Joca e Nelson , eram os dois filhos mais velhos de D° Marilene . Eram considerados muito inteligentes , consertavam de tudo . Rapazes muito gentis e agradaveis com todos . Lembro - me que uma vez construiram um helicóptero com pequenas chapas de metal para que meu irmão e eu brincássemos . Foram ótimos brinquedos .
Quando estes jovens cresceram , tornaram - se mecânicos , abrindo sua própria oficina . Casaram - se e tiveram filhos . Contudo , algo muito trágico se abateu sobre eles : em um assalto na oficina , Joca foi morto pelos assaltantes . Lamentei por essa desgraça ter acontecido com pessoas tão boas .
D° Marilene , ainda tinha duas filhas gêmias , Mônica e Simone . Eram idênticas , quase impossível de diferenciá - las . Curiosamente , meu irmão e eu , sabíamos diferenciar uma da outra . Será que era por sermos gêmeos também ?
Havia um outro menino , mas não sei dizer se era seu filho ou não . Não chegamos a ter amizade com ele . Me lembro de um aniversário , na casa dela . Willian e este garoto eram os aniversariantes . Havia muita gente e foi durante a noite , havia bolo , bolas espalhadas pelo teto , refrigerantes em garrafas de vidro , docinhos , tudo o que se encontra nas festas de crianças . Joca e Nelson , soltaram um balão branco com os nomes dos garotos , que subiu até o céu noturno , com o seu interior tremulando com o fogo da bucha . E perto do fim da festa , estouraram uma bechiga enorme cheia de pequeninos carrinhos sortidos em cores diferentes , para que as crianças os pegassem na confusão . Alguns pegaram de mais , outras de menos , mas foi muito divertido . No dia seguinte , todas as crianças brincavam com seus carrinhos chamados TUTU .
De frente para casa de D° Marilene , havia outra casa de dois andares e um enorme quintal . O pessoal que morava nesta casa eram talvez parentes de nossa senhoria . Costumávamos brincar por ali com a turma : Willian , Mônica e Simône , meu irmão e eu .
Certa vez , descobrimos que havia um enorme buraco por baixo do solo , e era muito fundo . Bem , pelo menos para crianças de nossa idade . Tinhámos o cuidado de não chegarmos muito perto para não caírmos dentro . Pensávamos que era um buraco tão profundo que saía lá na China . Mas , como criança é curiosa , os avisos dos adultos eram mais estimulo para brincar por ali . Dizia - se que o próprio dono da casa caiu quando o solo fofo cedeu com seu peso . Descobrimos que o buraco não era tão fundo assim como imaginávamos . :-)
Ao lado desta casa havia um outro conjunto de casas, uma encima da outra . Um enorme portão com grade separava o quintal destas casas . A casa de baixo parecia - se com um porão , as casa de cima ,faziam com que a entrada parecesse um túnel . Poucas vezes fui ali . Algumas vezes brincando ou com meu pai andando com ele .
Meu pai conhecia o velho que ali morava . O velho era um benzedor ( curandeiro ) , desses que pegam um galho de arruda e rezam para tirar mau - olhado , espinhela caída e toda sorte superstição do mundo .
O final destas casas era o canteiro de rosas . Aqui se encerra o quadro das casas da senhoria D° Marilene .
Entretanto , havia , paralelo a este quadro , um terreno mais elevado . O quarto que morávamos era ao lado deste terreno . Pertencia a uma enorme família de negros . Meus pais os conhecia e minha mãe era muito amiga deles . Vitamos muitas vezes eles quandfo saímos dali . Mas o terreno era longo , não havia cerca ou muros dividindo os lotes , só a altura do terreno os diferenciáva .
Era como se fosse dividido em três degraus os lotes . No primeiro degrau , havia uma casa enorme dividida em duas . Na parte maior , de frente para o quintal , vivia Dunga , com sua filha que chamávamos de Pitititinha , e seu esposo que não me recordo o nome . Pitititinha , era pequena , mas tinha a mania de atirar pedras na gente . Uma vez acertou mu irmão com uma pedra enorme e abriu sua cabeça . Foi muito sangue . Foi uma confusão . Ela sempre ameaçava jogar pedras na gente , mas tinha mania de escolher meu irmão para alvo . Nossa mãe sempre vinha em nosso socorro , enquanto , Dunga , dava uma surra em Pitititinha por machucar meu irmão .
Na parte dos fundos daz casa , onde se estendia um corredor pelo muro vizinho e terminava numa escada pitoresca , que era a entrada do terreno ( a entrada da esquerda ) , morava o irmão de Dunga , conhecido pelo nome de Cabeça . Era um escuro alto e forte , mas tinha algo estranho nele . Certas noites , ele incorporava com entidades , a família pertencia ao candonblé , e isso era comum entre eles . Mas , para mim era assustador . Ficavamos trancado em casa . Não se podia ficar na frente dele , porque era muito agressivo . Uma vez , ele espancou sua irmã mais nova , Kagunha , de uma forma brutal e teria matado ela se não fosse a intervenção da policia . A agressão ocorreu a luz do dia , na frente de todos .
No segundo degrau do terreno , a casa era da Kagunha . Um pouco menor que a outra que pertencia a sua irmã , apenas um comodo , mas muito bem feita . Ao lado da casa havia um tanque , onde todos lavavam roupas . Acima do tanque havia uma caixa. D' água sustentada por quatro colunas de concreto .
Kagunha tinha filhos , mas nunca os vi com ela . Era trocadora de ônibus por toda sua vida pelo que soube . A amizade com miha mãe ja era antiga .
No terceiro e último degrau , só havia um banheiro feito de madeira e telhas de zinco enferrujada ; uma vegetação rasteira e um enorme pé de manga .
Essa é a descrição do cenário em que vivíamos no conjunto de casas alugadas na Rua Arapá , onde moramos .
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