palavras. As paredes da câmara roncaram quando despertaram para abaixarem-se em torno de Kratos. Um instante depois, ele percebeu que o estrado do trono onde estava se levantou, tornando-se um pilar de pedra que subiu continuamente, até caber perfeitamente através do buraco deixado no teto pela janela quebrada. Depois disso, elevou-se ainda mais e mais, levantando Kratos e o trono a centenas de metros no ar, até finalmente empurrá-lo através do orifício no centro do enorme disco... e parou. Kratos ficou parado por um momento, sentindo os olhos dos Reis Irmãos sobre ele. Apenas a um passo ou dois à frente dele estava uma arca, tão alta quanto Kratos e três vezes a sua largura, construída com um metal impossivelmente brilhante que cercava-se de joias de ouro maiores que a sua cabeça. E então: lá estava ela. A Caixa de Pandora.
Finalmente. Mas Kratos não sentiu alívio, nem triunfo, porque isso não era o fim de sua jornada. Era apenas mais um ponto ao longo do caminho. O final dessa história estaria em Atenas. Ele olhou para cima e viu que a parte acima da sobrancelha da estátua de Zeus havia desaparecido, desmaterializando-se com o raiar do sol. Enquanto observava, as nuvens cirros das sobrancelhas de Zeus se evaporaram. Assim como o topo da cabeça de Poseidon. Kratos pulou do trono, correu pela extensão do disco transparente até a caixa enorme, e descobriu um novo problema quando tentou parar: ele não podia. Ele escorregou para a direita da Caixa com um impacto de tirar o fôlego, o que também empurrou a arca poucos passos mais longe do trono de pilar. A substância misteriosa era ainda mais escorregadia que vidro com óleo. Kratos olhou em volta em desespero enquanto cuidadosamente circulava o outro lado da caixa. As labaredas presas aos lados chamejaram. As joias de ouro que incrustavam o topo pulsaram com energia. Mas nada disso ajudou. Ele nunca teria apoio suficiente nessa superfície para empurrar ou puxar algo tão grande. Se ele tivesse algo para jogar, talvez pudesse golpeá-la em seu caminho... mas o que ele poderia jogar que teria peso suficiente para mover a arca? Ocorreu-lhe, então, que a localização da caixa no disco não teria sido um acidente, estava quase a meio caminho da borda. E descansava exatamente na linha entre o trono de pilar e a estátua de Zeus, como se esse teste final fosse concebido especificamente para ele. Olhando para a estátua do Pai dos Céus em desaparecimento, Kratos percebeu que o próprio Zeus lhe tinha dado o único caminho possível para mover o peso enorme sobre essa superfície incrivelmente escorregadia em tão pouco tempo. Ele deu alguns passos cuidadosos em direção à estátua e inclinou sua cabeça. – Senhor Zeus. Você previu este momento? É por isso que você me concedeu uma fração do seu poder? Sem resposta vindoura, Kratos rolou e alcançou por cima do ombro direito para agarrar o relâmpago sólido. Ele assumiu uma postura mais ampla para se equilibrar e jogou o raio no disco, um pouco abaixo da Caixa. A impressionante detonação teve exatamente o efeito que Kratos esperava: a Caixa deslizou alguns metros em direção ao trono de pilar. Mais seis raios empurraram-na para a beira do pilar em si. Kratos se dirigiu para a base mais firme do pilar e pôs o seu pé contra a parte de trás do trono do Arquiteto.
– Já que você ama tanto os deuses – Kratos disse enquanto chutava o trono para fora do pilar e enviava-o girando em direção à estátua de Hades. – Fique com eles para sempre. Ele se virou, pegou um pedaço protuberante de metal da arca, e arrastou o recipiente que seria a destruição de Ares para o pilar, que imediatamente começou a descer. Na longa viagem em queda, Kratos só podia olhar para a Caixa, pensativo. Ele tinha sido informado de que essa coisa era uma arma, a única arma que permitiria que um mortal matasse um deus. Ainda assim, Zeus tinha ordenado ao Arquiteto que projetasse o templo para que um mortal pudesse ter sucesso e pudesse reivindicar o poder da arca. Ele lembrou-se das palavras de Atena: Zeus proibiu os deuses de guerrearem uns contra os outros. Tal decreto devia ser compulsório, mesmo sobre o próprio Zeus. Será que Zeus ordenou que um único caminho tivesse que ser deixado em aberto, porque, mesmo mil anos atrás, ele havia previsto que um dia um deus deveria ser morto?

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